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A escola prepara para a vida? Entenda porque ainda não aprendemos lições da vida adulta nas escolas

A pedagoga Layse Filgueiras fala sobre o papel das escolas na vida dos alunos.

Bruna Taiski
08/06/21 às 07h30

Você já parou para pensar quanto tempo da sua vida passou na escola? Em uma conta rápida, mostra que foram pelo menos 11 anos e mais de 13 mil horas dentro de salas de aula. É tempo para chuchu! E a sensação que fica é de que muito se ouviu, estudou e escreveu, mas boa parte disso ficou no esquecimento depois do vestibular.

Para piorar, descobrimos que não sabemos aquilo que efetivamente nos faz falta na vida adulta - desde como costurar a bainha de uma calça até como trocar a resistência de um chuveiro sem levar choque. Que a escola não existe apenas para nos preparar para o vestibular, disso a gente sabe - até porque o vestibular é uma etapa um tanto fugaz da vida. Mas então, o que a escola deveria nos ensinar?

Muitos pedagogos acreditam que o objetivo da educação é nos ensinar a dominar o espaço em que vivemos. “É imprescindível pensar na escola como um local que exerce uma função social e democrática nos estudantes, pois torna pessoas mais conscientes, críticas e engajadas, principalmente com potencial de transformação não só de si, como também da sociedade. É pensar ainda que na escola o aluno desenvolve a sua autonomia e a sua própria maneira de pensar e agir e deste modo os torna cidadãos com capacidade para realizar os seus projetos de vida”, afirma a pedagoga Layse Filgueiras.

O problema é que as escolas têm muitos alunos, cada um com um interesse diferente. Você pode achar que a trigonometria nunca lhe serviu para nada, mas seu colega que virou engenheiro usa essas lições até hoje. “As pessoas são diferentes umas das outras, bem como os interesses também. Pensando desta maneira a escola entenderá a importância de reconhecer as habilidades de cada um, incluindo a maneira que cada um aprende e desta forma procurar estimular, principalmente, as áreas de menor interesse e consequentemente de maior dificuldade”.

“São necessárias práticas que considerem os perfis de cada um e busquem o desenvolvimento das potencialidades individuais, isso é possível através de ações mediadoras que despertem neles interesse pelas áreas que demonstram menos habilidades”, completa.

A questão, segundo a pedagoga, não é o que ensinar e sim de que forma ensinar - e o que não faltam são novas propostas educativas. “A forma que se ensina, sem dúvida irá impactar no desenvolvimento do aluno, portanto, é preciso utilizar estratégias e metodologias corretas e diversificadas, centrada no aluno para o desenvolvimento das suas potencialidades e aptidões, pois a inteligência é estimulável”. 

 Um exemplo é a Escola da Ponte, em Portugal. Localizada a 30 quilômetros da cidade do Porto, ela deixa as crianças definirem suas áreas de interesse e desenvolverem projetos de pesquisa. Não há salas de aula e sim lugares onde cada aluno procura pessoas, ferramentas e soluções para o que precisa. 

Teoria x Vida Adulta

O Ministério da Educação (MEC) estabelece as diretrizes curriculares da educação básica na Base Nacional Comum Curricular - BNCC. Ela foi reformulada em 2018 e apresenta as competências, habilidades e conteúdos a serem trabalhados nas diferentes etapas do desenvolvimento escolar. “O currículo é um mecanismo de junção entre a escola e a sociedade e que precisa seguir as transformações de mundo, e desta maneira colaborar para o desenvolvimento das habilidades imprescindíveis às ocupações da vida adulta”, afirma.

Mas, porque a BNCC ainda não há ensino sobre habilidades práticas da vida adulta? De acordo com Layse tempos atrás esses conhecimentos era comuns. As escolas ofereciam aos alunos através dos seus currículos, atividades acadêmicas e não acadêmicas, onde os alunos aprendiam algumas tarefas domésticas como lavar roupas, lavar louças, cozinhar, costurar, bem como economia doméstica.

“Acredito que por uma influência histórica caracterizada por uma desigualdade de gênero essas atividades deixaram de existir. Além da busca por saberes propriamente escolares e preocupação em estabelecer uma educação que pudesse contribuir para a formação intelectual e social do indivíduo através dos seus saberes acumulados e desta forma se tornarem cidadãos que pudessem interpretar o mundo de maneira ampla”.

Conforme estudiosos da área, como o sociólogo suíço Philippe Perrenoud, a escola se preocupa muito mais em ensinar teorias do que habilidades práticas e, com isso, os alunos não são treinados para utilizar os conhecimentos em situações concretas. Quase ninguém se lembra das aulas de botânica quando está caminhando em uma floresta. Teoria e prática não deveriam se excluir - e reconhecer isso ajudaria bastante na sala de aula. Afinal, aprender fazendo as coisas, em vez de ficar ouvindo e copiando fórmulas, pode ser mais eficaz mesmo que depois não se use nada disso.

“Falta de autonomia por parte dos alunos também é um problema, pois as maiorias das escolas trabalham com cronogramas fixos a respeito das preferências e ideias deles, bem como seu ritmo de aprendizagem. A despadronização do conhecimento também faz parte desta dificuldade, uma vez que as escolas ainda hoje buscam padronizar não só o pensamento e comportamento, como também o conhecimento”.

A escola completa

E você, já parou para pensar o que gostaria de ter aprendido na escola? Abaixo, você vai ler uma lista que preparamos para você. Mesmo que não saiba nenhum destes assuntos, ainda há tempo de aprender. Há profissionais que promovem cursos de tudo por aí - até mesmo de como pendurar uma roupa no varal.

1. Economia doméstica

Até a década de 1970, muitas escolas obrigavam as moças a estudar os afazeres domésticos. “Hoje, a futura vida profissional do aluno passou para o primeiro lugar. Mas todo executivo tem que morar em algum lugar - e saber administrá-lo”, afirma Sonia Maria Soares Carvalho, consultora de organização do lar.

Para saber mais: Arrume a sua casa, arrume a sua vida: a magia do método japonês para organizar o seu espaço e transformar a sua vida. Livro por Marie Kondo.

2. Cozinhar

Com tanto tempo em casa, as pessoas começaram a se arriscar na cozinha e testar novas receitas nesses momentos de quarentena. Para você curtir esse momento, a plataforma online Curseria disponibiliza cursos com professores renomados em suas áreas, para aprender a cozinhar e a fazer as melhores receitas em casa.

Para saber mais: Curseria.com


3. Pequenos reparos

Quem aí já trocou a resistência do chuveiro? Trocou uma lâmpada? Consertou a maçaneta? Instalou uma prateleira? O Portal Sebrae possui muitos cursos de pequenos reparos. Só se lembre de, antes, fechar o registro da água ou desligar a chave geral da eletricidade: evite choques e inundações.

Para saber mais: Sebrae.com.br

4.  Legislação

Embora todos nós estejamos sujeitos às leis brasileiras, pouco sabemos sobre elas. Nunca caíram nas provas de interpretação de texto, muito menos de análise sintática. A falta de conhecimento sobre nossos direitos e deveres leva a perdermos a noção exata de cidadania.

“Tenha a Constituição em casa e dedique-se a ler com atenção pelo menos os artigos 5 e 6, que se referem aos direitos individuais dos cidadãos”, afirma o advogado Nelson Alexandre da Silva Filho, fundador do Projeto OAB Vai à Escola.

Para saber mais: Constituição da República Federativa do Brasil

5. Finanças pessoais

Um truque, conforme especialistas é anotar os seus gastos fixos em um lado de uma folha. No outro, escreva as dívidas. No topo, o quanto você ganha. A partir daí, estude o que pode cortar ou de que forma pode aumentar sua receita.

Para saber mais: Guia prático Me Poupe! - 33 dias para mudar sua vida financeira. Livro por Nathalia Arcuri.


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