O nome de um composto biotecnológico se popularizou e dominou discussões na última semana: a polilaminina. Essa proteína, produzida em um laboratório da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), foi associada à regeneração de conexões nervosas na medula espinhal, o que pode levar à retomada da função motora em pacientes paraplégicos ou tetraplégicos.
Nas redes sociais, a descoberta ganhou contornos de milagre. Apelidada de "molécula de Deus" por seu formato que lembra uma cruz, a polilaminina transformou a bióloga Tatiana Sampaio, que lidera a pesquisa, em uma celebridade científica. Mas, por trás da comoção, há um alerta grave de entidades científicas: o tratamento ainda é experimental, e a pressa pode custar vidas.
De forma resumida, a polilaminina é uma versão "melhorada" da laminina, uma proteína encontrada naturalmente no corpo humano, especialmente na placenta. No sistema nervoso, a laminina atua como um "trilho", orientando o crescimento dos neurônios durante a fase embrionária.
A pesquisadora Tatiana Sampaio descobriu, por acaso, que ao alterar o pH da solução de laminina, as moléculas se organizavam em uma estrutura maior e mais estável: a polilaminina. A hipótese era que, se a laminina guia os neurônios no desenvolvimento, a versão polimerizada poderia fazer o mesmo em uma medula lesionada, "reconectando os fios" interrompidos.
Como funcionaria na prática?
Em uma lesão medular, imagine um fio elétrico que liga o cérebro ao corpo sendo esmagado ou cortado. A medula espinhal é esse cabo, e quando sofre um trauma, a comunicação é interrompida, causando paralisia abaixo do ponto da lesão.
A polilaminina funcionaria como um novo "andaime" ou "chão" para os axônios (a parte dos neurônios que transmite informações) crescerem. Em modelos animais, ela mostrou capacidade de ajudar fibras nervosas a atravessar áreas completamente seccionadas da medula, além de ter um efeito anti-inflamatório que protege o tecido nervoso.
O que as pesquisas mostraram até agora?
Os resultados são promissores, mas ainda preliminares:
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2010:
Estudo em ratos com lesão medular mostrou melhora da locomoção e efeitos anti-inflamatórios após o uso da polilaminina.
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Estudo piloto (entre 2016 e 2021):
Oito pacientes com lesão medular completa receberam a injeção da substância até três dias após o trauma. Dois faleceram por causas não relacionadas ao tratamento, mas os outros seis recuperaram parte dos movimentos.
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2025:
Estudo com seis cães paraplégicos (com lesão crônica) também indicou melhora na função motora, publicado em um periódico veterinário.
Esses dados, no entanto, foram publicados como pré-print (sem revisão por pares) ou em periódicos específicos, e ainda não passaram pelo crivo completo da comunidade científica para validar a eficácia.
Em janeiro de 2026, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou o início oficial dos estudos clínicos em humanos. Trata-se de uma pesquisa de fase 1, a primeira de três etapas necessárias para avaliar um medicamento.
Nesta fase, o objetivo não é testar a eficácia, e sim a segurança. Cinco voluntários com lesões recentes (até 72 horas) receberão a dose para avaliar se a substância é segura para humanos. Só depois dessa etapa, que pode levar anos, é que se inicia a fase 2 (para testar a eficácia em centenas de pessoas) e a fase 3 (com amostras ainda maiores).
A pesquisa é conduzida em parceria com o laboratório Cristália, responsável pela produção da proteína.
O problema é que a população não quis esperar. Diante da comoção nas redes, a bióloga Tatiana Sampaio acumulou 16 milhões de interações em uma semana, dezenas de pacientes com lesão medular recorreram à Justiça para ter acesso à substância fora dos protocolos de pesquisa, em um mecanismo chamado "acesso compassivo".
Em fevereiro de 2026, três pessoas que receberam a polilaminina por decisão judicial morreram. O laboratório Cristália afirma que os óbitos não têm relação com a proteína, mas as circunstâncias acendem um alerta vermelho.
Cerca de 30% dos pacientes com lesão medular podem recuperar movimentos naturalmente, com o tratamento padrão (cirurgia e fisioterapia). Sem um grupo de controle, não é possível saber se a melhora veio da polilaminina ou de outros fatores.
O Senado Federal já sinalizou que vai promover uma audiência pública para discutir o tema, com a participação de Anvisa, CFM e da própria pesquisadora, na tentativa de separar a esperança legítima da desinformação.