O desfile da Chanel Cruise 2026/27, realizado em Biarritz, na França, não apresentou apenas vestidos leves, tweeds repaginados e listras marítimas. A grande provocação da maison ficou por conta dos pés das modelos. Ou melhor, da quase-ausência deles.
A grife francesa introduziu um modelo de sandália que elimina quase totalmente a estrutura tradicional de um calçado, deixando a parte frontal do pé completamente exposta, sustentando-se apenas por tiras finas na região do calcanhar. É uma
“calcanheira”,
termo até então restrito ao universo ortopédico e terapêutico, transformada em objeto de desejo e debate nas passarelas.
A sandália que é quase invisível
Descrita por alguns como “calçado sem calçado” ou
“quase-sapato”,
a peça desafia a própria definição de sapato. A estrutura mínima, uma base fina, tiras delicadas e sustentação exclusivamente no calcâneo, explora a fronteira entre estar descalço e estar calçado. A função prática cede espaço a um elemento mais simbólico e estético.
A proposta não nasceu no vácuo. A coleção Cruise da Chanel, historicamente apresentada em locações paradisíacas, já é um convite ao despojamento e à leveza.
A sandália faz parte de seu movimento de releitura de elementos históricos da Chanel, transformando códigos clássicos (como a sapataria delicada de Coco Chanel) em versões experimentais, despojadas e quase abstratas.
As reações foram imediatas e divididas. Parte do público e de especialistas viu a peça como coerente com a lógica das passarelas, onde a experimentação tem papel central, e onde a separação entre “arte” e “uso cotidiano” é deliberadamente borrada.
A peça se insere em uma tendência mais ampla da moda de luxo contemporânea: o minimalismo extremo. Não se trata mais de adornar o corpo, mas de criar experiências visuais, sensoriais e intelectuais. O calçado deixa de ser, primariamente, um item de proteção e conforto para se tornar um objeto de provocação estética.