Mais exercícios, provas, testes, matérias decoradas, podem até resultar em uma boa nota, mas não prepararão o aluno de forma integral e, muito menos, darão conta de desenvolver todas as competências que ele necessita para enfrentar a relação dele com o mundo ao seu redor. Enquanto os jovens são cobrados para serem protagonistas do seu próprio desenvolvimento e de suas comunidades, o ensino tradicional ainda responde com modelos antigos. A realidade é que o ser humano é definitivamente complexo e, para desenvolvê-lo de maneira completa, são incorporadas estratégias de aprendizagem mais flexíveis e abrangentes.
Pense na solidariedade, amizade, responsabilidade, colaboração, empatia, organização, ética, cidadania e honestidade, sendo aplicados como qualquer outra disciplina nas escolas...Esta realidade está mais próxima do que imaginamos, esses valores tão desejáveis nos relacionamentos humanos - e cada vez mais necessários nos dias de hoje — deverão ser ensinados, praticados ou pelo menos estimulados também nas escolas. É o que dizem as novas diretrizes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC).
A partir de 2020, todas as escolas brasileiras terão de incluir as habilidades socioemocionais nos seus currículos – algumas se anteciparam e já incluíram-. Ou seja, haverá a necessidade de adaptar os programas escolares e treinar os professores para que possam ministrar essas novas competências. Nesse processo, crianças e adultos aprendem a colocar em prática as melhores atitudes e habilidades para controlar emoções, alcançar objetivos, demonstrar empatia, manter relações sociais positivas e tomar decisões de maneira responsável. Uma abordagem como essa pode ajudar, por exemplo, na elaboração de práticas pedagógicas mais justas e eficazes, além de explicar por que crianças de um mesmo meio social vão trilhar um caminho mais positivo na vida.
A resposta é não! A nova visão não deixa de lado o grupo de competências conhecidas como cognitivas (interpretar, refletir, generalizar aprendizados), até porque elas estão relacionadas estreitamente com as socioemocionais.
“Na educação socioemocional, o indivíduo irá aprender a olhar para si mesmo e deixar de ser a vítima do mundo, tornando-se responsável e protagonista da própria vida! Vejo como algo novo no ambiente escolar, pois ela surge com a necessidade do indivíduo que recebe uma infinidade de informações sobre as ciências, e muito pouco conhece sobre si mesmo!” – afirma o Psicólogo Sidney Antônio Muniz.
Pesquisas revelam que alunos que têm competências socioemocionais mais desenvolvidas apresentam maior facilidade de aprender os conteúdos acadêmicos. Elas são habilidades para aprender; praticar; e ensinar.
Esses ensinamentos servem para complementar as aulas, o professor define o conteúdo acadêmico e, junto a ele, os conteúdos sociais que ache importantes (como conviver com diferentes ou fazer revezamentos em uma brincadeira) e, a partir daí, concebe seu planejamento.De forma ‘tímida’ as escolas começam a incluir as estratégias metodológicas para as habilidades socioemocionais e socioafetivas. Conforme a Federação das Indústrias do Estado de Mato Grosso do Sul (FIEMS), o Sesi MS começou a atender o novo posicionamento nas salas de aulas, priorizando a preocupação com o bem-estar do aluno e seu protagonismo.
A gerente de educação, Simone Cruz, destaca que a atenção às competências socioemocionais, ganhou força nos últimos anos após o reconhecimento de que características ligadas ao comportamento e à administração das próprias emoções podem impactar positivamente no aprendizado dos alunos e tem forte influência na vida como um todo.
Para que a escola se apresente como um espaço para o aluno se manifestar e ter autonomia em seu próprio aprendizado, foi preciso olhar de uma outra maneira também para a formação de professores. Isso porque o professor exerce um papel de agente mobilizador e articulador dentro das escolas.
“Hoje tem sido muito comum ver profissionais serem contratados pelas competências cognitivas, ou seja, pela técnica, mas demitidos por falta de competências socioemocionais. Nossa proposta rompe o ensino tradicional e quebra o paradigma de visão unilateral de que a escola deve preparar o aluno apenas para ingressar na faculdade. Pelo contrário, as Escolas do Sesi apresentam aos alunos conteúdos que precisam ser utilizados para resolver problemas e trabalhar colaborativamente no dia a dia”, explicou Simone Cruz.
O que farão os professores? “Transmitir o conhecimento para que o indivíduo tenha uma compreensão maior sobre si mesmo, sobre o universo interno do ser humano, sobre como age e reage diante das adversidades nas relações sociais.” – responde o psicólogo.
Parece complexo, não é? Talvez seja para alguns educadores e outros não, mas o resultado valerá a pena - pelo menos, é o que dizem os estudiosos – já que iremos presenciar uma revolução nas salas de aula e nos profissionais do futuro, tanto educadores quanto alunos.
Outro intuito do novo currículo é promover o pensamento crítico dos estudantes. Por isso, os professores são incentivados a realizar atividades cujos objetivos e metas são definidos conjuntamente com os alunos, que trabalham em duplas ou em pequenos grupos, para estimular a colaboração, a criatividade e a inovação.
Os docentes são encorajados a escolher recursos de aprendizagem que auxiliem os alunos a falar explicitamente sobre habilidades socioemocionais. Vamos exemplificar...Quando se estuda um romance, eles podem ser questionados sobre como o personagem principal demonstra resiliência, ou qualquer outra habilidade, e depois comparar esse comportamento com o de outros personagens de outros livros ou filmes.
As situações de bullying, tão frequentes na escola, por exemplo, podem ser mudadas sob essa perspectiva. O exercício das competências socioemocionais pode tirá-los da posição de plateia passiva, e fazê-los se envolverem ativamente no combate ao bullying. Os alunos podem usar a empatia, serem responsáveis e assertivos, defender o que é certo e confrontar os “brigões”.
“O jovem passa a entender que a dor emocional que provoca no outro, é uma dor q ele também sofre. O conhecimento abre caminhos para a conscientização”, diz Muniz.
A escola e o ambiente familiar podem ser os domínios mais frutíferos para emergência dessas habilidades, se estiverem em sintonia com esse objetivo. Segundo o Programa Educacional Escola Inteligente - elaborado pelo Dr. Augusto Cury - a família pode ajudar a criança a desenvolver suas habilidades socioemocionais de diversas maneiras. Uma forma é conversando com ela sobre seus sentimentos, emoções e comportamentos, com a intenção de mostrar as possíveis consequências de cada uma de suas atitudes. O diálogo é também importante para apontar boas práticas de conduta e relacionamento com os outros, sempre visando o bem-estar de todos.
“A escola tem a função de promover conhecimento e aos pais a função de educar, criar hábitos. Uma junção adequada dos meios, forma-se homens de bem.” – completa o psicólogo.
A infância é a fase mais propícia para o desenvolvimento das habilidades socioemocionais, pois, é nessa etapa da vida que os seres humanos têm mais predisposição e condições gerais de aprendizagem.
Por isso, é fundamental que essas capacidades sejam estimuladas desde muito cedo nas crianças, que já passarão a orientar suas ações e comportamentos com base nelas.
“Dar exemplo é outra estratégia bastante eficaz. Recomenda-se que os familiares sempre ajam em conformidade ao que esperam da criança. Essa é uma atitude educativa básica, pois boa parte dos traços psicológicos e comportamentais assimilados na fase infantil se dá por meio da observação e imitação.”