Começamos a edição 84 abordando uma atividade essencial - a solidariedade. No dicionário, esta palavra é definida como ‘demonstração ou manifestação desse sentimento com o propósito de ajudar; ajuda, amparo ou apoio’... Mas, e na prática? Nós, realmente, sabemos qual é o valor de sermos solidários? Quem irá responder essas perguntas é o Coordenador do Programa Social “Comunidade Educa” – Luan Freitas – de 26 anos e que vem transmitindo – junto a uma equipe de voluntários - valores como respeito e cidadania através da prática social. Nas próximas páginas a Gente mostrará os bastidores do “Comunidade Educa” e o trabalho voluntário, através do olhar de quem dedica o tempo a transformar a vida de centenas de três-lagoenses. Esperamos que, nessa leitura, todos se sintam motivados a ajudar - pois, quanto mais doarmos, mais sentiremos satisfação em compartilhar um pouco do que somos e do que temos com o nosso próximo. Experimente!
RG: Luan, o que o motivou a desenvolver o trabalho voluntário? Qual foi o seu primeiro contato?
LF: Como a maioria dos jovens da minha idade, tenho vontade de fazer algo pela sociedade. Sempre gostei de empreendedorismo. Comecei a pesquisar no Brasil e no mundo algumas ações sociais e me deparei com o “Comunidade Escola” - de Curitiba. Entrei em contato e eles me explicaram como funcionava o projeto. Na época fui até a Secretaria de Educação - que me autorizou a fazer um teste; deixou que abríssemos a escola no sábado - que depois mudou para os domingos. Começamos a chamar pessoas da comunidade - capoeirista, professor de xadrez, pessoas que sabem fazer artesanato - visando tirar crianças da rua e colocá-las dentro da escola. Todas as escolas, aos sábados e domingos, são um ativo parado; são um ativo que a comunidade poderia estar usando.
RG: Como foi o processo de colocar o “Comunidade Educa” em prática? Você enfrentou muitas dificuldades burocráticas?
LF: Extremamente difícil fazer um projeto como o “Comunidade Educa”. O domingo é apenas um reflexo do que nós planejamos na semana toda. Nós enfrentamos vários problemas - não burocráticos; mas, da dificuldade comum de se fazer um projeto. Porque é preciso dinheiro para comprar lanche, material pedagógico, contratar um profissional - um projeto, desse porte, tem um custo alto. Além desse problema financeiro, há também a questão dos voluntários. Muitas vezes, a pessoa começa a ir; mas, como é todo domingo, ela acaba desanimando.
RG: Como as autoridades - governo municipal, estadual - reagem a esse tipo de iniciativa? Há apoio institucional?
LF: Eles são supersolícitos; inclusive a Prefeitura nos empresta a escola. Como o Programa ainda é novo - três anos - estamos terminando de adquirir todas as documentações. Temos uma associação já formalizada e entramos com um pedido de utilidade pública na Câmara, para que o poder municipal possa nos ajudar ainda mais. Gostaria de salientar o apoio dos juízes do Tribunal de Justiça Estadual e promotores do Ministério Público Estadual. Inclusive, o doutor Antônio Carlos - que é promotor do meio-ambiente - é o tesoureiro do Educa. Nós temos grandes empresários como sócio- fundadores. É um projeto que tem vários pais e várias mães; por isso, ele vem se estruturando bastante.
RG: Qual o objetivo principal do Programa Social? E de que forma ele pode ajudar na educação dessas crianças?
LF: O Bairro Vila Verde e o Conjunto Habitacional ‘Orestinho’, hoje em dia, são os lugares com maior taxa de criminalidade de Três Lagoas. Não tenho dúvida em afirmar que, da maneira que está, Três Lagoas irá se tornar uma das cidades mais perigosas do estado, porque temos muitas crianças na rua - traficantes que viciam essas crianças; pais presos, mães com problemas de alcoolismo. Temos realidades muito difíceis ali. O que nós queremos é dar oportunidades para essas crianças e para os pais. No primeiro dia de “Comunidade Educa” eu não levei alimentação - até por inexperiência - e as crianças começaram a desmaiar de fome durante a gincana.
Muitas vezes, achamos que a fome está apenas na África... Mas, ela está à porta da nossa casa. Aqui em Três Lagoas existe fome... Muita fome.
RG: É verdade que existem seis eixos de atuação? Poderia nos falar um pouco sobre isso?
LF: O ideal seria que nós conseguíssemos trabalhar em seis eixos; infelizmente, não conseguimos por causa dos voluntários - não temos o material humano necessário. Entre eles estão: saúde, meio ambiente, cidadania, geração de renda, esporte, lazer e cultura. A ideia principal é que, por exemplo, no eixo saúde sejam desenvolvidas palestras educativas em relação ao tema – que haja um atendimento básico; em cultura, seriam desenvolvidos o teatro, a dança, a música, etc. A geração de renda é um eixo que nós gostaríamos de conseguir trabalhar com os pais - colocar esses pais nas escolas, ensinar artesanato, diversas atividades que podem melhorar a renda familiar. Iniciamos uma parceria com a UFMS, com o Ministério Público e o Poder Judiciário Estadual. Com a união dessas instituições criamos o “Programa Universitário Cidadão”. Um dia, levei os universitários para conhecerem o Projeto “Comunidade Educa”; depois, fizemos um bate-papo com as crianças e eu perguntei: ‘Quem aqui conhece a UFMS’?’. Havia mais de cem crianças lá; ninguém levantou a mão - e perguntei: ‘Quem aqui conhece a Mabel’? – referindo-me à antiga fábrica em frente à UFMS... Todos levantaram a mão. É uma coisa muito louca... As crianças conhecem a fábrica de bolachas e não conhecem a universidade federal.
RG: Em um programa de voluntariado, é muito comum adquirir novas habilidades, uma vez que você desempenha atividades que talvez nunca tenha precisado fazer. Esse trabalho lhe trouxe um novo conhecimento ou nova forma de encarar a vida? Quais lições você aprende diariamente desempenhando este papel?
LF: Eu amadureci muito; iniciei o “Comunidade Educa” com 22 anos de idade e, quando você vai criando um vínculo com as crianças e com a comunidade local, até um certo sentimento paternal começa a existir. Também tem as aulas diferenciadas; eu mesmo aprendi xadrez com a professora Cirilo; enfim, cada voluntário que passa por lá deixa um legado de aprendizado. Mesmo que seja sentar com a criança e conversar - que é o mais importante. A única coisa que precisa, para ajudar, é ter vontade.
RG: Quantas crianças são atendidas hoje?
LF: Atendemos mais de cem crianças de seis a 12 anos - das 14h às 18h, na Escola Marlene de Noronha, todos os domingos. A ideia é que, futuramente, consigamos atender mais e de uma maneira sempre satisfatória.
RG: Houve algum impacto nas comunidades três-lagoenses através das ações do Educa? Quantas famílias são impactadas direta e indiretamente?
LF: É importante destacar que o Educa não é só para as crianças; ele é um projeto voltado para a família. Eu acredito que cerca de mil famílias sejam impactadas com a presença do “Comunidade Educa” no Bairro Vila Verde e na região. Nós queremos melhorar a qualidade de vida das famílias e levar as crianças do projeto para a Universidade. Nossa missão é formar cidadãos que façam o que estamos fazendo, hoje em dia.
No começo, as crianças falavam: “Tio, aqui é PCC?”. Os desenhos delas eram sem cores, pretos, cabeças cortadas e, ao longo do trabalho, percebemos que até os desenhos foram mudando - com mais cores; elas começaram a desenhar os voluntários junto com elas. São coisas simples; até o jeito de andar das crianças, não é mais daquele jeito marginalizado.
RG: O número de trabalhadores voluntários aumentou nos últimos anos no Brasil. Há um número considerável de pessoas engajadas pela causa no município? Quantas empresas e pessoas fortalecem essa parceria?
LF: Nós temos de 20 a 30 voluntários - dependendo do domingo. Em Três Lagoas - apesar de ter muita gente que ajuda e é uma cidade ligada às causas sociais - a questão do voluntariado ainda não é muito clara. Quem assume um compromisso voluntário não precisa ir, necessariamente, todo domingo; se ela assume o compromisso de uma vez ao mês, por exemplo, será como qualquer outro trabalho - só que não remunerado.
RG: O que é necessário para se tornar um voluntário da Comunidade Educa? É preciso ter formação profissional?
LF: Não é necessária nenhuma formação; o que precisa é ter vontade, assinar um termo de voluntariado e se comprometer com a causa - porque não estamos ali brincando; estamos fazendo um trabalho sério.
RG: Além de auxiliar no cuidado com as crianças, voluntários também podem criar ações através da ‘Fábrica de Projetos’ - onde se expõe ideias para melhorar o “Comunidade Educa”. Quais são os critérios para fazer parte?
LF: Primeiramente, analisamos o projeto para encaixar nos eixos em que trabalhamos. Já tivemos vários projetos - como o ‘Xadrez Para Todos’ - que foi financiado pela Eldorado e o ‘Cidadania em Duas Rodas’ - que foi uma doação de bicicletas reformadas.
RG: E sobre o projeto com as bicicletas reformadas por detentos da Penitenciária de Segurança Média local. Como surgiu esse trabalho? Você também considera importante fomentar essa ressocialização?
LF: Nós ganhamos mais de 300 bicicletas do Ministério Público - de furto e de roubos. Levamos as bicicletas para a Penitenciária Estadual; com o apoio da AGEPEN, os internos as reformaram - a cada três dias trabalhados eles têm um de liberdade; também tivemos a ajuda do Rotary para montar as peças - pintamos e doamos para as crianças. Vou até lhe contar uma história, que foi muito importante e mostra a importância do “Comunidade Educa”. Um dia, perguntei aos internos de onde eles eram e de que bairros vieram; alguns deles responderam ‘Vila Verde’. Eles me pediram: ‘Dá uma bicicleta para a minha filha ou meu filho; ele estuda lá’. Ficaram empolgados porque os filhos iriam ganhar uma bicicleta. Pens que, se eles tivessem tido a chance de participar de um projeto como o Educa - quando crianças - talvez não estivessem na situação que estão hoje.
RG: Você tem exemplo para nos dar de um aluno que tenha tido impacto direto em sua vida devido ao projeto? Alguma situação em casa ou na escola que a convivência e o aprendizado tenham sido determinantes para a melhora de seu comportamento?
LF: Sim. Uma das crianças, inclusive, que me disse que queria ser do PCC, hoje em dia é um dos líderes do “Comunidade Educa”; que nós chamamos de ‘Coordenadores Mirins’. No momento em que os nomeamos eles mudam, automaticamente, o comportamento, porque é um cargo; eles querem participar de alguma coisa. O irmão dele é um pouquinho mais velho - de dezesseis anos - e nós acabamos perdendo-o; ele estava envolvido com drogas. A mãe dessas crianças não trabalhava e eu percebi que, ela vendo o comportamento do filho caçula - que estava começando a se destacar - me procurou e pediu um emprego. Nós conseguimos um curso; ela fez e, hoje em dia, está trabalhando. Essa é mais uma das dezenas de casos que o projeto está fazendo e ainda é pouco, perto dos frutos que o “Comunidade Educa” ainda dará para Três Lagoas.
RG: Eventos como o ‘Feijão Amigo’ têm arrecadado fundos para o Educa. Quais são os principais projetos alimentados através desses eventos? Existem outras festas beneficentes realizadas pelo programa?
LF: O “Comunidade Educa” depende, basicamente, do ‘Feijão Amigo’. Com esse dinheiro, mantemos as atividades durante todo o ano; mas, ele acaba antes do fim do ano. Então, o que fazemos é pedir ajuda para mais parceiros. Esse ano nós aumentados o evento para conseguir dar conta das atividades do Educa; também tivemos a ajuda da “Cosa Nostra Barbearia” que fez a Costelada e doou para o ‘Comunidade’. Nós começaremos, a partir do ano que vem, a receber verbas pecuniárias - que são verbas providas de multas do judiciário. Apresentaremos projetos para eles e conseguiremos essas verbas para fazermos novos projetos e, lógico, com toda a parceria do Ministério Público.
RG: Para encerrar, gostaríamos que você deixasse um recado sobre a importância de exercer a cidadania.
LF: Não tem outra forma de mudarmos as coisas, se não for pela educação. O “Comunidade Educa” é uma das ferramentas que existem para que consigamos ajudar as pessoas; o principal de tudo não são nem os projetos sociais – mas, você se interessar pelas pessoas; pelo que elas fazem; conhecer mais a sua própria cidade. Acredito que a comunidade tem de se unir porque, o poder público, sozinho, não consegue atender a todas as demandas.