A menopausa é uma fase natural da vida da mulher, mas ainda cercada de dúvidas, tabus e desinformação. Para esclarecer os principais pontos sobre o assunto, a Rara Gente entrevistou o ginecologista Dr. Eneias Cano, que abordou desde os primeiros sinais até as opções de tratamento hormonal, com uma mensagem clara: informação de qualidade faz toda a diferença.
Por definição, a menopausa é caracterizada por um ano sem menstruação, desde que não haja outras causas como cirurgia de retirada do útero ou uso de medicamentos específicos. No Brasil, a média de idade para a menopausa é entre 50 e 52 anos, mas os sintomas podem começar muito antes.
"A paciente pode estar apresentando sintomas da perimenopausa até dez anos antes da menopausa",
explica o médico. Isso significa que uma mulher que entrar na menopausa aos 50 anos pode começar a sentir os primeiros sinais já aos 40.
Ginecologista Dr. Eneias Cano.
E quais são esses sinais?
A lista é variada e inclui fadiga, diminuição da disposição, lapsos de memória, ondas de calor, insônia, labilidade emocional, queda da libido e ressecamento vaginal. "A paciente pode ter um ou vários desses sintomas. Muitas chegam ao consultório com queixas reais e ouvem que os exames estão normais”, alerta Dr. Eneias, ressaltando que os exames servem apenas como parâmetro e não podem ser o único critério para diagnóstico e tratamento.
O grande protagonista hormonal nessa fase é o estrogênio. É a queda desse hormônio que desencadeia a maior parte dos sintomas. A testosterona também pode sofrer alterações, mas sua reposição tem indicação mais restrita, voltada principalmente para casos de desejo sexual hipoativo, e deve ser feita com parcimônia.
Já a progesterona entra em cena não como parâmetro de dosagem, mas como tratamento, com função de proteger o endométrio e melhorar a qualidade do sono. Quando o assunto é terapia hormonal, os benefícios vão muito além do alívio dos sintomas imediatos.
"Primeiro, melhora a qualidade de vida, porque a paciente deixa de sofrer com aquela sintomatologia toda. Depois, temos a proteção óssea, evitando osteoporose e fraturas lá na frente. As doenças cardiovasculares diminuem muito, e também há redução na incidência de diabetes", enumera o ginecologista.
Ele destaca ainda a melhora na disposição, no humor e nos lapsos de memória.
Mas se os benefícios são tão claros, por que tanta resistência à reposição hormonal? Dr. Eneias explica que existem muitos mitos construídos ao longo do tempo, muitas vezes por falta de conhecimento ou por abordagens generalizadas que não consideram a individualidade de cada paciente.
(Foto: Reprodução)
"Hoje, na medicina moderna, a gente não trata com receita de bolo. Maria e Joana podem ter a mesma idade, mesmo peso, mas sintomas completamente diferentes. O que mais incomoda uma pode não ser o problema da outra. Por isso, a individualização é fundamental."
Além disso, o médico reforça que existem diversas opções terapêuticas disponíveis atualmente (adesivos, sprays, orofilmes, vias oral e tópica, implantes) e a escolha deve levar em conta a necessidade e a adaptação da paciente.
Outro ponto importante é que a terapia hormonal não deve ser vista isoladamente. Dr. Eneias compara a saúde da mulher nessa fase a um tripé, composto por hormônios, alimentação e atividade física.
"Se você não tem o hormônio equilibrado, não tem disposição para fazer exercício e acaba se alimentando mal. Quando a paciente volta a ter libido, que não é só questão sexual, é vontade de viver, ela volta a se cuidar. O hormônio é o maestro desse processo."
(Foto: Reprodução)
A família, especialmente o parceiro, tem papel crucial nesse momento. O primeiro passo é entender que os sintomas são reais e não têm relação com a qualidade do relacionamento.
Por fim, Dr. Eneias deixa um recado importante:
"O primeiro passo é tirar o mito de que reposição hormonal não pode. Pode sim, é segura quando bem indicada. Não tratar também é um risco."
A menopausa não precisa ser um período de sofrimento silencioso. Com o acompanhamento certo e o tratamento adequado, é possível atravessar essa fase com saúde, disposição e qualidade de vida.