Saúde e Bem estar

Cannabis: médico três-lagoense fala sobre o uso medicinal da maconha

O retrato e os avanços da maconha medicinal no Brasil.

Bruna Taiski
03/06/21 às 07h32

Desde 2014, uma resolução do Conselho Federal de Medicina - CFM, admite o uso compassivo do canabidiol - CBD, ou tetra-hidrocanabidiol - THC, quando outros métodos considerados convencionais já foram testados e não tiveram resultados positivos. Contudo, o uso desses medicamentos sempre gerou polêmica, afinal os componentes são extraídos da Cannabis Sativa - a maconha - considerada uma droga psicoativa ilegal.

Em meio à polêmica, é necessário compreender que o uso recreativo da droga é diferente do aproveitamento dos componentes da planta para produção de medicamentos. Sob esse ponto de vista, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária - Anvisa, liberou o registro e a comercialização de remédios à base de canabidiol e THC em farmácias do Brasil.

Isso não significa que o debate tenha terminado. Ao contrário: a nova regulamentação trouxe muitas dúvidas, principalmente para os médicos interessados em administrar esse tipo de tratamento em seus pacientes.

    “Nos medicamentos à base de Cannabidiol são concentrados os principais princípios ativos que se deseja obter para o tratamento, retirando-se as principais concentrações de ativos psicotrópicos - aqueles que causam as alucinações. Outra diferença é que na medicação as doses são controladas, reduzidas e mais seguras, além de se conhecer a procedência do produto; no cigarro da maconha, não há esse controle”, diz o Médico de Família e Comunidade de Três Lagoas, Vinícius de Jesus Rodrigues Neves.

De acordo com o médico a dependência a partir dos medicamentos com derivados cannabidiois é rara. “É uma medicação com poucos efeitos colaterais, e esses efeitos vão depender de qual princípio ativo predomina na apresentação prescrita. Óleo rico em THC pode gerar inquietação, agitação e insônia, enquanto óleo rico em CBD pode causar sonolência e tontura. Caso houver dependência, é mais relacionada ao abuso da própria medicação do que ao seu uso correto conforme prescrição médica”.

Em relação as contra indicações, os pacientes com histórico de esquizofrenia devem ter cuidado no uso, bem como quem faz uso de sedativos, hipnóticos e excesso de bebida alcoólica. “Gestantes e lactantes também não devem usar. No mais, pacientes com indicação podem fazer uso, lembrando que toda prescrição deve ser individualizada”.

PRESCRIÇÃO 

Hoje no Brasil, o médico pode prescrever legalmente a Cannabis Medicinal para seus pacientes. Em janeiro de 2015, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária - Anvisa, retirou o Canabidiol - CBD da lista de substâncias proibidas no país. No dia 3 de dezembro de 2019, a Anvisa aprovou, por unanimidade, a resolução que define as condições e procedimentos para concessão da autorização sanitária para a fabricação e a importação, bem como estabelece requisitos para comercialização, prescrição, a dispensação, o monitoramento e a fiscalização de produtos de Cannabis para fins medicinais de uso humano.

“Existem diversas apresentações dos derivados cannabidióis, sendo as mais comuns à base de óleo, onde o paciente ingere determinada quantidade de gotas diariamente. Existem, ainda, pomadas, spray nasal, entre outras apresentações”.

“Importante ressaltar a atuação da ABRACE Esperança, instituição brasileira localizada em João Pessoa - PB, que possui autorização para produção e venda no país, com preços em geral mais reduzidos que os do mercado tradicional, requer no entanto, prescrição de profissional médico associado para dispensação da medicação”, afirma Dr. Vinícius.

EM DADOS

MACONHA MEDICINAL

CBD

Canabidiol: substância química extraída da maconha - Cannabis Sativa com propriedade analgésica, sedativo e anticonvulsiva.

Sendo usadas no tratamento de doenças como: Epilepsia, Esclerose múltipla, Esquizofrenia, Mal de Parkinson e dores crônicas.


THC

Tetrahidrocanabinol: princípio ativo alucinógeno da maconha, é extraído da Cannabis Sativa e tem propriedade antidepressiva, estimulante do apetite e anticonvulsiva.

Sendo seu extrato aplicados no tratamento de Mal de Parkinson. Esclerose múltipla, Síndrome de Tourette, Asma, Glaucoma.

PAÍSES LEGALIZADOS 

ISRAEL – Precursor em 1993

CANADÁ – Desde 2001

EUA – Apenas 28 dos 50 estados

PORTO RICO – Desde 2015

URUGUAI – Desde 2015

CHILE – Dede 2016

COLOMBIA – Desde 2016

O uso é regulamentado em mais países: O Sativex, medicamento com THC e canabidiol registrado recentemente no Brasil como Mevatyl, por exemplo, já tem aprovação em 28 países, entre eles Alemanha, Suécia e Suíça.

LUTA PELA LEGALIZAÇÃO 

(LINHA DO TEMPO BRASIL)

2014

 ABRIL: Justiça permite que família brasileira importe óleo rico em Canabidiol para tratamento de síndrome rara.

Anvisa passa a receber mais pedidos de autorização para importação de produtos à base de Canabidiol.

DEZEMBRO: Conselho Federal de Medicina autoriza médicos a prescreverem o Canabidiol para crianças com epilepsia e sem sucesso em outros tratamentos.

2015

JANEIRO: Anvisa tira Canabidiol da lista de substâncias proibidas em remédios e o coloca em rol de substâncias controladas.

AGOSTO: STF começa a discutir se é crime portar drogas para uso próprio. Julgamento foi suspenso após pedido de vistas do ministro Teori Zavascki.

2016

OUTUBRO: Conselho Institucional do MPF decide que importar pequenas quantidades de semente de maconha não deve gerar denúncia da Procuradoria.

NOVEMBRO E DEZEMBRO: Três famílias conseguem habeas corpus que as permitem plantar e extrair óleo de maconha para uso medicinal e próprio.

2017

JANEIRO: Anvisa registra o primeiro medicamento à base de Canabidiol e THC, o Mevatyl.

2019

DEZEMBRO: Anvisa aprova resolução que define os procedimentos para a fabricação, a importação e requisitos para comercialização e prescrição.


Veja a matéria completa na edição 94 da revista Rara Gente.

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