(Foto: Reuters)
O que começou com um vídeo no Instagram e publicações virais no TikTok terminou com dezenas de milhares de pessoas atravessando a nado ou a pé a fronteira entre Marrocos e o enclave espanhol de Ceuta, na última semana de julho. Em apenas 24 horas, cerca de 49 mil migrantes entraram no território, número que, segundo estimativas das autoridades locais, pode ter chegado a 60 mil ou 72 mil nos dias seguintes.
A crise, que já deixou pelo menos 72 mortos confirmados (com grupos de direitos humanos falando em mais de 100), expôs as profundas divisões da União Europeia sobre imigração, reacendeu tensões diplomáticas entre Espanha e Itália, e levantou uma questão incômoda: as redes sociais podem ser usadas como arma para desencadear fluxos migratórios em massa?
Como tudo começou: o poder (e o perigo) de um vídeo viral
A história da crise de Ceuta não começou com uma guerra, nem com uma fome generalizada, nem com uma crise econômica. Começou com rumores. Publicações no Instagram sugeriam que a fronteira entre Espanha e Marrocos estava prestes a abrir.
No TikTok, vídeos mostravam o percurso exato que os nadadores deveriam seguir para contornar a barreira. No Facebook, grupos compartilhavam capturas de tela de plataformas de rastreamento de embarcações para identificar os momentos em que as patrulhas da guarda-costeira estavam menos numerosas.
"Vi na internet que a fronteira estava aberta e decidi ir", disse Omar Danbor, de 17 anos, residente em Fnideq, enquanto caminhava exausto de regresso pela costa.
Em poucas horas, jovens começaram a se dirigir para a fronteira. Autocarros apinhados chegavam à cidade marroquina vizinha de Fnideq. Os comboios suburbanos encheram-se. Os táxis também. Quando as autoridades reagiram, estimava-se que cerca de 60 mil pessoas tinham chegado a Ceuta em apenas alguns dias.
A União Europeia atribuiu a gravidade do caso justamente a essa campanha de desinformação nas redes sociais. O comissário europeu para Migrações, Magnus Brunner, afirmou que a onda migratória foi impulsionada por redes criminosas de tráfico humano e por campanhas de fake news.
A crise pegou a Europa em um momento delicado. Partidos de extrema-direita vêm ganhando força em todo o continente, e a imigração é uma das questões mais polêmicas da agenda política.
Na Itália, o partido da primeira-ministra Giorgia Meloni, Fratelli d'Italia, publicou imagens de migrantes correndo pelas ruas de Ceuta com a legenda: "Este é o modelo Sanchez que a esquerda italiana tanto aprecia". Meloni anunciou a suspensão do acordo de Schengen entre a Itália e a Espanha, alegando uma ameaça à segurança.
O ministro das Relações Exteriores da Itália, Antonio Tajani, foi além, afirmando que a política de anistia da Espanha havia "incentivado o tráfico de pessoas". A Espanha convocou o embaixador italiano para protestar.
A França anunciou o aumento das fiscalizações na sua fronteira com a Espanha. O Reino Unido manifestou preocupação. Vinte e dois Estados-membros da UE assinaram uma carta conjunta pedindo ação coordenada e reforço das fronteiras externas.
A reunião de emergência da UE: o que foi decidido?
Na terça-feira (4), a União Europeia realizou uma reunião de emergência para debater a crise. O resultado foi mais simbólico do que prático: o bloco demonstrou união, mas não anunciou medidas concretas.
A UE afirmou que o Espaço Schengen não foi comprometido pela crise, um recado indireto à Itália. O comissário Brunner destacou que não há relação direta entre o episódio e a política de regularização de imigrantes do governo espanhol.
O governo espanhol anunciou 25 milhões de euros para atender principalmente os menores desacompanhados e atualizou para 141 o número de mortos durante a travessia.