RARA Gente - Negócios

Incluir para transformar

A inclusão profissional traz motivação para pessoas com deficiência, bem como, pontos positivos para os empregadores. A Gente explica como


Bruna Taiski em 10 de outubro de 2018 - 12h02

A inclusão de pessoas com deficiência – PcD - é, ao mesmo tempo, um desafio, uma necessidade e uma grande oportunidade para as empresas. Ao incluí-las, não estamos apenas concedendo-lhes um salário; mas, também, a oportunidade de se reabilitarem socialmente e psicologicamente.


Ao contrário do que o senso comum diz contratar pessoas com necessidades especiais pode ser extremamente vantajoso para a produção de uma empresa. Além da colaboração para a socialização, esses vínculos empregatícios também representam um belo exemplo de como empreender socialmente.


Quer saber como fazer da sua organização um lugar onde a diversidade tenha seu espaço garantido e seja sempre defendida e valorizada? Descubra nesta reportagem que a Rara Gente preparou para refletir e estimular este papel de cidadania.


“Existe muita falta de informação e também muito desinteresse nesta questão”.
—  Créditos do comentário

Talento Incluir


Por falar em diversidade e cidadania, nossa equipe entrou em contato com a ‘Talento Incluir’ - uma consultoria de São Paulo, capital, que, desde 2008 constrói pontes entre o mercado de trabalho e os profissionais com deficiência. A Diretora e Consultora da ‘Talento Incluir’ - Carolina Ignarra - elucidou todos os questionamentos para a Gente e para os nossos leitores.


“Primeiro vem o ser humano; depois vem sua condição. Para respeitar um trabalhador é preciso respeitar também as suas condições e, principalmente, acreditar na sua capacidade - seja ela qual for - e desenvolver, junto com esse profissional, um ambiente adequado para que ele possa contribuir e crescer profissionalmente” - diz.


Por que é importante?


Segundo a pesquisa realizada pela ‘Talento Incluir’, a maioria das empresas não possui programas de diversidade e não está totalmente preparada para lidar com o assunto. Conforme Carolina, a inclusão deve reunir e misturar - na mesma empresa - perfis de profissionais que representem a diversidade da população. O resultado dessa mistura de cultura, de etnias, de opiniões e de necessidades diferenciadas vai trazer, às empresas, benefícios que serão traduzidos em ganho de competitividade, inovações e aproximação com seus clientes. Além disso, vai tornar a empresa mais democrática e alinhada com as reais e atuais necessidades de seus clientes.


“A legítima inclusão deve estar no processo e não apenas no discurso das organizações. Para ser inclusiva, a empresa não pode deixar perpetuar conceitos antigos e julgamentos na sua cultura de contratação e no desenvolvimento dos seus profissionais. É preciso trabalhar ações afirmativas para mudar esse viés inconsciente em todos os níveis hierárquicos da empresa”.


Os dois lados ganham


A inclusão está além do simples cumprimento da lei. Ela traz benefícios para os negócios e provoca mudanças positivas na cultura da empresa. Trata-se de incluir, nos valores da empresa, o respeito - no seu mais amplo significado - a todos os perfis de colaboradores, de fornecedores e de consumidores de seus produtos e serviços.


Cada vez mais, as empresas estão “pensando e agindo diferente” - encontrando na inclusão e na diversidade as oportunidades para atrair e reter talentos nas suas equipes; aumentar seu potencial de inovação e, com isso, obter ganhos na sua participação e percepção positiva de reputação no mercado.


“Ser uma empresa, de fato, preocupada em garantir a diversidade e inclusão no ambiente de trabalho impacta, diretamente, na imagem. As empresas não podem apenas “comunicar” que são inclusivas. Elas precisam “ser" inclusiva -, com atitudes que comprovem sua real preocupação com o tema”.


O número de benefícios para a organização e para os trabalhadores não para por aí; a ‘Talento’ também pontua outros fatores importantes dessa inclusão:


Valor para a marca -  Ao garantir a diversidade e inclusão nas empresas, elas estão ganhando em vários setores: com os consumidores, com os fornecedores e internamente.


Destaque - Quando a empresa divulga que possui essa cultura, ela chama a atenção dos clientes, tornando-se uma preferência de consumo. Este fato já faz com que ela ganhe espaço e se destaque perante a concorrência.


Melhores profissionais - Tantos pontos favoráveis para os colaboradores acabam por atrair e reter os melhores talentos que estão em busca, não apenas dos melhores salários; mas, também, de empresas socialmente responsáveis.


Equipes mais criativas - Ter acesso a diferentes pontos de vista e ouvir opiniões diversas ajuda a “pensar fora da caixa” e ampliar a criatividade.


“Para ser inclusiva, a empresa não pode deixar perpetuar conceitos antigos”.
—  Créditos do comentário

Contratado!


Nós já mostramos a importância e as vantagens da inclusão de pessoas com deficiência; mas, como procedem as contratações? O gerente de marketing - Alexandre Camacho – da rede Big Mart de supermercados em Três Lagoas - aponta todo o processo seguido pela empresa.


De acordo com Alexandre, as contratações de PcDs - por muitas vezes - têm a colaboração de instituições qualificadas que ajudam no recrutamento para a seleção; entre elas, as APAEs - Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais - e as Associações Municipais. “O vínculo que temos com esses órgãos são importantes, pois eles orientam os candidatos na elaboração de currículos, nos procedimentos de laudos médicos necessários para a comprovação da deficiência e, quando admitidos, atuam como facilitadores no processo de inserção e adaptação do colaborador no trabalho”.


Há outros candidatos que chegam diretamente na empresa, sem ligação a nenhuma instituição - segundo o gerente; estes também são encaminhados a uma triagem, conforme necessidade e abertura de vaga. “Temos 38 colaboradores com deficiência. A empresa é criteriosa, também, em avaliar se a atividade de trabalho proposta está dentro dos limites do candidato”.


“Essas oportunidades, também, nos proporcionam sermos uma empresa mais humanizada, enriquecendo o meio corporativo com valores e experiências diversificadas, na medida em que percebemos as necessidades individuais e nos adaptamos para servir e aprender com o outro”.


‘Respeite as minhas limitações’


Na infância, ela foi diagnosticada com a Poliomielite e tem dificuldades de manter-se em pé, encontrando-se dependente de muletas ou cadeiras de rodas para a locomoção. Até os 20 anos, sua vida foi baseada em hospitais e salas de cirurgia. Vânia Aparecida de Jesus Queiroz – de 41 anos – já passou por dez empresas - sempre preenchendo uma vaga destinada a pessoa com deficiência.


A professora diz à Gente que, a primeira dificuldade que um PcD encontra - na maioria das empresas - é a falta de acessibilidade. “Já fui chamada várias vezes para ocupar vaga pelas cotas – vagas que, nem de longe eram adequadas para minha deficiência, como: trabalhar o dia todo em pé, tendo de andar com rapidez, subir escadas e descer inúmeras vezes ao dia. Trabalhei em locais com escadas e lugares em que era obrigada a cuidar de toda a limpeza do local, correndo alguns riscos”.


Indagamos a Vânia, sobre o que poderia ser feito para mudar esta situação - já que, apenas um deficiente entende, sente rotineiramente, as necessidades e urgências de adaptação no mercado de trabalho.


“A última empresa em que trabalhei agiu de modo correto do começo ao fim, respeitando as minhas limitações. Exemplo este que deveria ser seguido. Muitas empresas, fábricas não fizeram adaptações necessárias para receber PcDs - isto também dificulta. Aqui em Três Lagoas existem vários locais que contratam pessoas com deficiência; mas, muitos não oferecem acessibilidade”.


“Há muita falta de informação e também muito desinteresse nesta questão. É preciso que haja uma mudança na mentalidade - de forma geral. A sociedade precisa se adequar às leis que existem há décadas” - finaliza.


O que diz a lei?


Existe alguma lei que garanta os direitos das pessoas com necessidades especiais no mercado de trabalho? A resposta é sim! A Lei de Cotas para Deficientes – PCD - de 1991, e a Lei Brasileira de Inclusão - de 2015 - garantem o direito ao trabalho às pessoas com algum tipo de deficiência - física, visual, auditiva e intelectual.


Segundo o artigo 93 da lei nº 8.213/91, a cota depende do número geral de funcionários e estabelece a seguinte proporção:


• 100 a 200 empregados…………………… 2%

• 201 a 500  …………………………………….. 3%

• 501 a 1.000  ………………………………….. 4%

• 1.001 em diante ……………………………. 5%


Dados atualizados sobre o número de PcDs no mercado de trabalho de Três Lagoas não foram levantados, devido ao prazo de resposta do Ministério do Trabalho. Atualizaremos as informações aqui no site da revista.


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