Saúde e Bem estar

Reizinho da casa: Como sei que meu filho tem Transtorno Desafiador Opositivo?

Crianças que se recusam a seguir regras nem sempre significa birra. Entenda!

Bruna Taiski
29/04/21 às 08h05

Uma criança levanta a mão para os pais, grita sem parar e se joga no chão. Provavelmente você já vivenciou ou se deparou com uma cena dessas, já que uma birra aqui, outra ali é normal e inerente ao desenvolvimento das crianças. Quando os chiliques ficam cada vez mais frequentes e já não têm lugar certo para acontecer (escola, casa, restaurante, casa das avós) podem significar um problema comportamental sério chamado Transtorno Desafiador Opositivo (TDO), também apelidado como síndrome do imperador ou síndrome do reizinho.

Como o próprio nome indica, caracteriza-se pela desobediência contínua às figuras de autoridade, como pais e professores; explosões de raiva; tentativas de irritar os outros e culpá-los por seus erros; comportamento antissocial e impulsividade.

É mais comum em crianças entre 08 e 12 anos de idade e com a maior frequência em meninos. Segundo o psiquiatra Antônio João, o TDO pertence a um grupo de transtornos chamados ‘disruptivos’ - onde estão os transtornos do TDAH, TDA, entre outros que as crianças podem ter nessa faixa de idade. A criança ou adolescente discute excessivamente com adultos; não aceitam responsabilidade por sua má conduta; incomodam deliberadamente os demais; possuem dificuldade de aceitar regras e perdem facilmente o controle se as coisas não seguem a forma que eles desejam.

Mas, como diferenciar uma birra comum da patologia? Todas as crianças passam por fases difíceis que, muitas vezes, poderiam ser descritas como “de oposição”, especialmente quando se está cansado, com fome, estressado ou chateado. Quando eles estão assim podem discutir, conversar, desobedecer e desafiar os pais, professores e outros adultos. Há também momentos no desenvolvimento normal que o comportamento de oposição é esperado como, por exemplo, entre dois a três anos de idade ou, até mesmo, na pré-adolescência. 

“As crianças que comumente têm só birra, que estão tentando chantagear pai e mãe ou cuidadores e que têm comportamento instável - uma hora obedecem; outra hora não obedecem; hora criam problemas, criam atritos e, depois, entram em um comportamento de obediência; essas crianças não têm o TDO”.

“Entretanto, o comportamento hostil se torna uma preocupação quando é frequente e consistente; que se destaca quando comparado com outras crianças da mesma idade e nível de desenvolvimento; quando passa a afetar a família no social e na escola”.

Crianças com transtorno desafiador opositor (TDO) geralmente apresentam um padrão contínuo de comportamento não cooperativo; desafiante; desobediente - incluindo resistência às figuras de autoridade. O padrão de comportamento pode incluir:

Frequentes acessos de raiva;

Discussões excessivas com adultos - muitas vezes, questionando as regras;

Desafio e recusa em cumprir com os pedidos de adultos;

Deliberada tentativa de irritar ou perturbar as pessoas;

Culpar os outros por seus erros e mau comportamento;

Muitas vezes, ser suscetível ou facilmente aborrecido pelos outros;

Frequente raiva e ressentimento;

Agressividade contra colegas;

Dificuldade em manter amizades;

Problemas acadêmicos.

O psiquiatra destaca que há especificamente uma responsabilidade dos pais sobre o TDO. Veja alguns dos fatores que podem facilitar o desenvolvimento da síndrome: o conflito entre os pais, violência doméstica, abuso físico, abuso sexual, o uso de substâncias indevidas por parte dos pais e responsáveis; e a negligência dos filhos. 

“A criança, vendo este ambiente e sendo colocada à margem, sente-se deslocada, fora da família; não recebe toda a atenção que precisa na sua idade e não amadurece o seu senso emocional. Onde estaria esse conteúdo de segurança - e de inserção na família e na sociedade - que os pais repassam?”.

“Uma situação que possa dar ênfase nesse diagnóstico é que frequentemente essa criança é rancorosa e vingativa. Esses sintomas precisam estar presentes pelo menos por seis meses sem melhora. É o uso continuado e frequente nos últimos seis meses que leva ao estado de alerta: 'está acontecendo alguma coisa'; a partir daí deve-se buscar alguma ajuda” - explica.

O tratamento requer abordagem multidisciplinar e, principalmente, medidas psicoterápicas, psicoeducativas e estratégias de como agir e conduzir esta criança em casa e na escola. Conhecer bem o transtorno é o primeiro passo - naturalmente.  “É possível corrigir essa situação em tempo hábil, porque ela pode ser evolutiva. Se não corrigida, essa criança chegará à adolescência - onde há uma época de extrema instabilidade emocional - já instável e com problemas emocionais bastante aguçados. Imagine chegar à adolescência dessa forma?”.

QUANDO DIZER “NÃO”

A grande verdade - se é que existe alguma certeza nessa vida - é essa: todo ser humano se frustra desde o momento em que aterrissa nesse mundo. Não há como evitar isso, por mais que doa ver um filho sofrer. Tentar satisfazer completamente as vontades e evitar dizer o famoso “não” - achando que isso trará felicidade - é inútil. Conforme o psiquiatra, ensinar os filhos a esperar e persistir faz parte do papel de pais e mães. Se os adultos não derem limites e não negarem alguns caprichos às crianças, elas não aprenderão a lidar com as adversidades que surgirem pelo caminho – e isso se torna um problemão lá no futuro.

Dar limites é extremamente importante para a formação. O especialista lembra que, atualmente, existe uma “ditadura do prazer”, em que não se pode adiar uma vontade. Por isso, muitos pais tentam fazer de tudo para que a criança não se frustre e acabam criando pequenos paraísos artificiais para os filhos, onde qualquer desgosto é sanado com doces e presentes.

“Os pais de hoje, usam uma expressão comum, que é muito ruim 'Vou dar ao meu filho tudo o que eu não tive'. Às vezes, vêm de condições socioeconômicas desvantajosas e não tiveram bens materiais que outros tiveram. Mas, eles se esquecem de que chegaram nessa fase com os princípios éticos, morais e religiosos construídos”.

 “Então, os pais dão tudo aquilo que a sociedade disponibiliza: eletrônicos, a mídia, a bicicleta; mas, se esquecem de dar limites. Os filhos não sabem mais sobre limites; eles não conhecem o 'não'; apenas o 'sim'. Eles não se frustram, não se formam em cima de frustrações que dão limites”.

Mas, qual é a medida certa das negativas? Não existe receita pronta! “Temos de usar o ‘não’ somente quando for preciso. Se bater o sentimento de culpa, os pais podem e devem relaxar quando isso acontecer. O mais importante para a criança é perceber que há alguém que cuida dela e que decide. O ‘não’ é muito chato de ouvir, mas também pode deixar a criança menos angustiada diante de um excesso de sensações ou em momentos de escolha que ela ainda não tem condições de fazer”.

NA ESCOLA

Depois do lar, a escola é o ambiente mais comum de manifestações do Transtorno Desafiador Opositivo. Apesar da experiência e formação pedagógica dos profissionais da educação, a responsabilidade total – segundo o psiquiatra – não deve ser transferida para a instituição. 

 “A escola hoje é formadora de opinião; formadora de responsabilidades - até mesmo da construção do caráter, levando essa criança a entender os seus princípios éticos e morais. A família só quer saber se ela está tirando boas notas e fim”.

“E é claro que a escola não é responsável por nada disso; ela apenas informa tudo aquilo que a criança precisa saber para aumentar e dar corpo ao seu conhecimento. Ela precisa conhecer todas as ciências, todas as relações humanas, exatas - essa é a responsabilidade da instituição: informar. Quem forma são os pais; os pais é que dão os rumos éticos, morais e religiosos para as crianças. Infelizmente, com os afazeres e os deveres que eles buscam para chamar de ‘conforto para a criança’, acabam negligenciando e deixam que a escola faça tudo isso”.

O senso de autoridade é outro ponto importante que o profissional ressalta. “A primeira coisa que as crianças querem - por não terem em casa- é o senso de autoridade. Não estou falando nem autoritarismo - que é o grito, o castigo, o tapa; o senso de autoridade é acreditar e obedecer aquele que manda. Porque se não obedecem aos seus pais - que seriam os ícones da responsabilidade - como ele vai obedecer o professor? A pedagoga? O policial? Ele não vai obedecer ninguém – os pais não a deram; a origem dessa obediência foi deformada”.

As crianças, por terem mais “direitos” do que “deveres”, desenvolvem uma baixa tolerância à frustração, na qual o primeiro sinal é a explosão de raiva quando seus caprichos não são atendidos. De acordo com o psiquiatra, alguns adultos, submetidos a uma educação mais rígida, acabam não querendo cometer os mesmos erros que seus próprios pais. Com isso, afrouxam na educação dos filhos, o que pode acabar tornando-se um dos motivos para a agressividade.

“Os filhos não obedecem, porque não é cobrado isso deles; a responsabilidade. Que filho hoje ajuda a mãe a lavar uma louça, a varrer uma casa - que é a primeira relação de responsabilidade com o trabalho? Não vemos mais isso; os filhos são privilegiadíssimos - a eles é proibido qualquer tipo de frustração. É uma pena que se esquecem de que nós somos adultos - reflexos da nossa construção, da primeira infância, da segunda infância e da adolescência”. 

“Muitos desses transtornos estão relacionados com a competência dos pais a serem pais ou não; dar tudo não é ser um bom pai; dar aquilo que pode ser dado, dentro do limite e no momento oportuno é a escolha certa”.

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