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As habilidades são deles e as expectativas também

Ter determinada habilidade significa que você sabe fazer determinada tarefa. Todavia esta capacidade não assegura que o processo de aprendizagem será bem-sucedido.

Daniela Galli
24/11/22 às 08h00

Já ouviu aquela máxima de que uma vez aluno sempre aluno? Pois é, ela vale muito mesmo quando o assunto é o desenvolvimento de habilidades específicas. Desde o ensino infantil, até a universidade, os estudantes precisam ser, de certa forma, provocados para que seus talentos sejam descobertos. E, uma vez aflorados, é necessário também ajudá-los a lidar com isso.

Ter determinada habilidade significa que você sabe fazer determinada tarefa. Todavia esta capacidade não assegura que o processo de aprendizagem será bem-sucedido. Por exemplo: imagine que uma pessoa seja muito boa em português. Ela sabe as regras gramaticais e também ortografia. De nada adianta se ela não souber interpretação de texto.

Estamos vivendo atualmente na Era Digital, o que trouxe para a sociedade uma série de facilidades e a capacidade de executar serviços com mais rapidez e praticidade. Porém, aquilo que aparenta ser um benefício, pode ao mesmo tempo ser prejudicial. Segundo a psicóloga Letícia Garcia de Queiroz Cruz, é preciso estar bastante atento a isso, principalmente em relação às crianças.

“Os pequenos estão em fase de desenvolvimento físico, emocional e cognitivo e passando por transformações. O excesso de ‘telas’ afeta não só o seu desenvolvimento e desempenho em muitas tarefas, mas também a percepção deles em relação ao mundo real, os comportamentos e o funcionamento cerebral”.

“O excesso de ‘telas’ afeta a percepção deles em relação ao mundo real”

Ela defende que é preciso impor alguns limites de horários para que eles não permaneçam tanto tempo em frente ao computador, celular ou tablet. O ideal é que os pais invistam em atividades que ajudem a ter foco, desenvolvam as habilidades sociais e de aprendizagem como jogos de tabuleiro ou em grupo, atividades e brincadeiras dinâmicas, lúdicas e que sejam atrativas e didáticas ao mesmo tempo.

Letícia explica ainda que todos nós desenvolvemos diversas habilidades ao longo da vida. Elas são adquiridas através do meio social em que vivemos, os ensinamentos que aprendemos e ainda as experiências pelas quais passamos. São nossos relacionamentos interpessoais, empatia, autonomia, autocuidado, habilidades sócio emocionais, de aprendizagem, de comunicação entre outras.

Os pais podem contribuir muito para que tudo isso possa ser estimulado desde a infância. “Através de jogos lúdicos, brincadeiras, músicas, leitura de livros mas, acima de tudo, ter um tempo de qualidade com a criança, valorizar os esforços dela, estimular os seus avanços de forma positiva, estimular o respeito ao próximo, colocar-se no lugar dela e fazer com que ela se sinta acolhida”.

Com os pequenos as brincadeiras têm um papel muito importante, segundo Letícia. “É através delas que eles expressam suas angústias, medos, aflições, vivências, lidam com seus conflitos, ampliam conhecimentos e habilidades”.

Já com os adolescentes é necessário estabelecer uma relação de confiança, manter sempre o diálogo, ouvir atentamente o que ele têm a dizer, demonstrar interesse e usar uma linguagem acessível e de entendimento. 

Mudança de vida

Muitas vezes é preciso dar um tempo na vida corrida para se preocupar um pouco mais, não só com o bem-estar pessoal, mas também com o dos filhos. Foi o que fez a Neuropsicopedagoga em formação, Priscila Palladin com a sua filha Helena Oliveira Paladin, de três anos. Ela morava em São Paulo, no que ela mesma chama de ‘vida estereotipada’ de quem mora na capital paulista: trabalhar e dormir durante a semana, passar horas no transporte público, comer fora de casa, lazer e cultura somente aos finais de semana.

A mudança, aliás, começou quando ela estava morando por lá. Ela atuava há mais de 10 anos no mundo corporativo do agronegócio e decidiu parar para fazer graduação em psicopedagogia e pós graduação em neurociência, educação e desenvolvimento infantil. Logo iniciou carreira na área de abordagens na infância. Este ano ela decidiu passar por uma nova experiência e mudou-se com a filha para uma ecovila chamada Piracanga, que fica no interior da Bahia. “Percebi que eu estava muito desconectada de mim mesma e precisava resgatar essa relação. Tenho como propósito trabalhar profissionalmente com a relação que a criança tem com a natureza, mas não me sentia íntima desta natureza, me via como expectadora. Eu sentia que tinha muita coisa errada na minha vida e precisava fazer algo para sair do piloto automático e viver algo que me desse prazer novamente”.

A comunidade onde ela permaneceu por quase um ano é baseada em sustentabilidade e desenvolvimento pessoal. Eles se preocupam em impactar o mínimo possível o meio ambiente. A energia é solar, os produtos são biodegradáveis, o saneamento é sustentável e as moradias são feitas com bioconstrução, ou seja, empregam técnicas e materiais de baixo impacto ambiental e levam em consideração as condições locais e como é feito o tratamento de resíduos.

Helena passou a frequentar as aulas da escola localizada na ecovila e se chama ‘Inkiri’, nome dado também a sua proposta pedagógica. A palavra em si significa ‘o amor em mim saúda o amor em você’. O método de ensino é reconhecido pelo Ministério da Educação e leva para a sala de aula todos os valores trabalhados na comunidade de forma geral. O espaço é bioconstruído, as crianças ficam no meio da terra, das árvores e dos animais.

"Eu sentia que tinha muita coisa errada na minha vida e precisava fazer algo para sair do piloto automático e viver algo que me desse prazer novamente”

A aquisição de todos os materiais utilizados na escola é feita pensando no impacto residual que irá provocar. Priscilla explica ainda que as intervenções respeitam o espaço individual de casa um, a liberdade de criar, a democracia, o tempo de brincar e o desenvolvimento integral da criança. “São os alunos que decidem as condutas através de assembleias. Eles têm voz dentro da escola e dentro da sua própria formação”.

Ela conta também que, antes de partir para Piracanga, Helena frequentava uma creche pública tradicional de São Paulo. O caminho percorrido até a sua adaptação foi longo. “Helena ficou longe de sua outra mãe e o impacto emocional dessa distância da família foi maior do que eu esperava”.

Priscilla revela que, durante todo esse processo, a escola esteve envolvida. “Eu passei a receber perguntas que nunca tinha recebido antes, exemplo: ‘como foi o dia dela ontem depois das aulas, como você se sente em relação ao comportamento dela, como você lida com determinadas situações em casa’. Havia uma preocupação das educadoras em entender pelo que ela estava passando e encontrar, junto com a família, a melhor forma de lidar com as questões que surgiram”.

Apesar de viver em uma ‘selva de pedra’, a mãe diz que a filha sempre teve contato com a natureza. Tanto que a primeira trilha com cachoeira dela foi aos dois meses de vida. “Ela sempre se sentiu confortável nesse meio”. Porém, na escola Inkiri, ela passou a ter mais intimidade com os animais, as plantas e com o rio. “Ela aprendeu a escalar árvores, a nadar, pegar animais que estão por aí. Teve um desenvolvimento motor muito impressionante para pegar animais minúsculos ou muito rápidos como o caranguejo. Helena pergunta antes se o animal é venenoso, mas ela sabe quais plantas pode pegar e comer”.

O conhecimento que ela tinha de ciências de forma geral aumentou. “Ela precisava conhecer matemática, raciocínio lógico, ter noção espacial, aguçar os sentidos. Esses conhecimentos não são a mãe ou as educadoras que demandam. É a vida, o mundo e a própria curiosidade dela”.

Mesmo com tão pouca idade, a percepção de Helena como indivíduo social, dentro de uma comunidade também foi impressionante, segundo a mãe, afinal, ela conseguiu participar de experiências sociais que seriam um tanto quanto impossíveis na cidade grande. Priscilla diz que ela sabe que dependia de quem estava na beira do rio para poder entrar com ela, ela pedia água para o atendente do restaurante, viveu experiências com as crianças do lugar. “Ela almoçava na casa do vizinho, batia papo com a vizinha enquanto eu fazia o jantar. Crianças dificilmente têm essa interação social constante na cidade. O convívio é reduzido a um número muito limitado de pessoas”.

Priscilla fala ainda que pensou em outros valores quando optou por essa experiência. Eles são bem diferentes daqueles pregados atualmente pelas escolas convencionais, porém, para ela, são eles que vão ajudá-la no futuro. “Não é a tarefa de casa aos quatro anos, o inglês fluente aos 10 ou a lista de aprovações em faculdades que irão prepará-la para viver neste mundo. O que vai fazer isso é saber como manter a saúde mental, ter curiosidade e encantamento em procurar os conhecimentos que despertem o interesse dela, além de saber conviver com as pessoas. Não quero que ela passe a vida, esperando o momento em que ela vai começar a viver”.

As expectativas dos pais

Mesmo com toda essa liberdade que Priscilla deu para Helena durante o período em que ficaram na ecovila, a mãe também teve que ajustar as expectativas que nasceram junto com a filha. Letícia explica que, projetar nos filhos a nossa própria vontade pode ser prejudicial para os pequenos. “Isso pode gerar frustração, sofrimento, além de comprometer o desenvolvimento das crianças, gerar sentimento de impotência, incapacidade e até baixa autoestima”.

Priscilla aprendeu a ‘lição’. “Eu esperava uma criança perfeita, mas segundo os meus critérios. Então ela chegou e eu percebi que ela não é uma extensão minha e nem dos meus sonhos. Eu paro para olhar para ela e vejo o quanto ela é incrível e o quanto eu tenho que olhar para as  minhas expectativas e trabalhar pra que eu as cumpra em mim mesma. E isso é um problema meu, Helena não está aqui para suprir minhas incapacidades”.

A psicóloga concorda. Para ela o papel dos pais é sim de ensinar e acolher os filhos, porém sem deixar de escutá-los, entender que eles tem seus próprios gostos, preferências, sonhos e objetivos. “Cada pessoa é única. Os filhos não serão uma versão melhor dos pais e nem devem carregar o peso de ter que fazer o que os mais velhos não fizeram. É preciso dar a chance de eles trilharem seus próprios caminhos”.

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