Entrevista

Por que normalizamos o ódio nas redes sociais?

Para entender o que há por trás desse comportamento digital, a Gente conversou com a psicóloga Bruna de Paula Aquino (CRP 14/07821-8), que ajudou a decifrar os mecanismos por trás da violência online.

Isabele Araujo - Rara Gente
02/10/25 às 14h13

Você já se surpreendeu com a fúria e a falta de empatia nos comentários das redes sociais? Parece que as pessoas estão cada vez mais confortáveis para verbalizar ódio, atacar a vida alheia e expressar opiniões que dificilmente teriam coragem de dizer pessoalmente.

Para entender o que há por trás desse comportamento digital, a Gente conversou com a psicóloga Bruna de Paula Aquino (CRP 14/07821-8), que ajudou a decifrar os mecanismos por trás da violência online.

Segundo Bruna, impulsos agressivos fazem parte da condição humana, mas no contato presencial, fatores como medo de consequências, censura social e julgamento inibem essas expressões, enquanto no mundo digital há brechas que garantem a perda do medo das consequências.

 “No ambiente virtual, o anonimato e a distância física funcionam como uma espécie de coragem, permitindo que o indivíduo acesse a agressividade reprimida", explica a psicóloga.

Psicóloga Bruna de Paula Aquino (CRP 14/07821-8).

As redes sociais nos colocam em bolhas que reforçam nossas crenças, e isso tem um custo significativo para nossa capacidade de diálogo. Isso gera rigidez para aceitar e respeitar as diferenças, nos colocando em uma posição onde acessamos apenas “uma verdade".

“Quando ficamos só dentro de bolhas que confirmam o que já pensamos, acabamos convivendo apenas com versões de nós mesmos", alerta Bruna.

O resultado? O diferente deixa de ser visto como algo enriquecedor e passa a ser entendido como uma ameaça.

Muitos discursos de ódio nascem de frustrações pessoais ou sociais que são projetadas em terceiros. Bruna explica esse fenômeno através do conceito psicanalítico do mecanismo de projeção:

"Aquilo que não é aceito em si mesmo é deslocado no outro. A frustração pessoal ou social é deslocada a um alvo externo, na maioria das vezes para um grupo mais vulnerável".

Essa transferência funciona como uma forma de alívio psíquico momentâneo, mas acaba perpetuando hostilidade, preconceito e, em alguns casos, traumas.

A banalização do ódio e seus efeitos

Com a exposição constante à linguagem agressiva, ocorre um processo preocupante de normalização. Esse processo de naturalização enfraquece o limite simbólico entre o aceitável e o violento.

"Quando a agressividade é constantemente exposta, ela pode perder o caráter de impacto", observa a psicóloga.

Muitos discursos de ódio surgem em comunidades que acolhem pessoas que se sentem excluídas, esclarece a profissional.

"O ser humano é um ser de laços, que precisa do outro para sobrevivência. Quando alguém vive a experiência da exclusão ou rejeição, busca pertencimento em qualquer espaço que ofereça reconhecimento e acolhimento", reflete Bruna.

Como reconstruir um ambiente digital mais saudável?

Para transformar esse cenário, Bruna propõe estratégias individuais e coletivas. "Cada um de nós carrega sentimentos e impulsos que nem sempre sabemos lidar. No ambiente digital, muitas vezes descarregamos isso de forma impulsiva, sem medir consequências."

Individualmente, é crucial desenvolver o hábito da pausa, refletir antes de reagir, transformar sentimentos em palavras elaboradas em vez de agressões. O autoconhecimento, seja pela psicoterapia, escrita ou outras formas de expressão, ajuda a dar sentido ao que sentimos sem precisar atacar o outro.

"Quanto mais nos conhecemos, mais compreendemos o que sentimos, queremos, ou até mesmo o que é um limite para cada um de nós", conclui a psicóloga.

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