Nos dias atuais, cada vez mais pessoas optam por não ter filhos e encontram nos animais de estimação uma importante fonte de companhia, afeto e cuidado. O fenômeno, que popularizou a expressão
“pais de pet”
, também levanta discussões sobre os limites dessa relação e sobre até que ponto os animais podem ocupar, simbolicamente, um espaço semelhante ao de um filho.
Para entender melhor esse comportamento e os aspectos psicológicos envolvidos nessa relação, a Rara Gente conversou com Sheila Cordeiro, psicóloga e psicanalista, mestre em Psicologia e docente do curso de Psicologia da AEMS.
Segundo a especialista, mais do que falar em substituição de um filho por um animal, é necessário compreender o tipo de vínculo construído entre o tutor e o pet. Para ela, essa relação pode proporcionar sentimentos importantes para o ser humano, como amor, reconhecimento e cuidado.
A psicóloga cita como exemplo o comportamento dos cães ao receberem seus tutores. A demonstração de alegria e afeto pode contribuir para que a relação seja percebida como tranquila e saudável, além de alimentar uma necessidade natural do ser humano: a de cuidar e também se sentir cuidado.
Sheila Cordeiro, psicóloga e psicanalista (Foto: Arquivo Pessoal)
Dessa forma, segundo Sheila, o animal não necessariamente ocupa simbolicamente o lugar de um filho ou de outro ser humano. O que ocorre é a construção de uma relação capaz de proporcionar afeto, companhia e a sensação de ser amado e necessário.
Por que algumas pessoas escolhem não ter filhos?
Para a especialista, a decisão de não ter filhos também precisa ser analisada considerando as transformações da sociedade contemporânea. Sheila afirma que, em sua experiência no consultório, percebe que algumas pessoas têm receio de assumir a responsabilidade de criar uma criança diante das mudanças na forma como as relações familiares e o acesso à informação acontecem atualmente.
“Hoje, as pessoas têm um medo, de um modo geral, de terem filhos. Algo que vejo muito no consultório é que algumas pessoas não querem ter filhos exatamente porque não se sentem seguras em criá-los diante da forma como a sociedade responde”, relata.
Entre os fatores apontados pela psicóloga está a velocidade com que crianças e adolescentes têm acesso a informações por meio da internet e das redes sociais. Se antes o contato com determinados conteúdos dependia, em grande parte, da autorização e do controle dos pais, atualmente esse acesso pode acontecer de maneira muito mais rápida e ampla.
Sheila cita como exemplos os vídeos curtos, como Shorts e Reels, que podem manter os usuários constantemente expostos a novos conteúdos. Para ela, esse cenário também ajuda a compreender a insegurança de algumas pessoas diante da possibilidade de criar filhos em uma sociedade marcada pela velocidade da informação.
A psicóloga também destaca o crescimento do uso da inteligência artificial como ferramenta de aconselhamento e busca por informações. Segundo ela, embora a tecnologia possa ser utilizada como recurso, é necessário desenvolver consciência sobre a maneira adequada de utilizá-la.
(Foto: Pexels / Helena Lopes / CreativeCommons)
A influência do mercado na relação com os pets
Outro aspecto apontado por Sheila é a influência do consumo na maneira como os animais de estimação são percebidos pela sociedade. O crescimento do chamado mercado pet também contribui para a criação de expectativas em torno da relação entre tutores e animais.
Segundo a especialista, o mercado de produtos e serviços para animais tem apresentado crescimento e, paralelamente, contribui para fortalecer uma imagem do pet como uma fonte de amor incondicional.
“Hoje, um dos mercados que mais crescem é o mercado de pets. As pessoas que trabalham com esse mercado têm visto um crescimento econômico muito grande. Naturalmente, a sociedade tem investido nessa expectativa do amor perfeito nos animais”, afirma.
Para Sheila, porém, é importante diferenciar aquilo que é construído pelo mercado e pela sociedade daquilo que realmente acontece na relação entre tutor e animal. Em alguns casos, a percepção de que o pet deve ocupar um lugar de amor perfeito pode estar relacionada a uma construção coletiva, e não necessariamente à dinâmica daquela relação específica.
Quando o vínculo deixa de ser saudável?
A chamada
“humanização”
dos animais também precisa ser observada com cuidado. Para Sheila, não existe uma fórmula capaz de determinar, de maneira universal, quando a relação entre tutor e pet ultrapassa os limites do saudável.
“A humanização dos animais de estimação e a identificação de sinais de excesso ou adoecimento dependem, fundamentalmente, de uma análise individualizada”, explica.
Segundo ela, existe uma linha tênue entre um vínculo afetivo intenso e comportamentos que podem provocar sofrimento. Por isso, é necessário observar o contexto em que a relação está inserida.
“Não é possível estabelecer uma lista universal de critérios para determinar se uma relação é prejudicial ou psicologicamente saudável. É necessário investigar o lugar que o pet ocupa na vida daquele indivíduo, como é a rotina do tutor e de que maneira o animal se insere nesse contexto”, afirma.
A psicóloga ressalta que dedicar tempo, carinho e cuidados ao animal não significa, por si só, que exista uma relação de dependência ou excesso. O ponto de atenção aparece quando essa relação começa a prejudicar outras áreas da vida do tutor.
Assim, para a especialista, ser “pai” ou “mãe de pet” não representa necessariamente uma tentativa de substituir a experiência da parentalidade. O significado desse vínculo depende da história de cada indivíduo, das necessidades emocionais envolvidas e do espaço que o animal ocupa em sua vida.