Saúde e Bem estar

Estudo da Unicamp revela que 81% das mulheres sentem dor na inserção do DIU

Pesquisa com mais de 7 mil procedimentos no expõe negligenciamento histórico da dor feminina e fragilidade das políticas de planejamento familiar no Brasil.

Da Redação - Rara Gente
09/06/26 às 13h34

O dispositivo intrauterino (DIU) é um dos métodos contraceptivos mais eficazes que existem – com taxa de falha de apenas 0,2% (duas em cada mil usuárias), supera a pílula anticoncepcional e equivale à laqueadura. É reversível, dura até dez anos, não tem hormônios e está disponível no SUS. Mas há um problema grave, frequentemente ignorado: a dor na inserção.

Uma pesquisa realizada no Ambulatório de Planejamento Familiar do Hospital da Mulher Professor José Aristodemo Pinotti (Caism), da Unicamp, revelou uma discrepância alarmante. Enquanto as diretrizes do Ministério da Saúde afirmam que menos de 5% das usuárias teriam dor moderada a severa, o estudo acadêmico elevou essa marca para 81%.

Foram analisadas mais de 7 mil inserções de DIU entre 2022 e 2024. A dor foi medida imediatamente após o procedimento, em escala de zero a dez. O resultado: a grande maioria das mulheres relatou desconforto significativo. Mais do que os números, a pesquisa aponta duas grandes negligenciadas no Brasil: a política de planejamento familiar e o respeito aos direitos da mulher.

(Foto: Reprodução)

A pesquisa: dor real x diretriz oficial

O estudo “Dor na inserção de DIU em um centro brasileiro” foi publicado no International Journal of Gynecology and Obstetrics e surgiu da tese de mestrado da psicóloga e terapeuta sexual Ana Luiza Savi, mestra em Saúde Reprodutiva e Sexual pela London School of Hygiene and Tropical Medicine. A orientação contou também com a professora Cássia Juliato (Unicamp) e, em Londres, com Judith Lieber.

A dor foi classificada em leve, moderada ou severa. Os números contrastam frontalmente com o que consta nas diretrizes do Ministério da Saúde – que subestimam a intensidade e a frequência do desconforto. Para Bahamondes, o problema é duplo: a maioria das estratégias para reduzir a dor não funciona de forma eficaz, e isso precisa ser comunicado claramente às pacientes.

Por que o DIU é tão pouco usado no Brasil?

Apesar de sua eficácia superior, o DIU é utilizado por apenas 4% das mulheres brasileiras em idade reprodutiva. Em contraste, cerca de 40% recorrem à pílula anticoncepcional – método que exige adesão diária, está sujeito a interações medicamentosas e tem taxa de falha maior na prática.

Os fatores que explicam essa baixa adesão incluem:

- Dificuldade de acesso ao método no SUS.

- Falta de informação das usuárias.

- Despreparo e escassez de profissionais capacitados para inserir o DIU (enfermeiros ainda enfrentam barreiras legais e institucionais para realizar o procedimento).

- Medo da dor.

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