A morte do fisiculturista e influenciador Gabriel Ganley, de 22 anos, encontrado sem vida no último sábado (23) em seu apartamento na Mooca, Zona Leste de São Paulo, reacendeu o debate sobre os riscos do uso indiscriminado de anabolizantes.
O atestado de óbito apontou como causa da morte uma morte súbita decorrente de cardiomiopatia hipertrófica, condição em que o músculo do coração (miocárdio) se torna anormalmente espesso, dificultando o bombeamento de sangue e o relaxamento do órgão.
(Foto: Reprodução/Redes Sociais)
A doença que vitimou o atleta
A
cardiomiopatia hipertrófica (CMH)
é uma doença do músculo cardíaco marcada pelo espessamento das paredes do coração, principalmente do ventrículo esquerdo, a principal câmara de bombeamento do órgão. Esse espessamento reduz o espaço interno onde o sangue se acumula antes de ser bombeado e pode desorganizar os impulsos elétricos que comandam os batimentos cardíacos, favorecendo arritmias potencialmente fatais.
Em alguns casos, a doença permanece silenciosa por anos e só é descoberta após episódios graves, como arritmias ou parada cardíaca. A CMH é considerada a doença cardíaca genética mais comum e está frequentemente associada a mutações hereditárias. Estima-se que afete pelo menos 1 em cada 500 pessoas.
Genética ou anabolizantes: as duas faces da mesma moeda
A cardiomiopatia hipertrófica clássica é considerada uma doença genética, com padrão de herança autossômico dominante, e está entre as principais causas de morte súbita em jovens atletas. No entanto, o próprio atestado de óbito de Gabriel Ganley, e especialistas ouvidos pela imprensa, aponta que a condição também pode ser adquirida ou agravada por condições como exposição a esteroides anabolizantes.
O coração também é um músculo e, com os esteroides, ele passa a trabalhar contra uma resistência maior e começa a sofrer hipertrofia. Só que esse crescimento acontece de forma desorganizada. Diferente do crescimento dos músculos esqueléticos, muitas vezes o objetivo de quem usa essas substâncias, o aumento exagerado do músculo cardíaco pode comprometer a capacidade do órgão de manter o organismo vivo.
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O uso confessado de anabolizantes
Nas redes sociais, Gabriel falava abertamente sobre o uso de hormônios. Ele havia contado aos seguidores que começou a usar anabolizantes há cerca de um ano. Ele mencionava inclusive o uso de insulina e listava o que considerava um “protocolo” para ganho de massa muscular. O boletim de ocorrência registrado pela Polícia Civil informa que no apartamento foram encontrados e apreendidos medicamentos apontados inicialmente como possíveis anabolizantes.
A investigação segue em andamento, e a polícia aguarda os laudos do Instituto Médico Legal (IML) para esclarecer se o uso de anabolizantes teve relação direta com o desenvolvimento ou a aceleração da doença cardíaca. A Secretaria da Segurança Pública informou que o caso é investigado por meio de inquérito policial.
Os riscos comprovados do uso indiscriminado de anabolizantes
Dados da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) apontam que o Brasil é um dos maiores consumidores de anabolizantes do mundo, com cerca de 1 milhão de brasileiros recorrendo a esses produtos de maneira indiscriminada.
Em janeiro de 2026, um estudo analítico baseado em seis artigos científicos publicados entre 2023 e 2025 por entidades como a American Heart Association e o American College of Cardiology comprovou que a administração prolongada de esteroides anabolizantes está associada a: hipertrofia ventricular patológica e cardiomiopatia; disfunção ventricular esquerda e direita; maior probabilidade de morte súbita cardíaca; alterações adversas na produção de lipídios e na pressão arterial; fenômenos ateroscleróticos precoces e fibrose.
O Conselho Federal de Medicina (CFM) proíbe o uso de esteroides anabolizantes para estímulo de ganho de músculos e melhora do rendimento esportivo.