Saúde e Bem estar

Querofobia: saiba o que é o medo de ser feliz e como superá-lo

Embora seja difícil acreditar que possa ser real, há pessoas que têm um pavor inexplicável de tudo que lhes traz alegria ou felicidade. Chama-se querofobia - um novo distúrbio que se manifesta como um tipo de ansiedade.

Bruna Taiski
18/05/21 às 15h20

 Ter uma boa casa, arranjar um bom emprego, começar uma família ou viajar pelo mundo. Embora cada pessoa tenha objetivos e sonhos pessoais, a grande maioria empreende certas ações com o objetivo de alcançar um único objetivo: a felicidade. 'O que é felicidade?' É uma questão que todos nós formulamos em algum momento da vida e há muitos pensadores que refletiram e refletem, sobre os segredos desse sentimento e sobre como obtê-lo. No entanto, e embora seja difícil acreditar que possa ser real, há pessoas que têm um pavor inexplicável de tudo que lhes traz alegria ou felicidade. Chama-se querofobia - um novo distúrbio que se manifesta como um tipo de ansiedade.

Mas antes de falarmos sobre a querofobia vamos entender a diferença entre o medo e a fobia - que apesar de terem significados parecidos, são termos diferentes. Segundo o psicólogo Alex Sampaio o medo é necessário para nossa sobrevivência, impondo limites para livrar-nos do perigo. 

“Por exemplo, você está em uma mata e aparece um animal, e pensa - ‘isso é perigoso, vou me afastar’; é um medo saudável que irá nos prevenir e nos impulsionar a sair do local - ele é real e nos paralisa, ou nos dá a condição de reação”.

No entanto, quando muito intenso, o medo transforma-se em fobia e passa a trazer transtornos para a vida, se tornando uma barreira que limita a nossa capacidade e trava o nosso desenvolvimento. “Há estudos que mostram que o medo, é também passado de pai para filha, já no seu desenvolvimento do dia-a-dia. Existe um caso muito interessante em que o avô tinha medo de trovão e pedia para esconder os espelhos, talheres e tesouras. A filha mais velha dele desenvolveu o mesmo medo - só que ela agravou a situação- colocava todos em volta da mesa quando começava a chover e a trovejar, rezava, acendia vela, guardava tudo como o pai orientava. A neta desenvolveu a crise de pânico, o que era medo tornou-se uma patologia. Então, o medo foi acentuando e passando de geração à geração”, explica.

CAUSA-CONSEQUÊNCIA

Seria possível haver no mundo alguém com medo de ser feliz? Pessoas em que a ideia de sentir prazer, alegria e contentamento provoque ansiedade e desencadeie respostas físicas de aversão? Acredite, trata-se de uma fobia real.

Quem tem querofobia normalmente sente medo de ser feliz porque experimentou, no passado, alguma situação traumática que veio logo depois de um momento de felicidade. De acordo com o psicólogo, pode ter origens em punições durante a infância, em conflitos com alguma pessoa querida ou numa má experiência associada a um fato particular.

 A pessoa acaba acreditando que existe uma relação de causa-consequência entre essas experiências, e evita a qualquer custo aquelas atividades ou situações em que sabe que provocarão felicidade. “Podemos relacionar a querofobia à seguinte situação:  O filho queria muito ter um carro. O pai lutou, trabalhou e conseguiu dar este carro para ele, em seguida, o pai morreu. O cérebro pode associar essa extrema felicidade em cima de um objeto, na perda do pai. Ele passará a ter momentos de não prazer em situações que deveriam ser de felicidade”.

As pessoas que têm medo de ser felizes, dificilmente expressam esse sentimento. Em muitos casos, sequer têm consciência de que estão sofrendo de querofobia. “Isso é comum e desenvolve em pequenas etapas. Por isso, elas não percebem que não estão se permitindo realmente viver felicidades”.

Entre os sintomas da querofobia estão:

- Ansiedade e necessidade de "escapar" de determinados lugares ou situações;

 - Dores de cabeça e estômago;

 - Não querer participar de atividades "divertidas";

 - Acreditar que se sentir feliz significa que algo ruim acontecerá;

 - Pensar que a felicidade é algo que desperta o pior de você;

- Acreditar que demonstrar felicidade é algo negativo, não só para a pessoa como para seus entes queridos;

- Considerar que tentar ser feliz é uma perda de tempo.

É importante não confundir o medo de ser feliz com a tristeza persistente. A pessoa com querofobia não está triste o tempo todo, não vive socialmente isolada ou marcada pela falta do que fazer. O que não suporta é a ideia de ser feliz.

“Uma coisa é estar insatisfeito, não gostar de algo, não querer viver aquilo. Ter uma festa e dizer ‘Não quero ir’ outra coisa é pensar ‘Não quero passar mal, aquilo me sufoca, me angustia, não me faz bem’”, pontua.

TRATAMENTO

Segundo o psicólogo, como a querofobia está ligada a situações do passado que continuam tendo impacto no presente, o primeiro passo é descobrir as causas e ser capaz de trabalhá-las. Nesse sentido, a psicoterapia auxilia à aprofundar o conhecimento que tem sobre si mesma, sobre suas ações e comportamentos - tanto os conscientes como os inconscientes. Através desse processo de autoconhecimento, será possível ir reconstruindo aos poucos essa associação errônea entre felicidade e tragédia iminente.

O segundo passo é realizar técnicas de relaxamento para lidar com os sintomas e a mente agitada.  E o terceiro passo é criar escalas de prazer, começar com o mais simples e ir desconstruindo essas associações negativas. 

“Comece com aquele pequeno prazer como tomar um café, será uma fonte de prazer, você irá vivenciar aquele momento e ver que não aconteceu nada demais, que não aconteceu nenhuma ‘praga’, nada ruim. Depois vá aumentando essa escala, com um passeio ou uma viagem, por exemplo”.

CRENÇAS

Há uma frase que escutamos no dia a dia: “tudo está na nossa mente”. Ainda que ela seja verdade, às vezes nos esquecemos da amplitude dessa mensagem: os pensamentos direcionam a nossa vida. De fato, há muitas crenças que nos limitam sem nos darmos conta.

“Fique atento aos ditados populares. ‘Se hoje estou feliz, amanhã estarei triste’ é o mais comum e está relacionado ao quadro. Muitas vezes uma patologia começa com um pequeno ditado popular. Você começa a acreditar, e isso vira uma crença, parece que aquilo é uma verdade e você tentará provar essa verdade. De repente desenvolve uma pré-disposição”. 

“Pense: ‘Posso ter prazer sim, posso ser feliz sim!’ - não irá acontecer nada de mal, se acontecer é porque era para acontecer e não está associado à sua felicidade. A felicidade é sua, o momento é seu  lembre-se - cada momento é único”.

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