A guerra da Rússia contra a Ucrânia completou uma semana nesta quinta-feira (2). O número de mortos permanece uma incógnita pois cada um dos países divulgou dados bastante discrepantes em relação a isso. Apesar do conflito estar muito longe do Brasil, questiona-se se a guerra pode nos atingir de alguma forma.
Antes de falar sobre isso, é preciso entender o que levou a Rússia a declarar guerra contra a Ucrânia. Segundo o professor de geografia Danilo Souza Melo, as ações da Rússia ocorrem em um contexto de avanço da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) sobre o Leste europeu, região influenciada pela Rússia e pela antiga URSS até o fim da Guerra Fria em 1991. “A proximidade da OTAN com a Ucrânia representa o aumento da pressão dos países aliados sobre a Rússia”.
Outra questão citada por ele é social: a ascensão de grupos neonazistas ucranianos e movimentos separatistas à favor da Rússia. “O combate ao neonazismo ucraniano tem sido um dos principais argumentos do governo russo para justificar o conflito”.
Melo explica também que a invasão, na verdade, foi intensificada este ano, porém as ações militares começaram em 2014, quando as tropas russas ocuparam a Criméia. “Esta região fez um plebiscito para que fosse separada da Ucrânia. Mesmo com o resultado positivo para a separação, o governo ucraniano contestou a separação e a tensão aumentou”. A Rússia usou o Tratado de Partição de 1997 para justificar a invasão.
Na opinião dele, não está descartado o risco de haver uma 3ª Guerra Mundial, porém, os conflitos atuais tem acontecido em outras esferas, como a econômica, uma vez que o nosso contexto atual é de globalização. “Sempre pode haver uma crise e surgir novas alianças econômicas”.
E O BRASIL?
Mesmo sabendo que o conflito está distante das terras brasileiras, Melo diz que podemos sofrer as consequências, não só por conta da guerra propriamente dita, mas também pelo posicionamento político do Governo Federal. “Nosso país é membro dos BRICS [conjunto econômico de países considerados emergentes], formado também pela Rússia, índia, China e África do Sul. Por ter também a China como grande parceria de negócios, o posicionamento neutro ou à favor da OTAM pode refletir economicamente, principalmente nas commodities”.
A curto e médio prazo o professor destaca que será possível sentir os efeitos em três áreas: combustíveis, produção agrícola e cambial. “A disputa com a OTAN faz com que grandes produtores e consumidores como EUA ajudem na variação do preço do petróleo, fazendo com que aumente o preço dos combustíveis no Brasil. Nosso país tem como base uma economia agrária exportadora altamente dependente de insumos importados, sobretudo da Rússia.
Melo explica que a cidade de Três Lagoas, por exemplo, está envolvida diretamente neste contexto, seja pela presença de agroindústrias ou pela venda da fábrica de fertilizantes, a antiga UFN3, para o grupo russo Acron. “Um dos desdobramentos deste conflito pode ser o aumento dos preços dos insumos ou até mesmo o rompimento do fornecimento russo de acordo com o posicionamento político do Brasil. Já a variação do dólar também pode afetar a agricultura exportadora de commodities como também o custo de vida dos brasileiros uma vez que parte do que consumimos tem seu preço balizado nesta moeda internacional, como a gasolina”.