Manuela tinha apenas sete meses de vida quando começou a apresentar distensão abdominal, diarreia, fezes esbranquiçadas e fétidas, fraqueza muscular, perda de massa muscular das coxas e glúteos, irritabilidade e baixo desenvolvimento. Um verdadeiro filme de terror para a mãe de primeira viagem - Gisele Dourado Suzumura - que passou por uma difícil fase com a filha até que o diagnóstico final chegasse: Manuela é uma criança celíaca, ou seja, não pode ter contato algum com o glúten.
A substância, de acordo com o gastroenterologista Ronaldo Nunes Ribeiro, é a combinação de dois grupos de proteínas encontradas dentro de grãos de trigo, cevada e centeio, e está presente em massas como o pão, o macarrão, o bolo, a bolacha e no malte (subproduto da cevada) - mas não é um carboidrato, e sim, uma proteína. Com um ano e quase três meses, Manuela dava seus primeiros passos, pois, até então, não conseguia ficar em pé muito tempo; hoje, com cinco anos, a pequena já consegue desenvolver todas as atividades normalmente e cresce em ritmo normal para a sua idade.
Gisele relata que ter de encarar esta realidade foi difícil. “Era um novo mundo para mim; aprendi a ler rótulos e sobre contaminação cruzada; entendi que tive uma filha normal e precisava educá-la para enfrentar um mundo onde ainda existe muita discriminação; precisei aprender a cozinhar. Minha filha não é celíaca sozinha - ela mora em uma casa onde todos são ‘celíacos’, pois em minha casa não entra glúten. Faço isso para manter a segurança alimentar dela que é fundamental para sua sobrevivência” - conta.
A doença é assunto sério e pode levar a graves complicações; inclusive, à morte. “A mucosa intestinal é altamente prejudicada, devido a um processo inflamatório de caráter imunológico (autoimune), em decorrência das proteínas do glúten, que resistem à digestão e levam à atrofia total ou parcial das vilosidades do intestino delgado e, consequentemente, à má absorção de nutrientes” - diz Ribeiro.
À Revista Rara Gente, Gisele relatou que, com uma dieta restritiva do glúten, levando o tratamento bem a sério, é possível manter uma vida normal e com qualidade de vida. “A dieta sem glúten é uma dieta absurdamente cara, pois tudo tem que ser substituído; aonde vamos, levamos a marmita da Manuela; é um estilo de vida que se adota! Até o shampoo e condicionador de cabelos que ela usa é sem glúten; aliás, cosméticos em geral também têm glúten” - explica.
Isso porque, segundo o gastroenterologista Ronaldo, “o corte do glúten é indicado, principalmente para celíacos – portadores de uma doença autoimune hereditária que interfere intensamente no intestino delgado” - explica. Mas, também existem os alérgicos ou intolerantes a gliadina - uma proteína presente no trigo, na aveia, no centeio, na cevada, nos cereais utilizados na composição de alimentos e bebidas industrializadas. A reação alérgica pode abranger sintomas na pele, nas vias respiratórias e até gastrointestinais.
Uma criança celíaca, que possui centenas de restrições alimentares, é um verdadeiro desafio. “Nunca deixei de levá-la em aniversários; ensino que o importante é compartilhar o momento e interagir com as pessoas; que não vamos às festas só para comer. Ela tem consciência da situação alimentar dela e compreende muito bem – e para tudo o que lhe é oferecido, pergunta primeiro se tem glúten. Faço o possível para mostrar a realidade e ser sincera. No entanto, as próprias crianças e mães são solidárias a ela; sempre perguntam o que podem oferecer a Manuela para que ela se sinta à vontade” – fala a mãe. E complementa dizendo que as maiores dificuldades enfrentadas são as de não existir, em Três Lagoas, um local onde ofereçam produtos isentos de glúten e sem contaminação para se alimentar; faltam variedades de produtos e os que têm são de alto custo.
Acho que sou alérgica. E agora?
Se você está perdendo peso, apresentando deficiência de ferro, anemia ou tem uma história familiar de doença celíaca, procure um médico antes de cortar a proteína. O gastroenterologista explica que as substituições de nutrientes são importantes. “Alimentos sem glúten também são menos propensos a serem enriquecidos com vitaminas. Além de excluir o glúten da dieta, o celíaco precisa fazer outras substituições, como comer mais alimentos integrais, feijão, nozes, sementes, frutas frescas e vegetais”. É importante também ficar atento aos rótulos. Um muffin sem glúten, por exemplo, geralmente contém menos fibras do que um feito de trigo e ainda contém os mesmos perigos nutricionais como gordura e açúcar.
Mesmo uma quantidade mínima de glúten pode desencadear complicações?
Sim. Segundo Ribeiro, mesmo traços do glúten, podem desencadear os sintomas; deve-se separar os produtos que contêm glúten dos que não contêm e se lembrar de que, o simples manuseio de produtos com glúten poderá contaminar os outros alimentos.
Tem cura?
Infelizmente não. “É uma enfermidade que não tem cura; só pode tornar-se uma doença controlável com a exclusão do glúten da alimentação. Há uma gama extensa de complicações que podem surgir, caso o diagnóstico não seja feito e a restrição do glúten na dieta não for adotada. Entre estas complicações - associadas com alterações absortivas da mucosa intestinal - temos: anemia, osteoporose, infertilidade, epilepsia e até câncer do intestino” - esclarece o gastroenterologista.
Além da restrição ao glúten, é preciso tomar suplementação?
Isto vai depender muito da evolução da doença e as complicações que poderão surgir da sua atividade, segundo o especialista. “Vale lembrar de que a doença celíaca afeta o intestino delgado, interferindo diretamente na absorção de nutrientes essenciais ao organismo como: carboidratos, gorduras, proteínas, vitaminas, sais minerais e água sendo necessário sempre o acompanhamento de um médico especialista. Só ele, através de exames de sangue, irá verificar que tipo de suplementação será necessária; dentre as mais comuns estão a suplementação com ferro para anemia e suplementação de vitamina D”.
Afinal, o que é doença celíaca?
A doença celíaca é uma condição crônica, autoimune, que afeta o intestino delgado de adultos e crianças geneticamente predispostos. A doença causa atrofia da mucosa do intestino, provocando prejuízo na absorção dos nutrientes, sais minerais e água. É desencadeada pela ingestão do glúten - uma proteína encontrada no trigo, aveia, cevada, centeio - e seus derivados, como massas, pizzas, bolos, pães, biscoitos, cerveja, uísque, vodka e alguns doces, provocando dificuldade do organismo de absorver os nutrientes dos alimentos, tais como: vitaminas, sais minerais e água - que provocam danos ao corpo, sendo o atrofiamento das vilosidades do intestino delgado, que são responsáveis pela absorção de nutrientes necessários para o desenvolvimento humano.
Este atrofiamento é uma resposta autoimune, pois a DC não tem cura e, em longo prazo, se não for tratada devidamente, há risco de se acometer outras enfermidades - inclusive outras autoimunes - ou lesões graves no intestino podendo causar o câncer. A celíaca pode acometer qualquer indivíduo, geneticamente predisposto, a qualquer momento da vida, pois a medicina ainda não sabe precisar o “gatilho” que faz a DC disparar no organismo. A predisposição genética está relacionada com o HLA DQ2 e DQ8 (existe teste genético). Para se detectar a DC é necessária sorologia positiva, atrofia das vilosidades e, certamente, o celíaco terá algum dos marcadores genéticos positivo.
Sintomas
Os principais sintomas são: dor abdominal, diarreia, flatulência, distensão do abdômen, fraqueza, perda ou dificuldade para ganhar peso, queda frequente de cabelo, diminuição do apetite, lesões de pele, anemia, déficit de crescimento em crianças, infertilidade. Algumas pessoas com doença celíaca não apresentam sintomas ao diagnóstico.
Diagnóstico
A doença só pode ser diagnosticada por meio de exames de sangue, pois os sintomas são muito variados e constantemente associados com outras doenças. Normalmente, se manifesta em crianças com até um ano de idade, quando começam a ingerir alimentos que contenham glúten ou seus derivados. A demora no diagnóstico leva a deficiências no desenvolvimento da criança. Em alguns casos se manifesta somente na idade adulta, dependendo do grau de intolerância ao glúten, afetando homens e mulheres.
Os principais exames para diagnóstico da doença celíaca são: Exames de sangue com dosagem de anticorpos específicos para a doença - Antiendomísio e Antitransglutaminase; biópsia do intestino delgado realizada durante exame de endoscopia digestiva alta.
Tratamento
O principal tratamento é a dieta com total ausência de glúten; quando a proteína é excluída da alimentação os sintomas desaparecem. A maior dificuldade para os pacientes é conviver com as restrições impostas pelos novos hábitos alimentares. A doença celíaca não tem cura; por isso, a dieta deve ser seguida rigorosamente pelo resto da vida. É importante que os celíacos fiquem atentos à possibilidade de desenvolverem câncer de intestino e a terem problemas de infertilidade.
A doença celíaca é hereditária?
Segundo o gastroenterologista - Ronaldo Nunes Ribeiro - podemos herdar genes que estão associados à doença celíaca e que podem nos levar ao desenvolvimento desta patologia - assim como no exemplo da pequena Manuela de quem falamos no início desta reportagem. Conforme a mãe, a criança herdou a genética do pai. “A probabilidade de aparecimento da doença em familiares de primeiro grau de um celíaco é de cerca de 10% e devemos nos lembrar de que a doença celíaca caracteriza-se pela intolerância permanente ao glúten em pessoas geneticamente predispostas e pode levar à morte se não for tratada” - explica Ribeiro.
Em quais alimentos estão presentes o glúten?
De acordo com a revista Boa Forma, nem todos os grãos contêm glúten: amaranto, painço, sarraceno e quinoa são exemplos disso. O glúten também pode estar escondido em alimentos que não imaginamos, como: hambúrgueres vegetarianos ou saladas e até mesmo em alguns suplementos ou medicamentos. E você não precisa deixar de ir a seus restaurantes preferidos por causa da restrição ao glúten. A indústria alimentícia tem se adaptado cada vez mais às necessidades dietéticas especiais. Além disso, tem crescido consideravelmente o número de restaurantes específicos ao público adepto à dieta sem glúten.
É verdade que alguns medicamentos podem ter glúten?
Sim, embora sejam poucos. "O paciente só terá problemas quando o medicamento possuir glúten no excipiente da cápsula - material que dá massa ao medicamento – mas, hoje este ingrediente é pouco usado" - afirma o gastroenterologista Celso Mirra. É importante ficar de olho nos rótulos, já que as indústrias farmacêuticas são obrigadas, por lei, a informar na embalagem a presença de glúten.