O assédio moral contra mulheres ainda é uma realidade silenciosa e recorrente em diferentes ambientes, especialmente no trabalho, e pode provocar consequências profundas na saúde mental e na trajetória profissional das vítimas. No mês dedicado às mulheres, o tema ganha visibilidade e reforça a necessidade de informação, acolhimento e enfrentamento.
Relatos revelam humilhações, sobrecarga e abandono da profissão
A estudante de jornalismo pela AEMS, Letícya Guimarães, desenvolveu uma pesquisa sobre o tema em redações de Três Lagoas e identificou um padrão preocupante de comportamentos abusivos.
“Os relatos vão de xingamentos, gritos e ameaças até situações que levaram mulheres a precisar de acompanhamento psicológico e até se afastar do trabalho”, destaca.
A pesquisa reuniu relatos anônimos de jornalistas que enfrentaram situações como xingamentos, gritos, ameaças e sobrecarga de trabalho. Em muitos casos, os episódios vieram acompanhados de outras violências, como o assédio sexual.
Segundo Letícya, o ambiente das redações já é naturalmente estressante, mas se torna ainda mais prejudicial quando há práticas abusivas.
Os impactos vão além do ambiente profissional. Algumas mulheres relataram necessidade de acompanhamento psicológico, afastamento por atestado e até abandono da carreira. Em cidades de pequeno e médio porte, o medo de denunciar também pesa.
“Há receio de retaliação e de não conseguir novas oportunidades de trabalho”, explica a estudante.
Para a pesquisadora, o assédio moral não é apenas um problema pontual, mas também reflexo de uma cultura organizacional e social que, muitas vezes, normaliza esse tipo de comportamento. A ausência de punições e o silêncio das vítimas contribuem para a continuidade dessas práticas.
Letícya Guimarães, estudante de jornalismo pela AEMS (Foto: Hojemais Três Lagoas)
Assédio moral está ligado à desvalorização da mulher
Do ponto de vista jurídico, o assédio moral é caracterizado por condutas repetitivas que ferem a dignidade da vítima.
A advogada Laura Achiles explica que, no caso das mulheres, esse tipo de violência frequentemente está associado à tentativa de desqualificação por questões de gênero.
“São condutas reiteradas que buscam desqualificar a mulher na condição de ser mulher, ferindo sua dignidade e podendo causar danos psíquicos”, afirma.
A advogada também ressalta que é importante diferenciar o assédio de uma cobrança comum. Enquanto a cobrança é pontual e relacionada ao trabalho, o assédio envolve humilhações frequentes, piadas e ataques pessoais.
Laura Achiles, advogada, conselheira e coordenadora da comissão de enfrentamento da violência contra a mulher (Foto: Hojemais Três Lagoas)
Saúde mental é diretamente afetada
Do ponto de vista psicológico, o assédio moral pode gerar impactos profundos e progressivos. A professora e psicóloga Dra. Sheila Cordeiro destaca que o problema está diretamente ligado à falta de respeito e ao lugar social ocupado pelas mulheres.
Segundo ela, o primeiro sinal de alerta é o desconforto emocional.
“Quando essa mulher começa a se sentir invadida, desrespeitada e desconfortável naquele ambiente, isso já indica que algo não está dentro do limite saudável”, explica.
Um dos efeitos mais comuns do assédio moral é a culpabilização da vítima. Muitas mulheres passam a acreditar que são responsáveis pela situação vivida, o que afeta diretamente a autoestima e a autoconfiança.
“O assédio moral gera sentimento de culpa, tristeza e faz com que a mulher desacredite no próprio potencial”,
destaca a psicóloga. Esse processo pode levar ao isolamento, à dificuldade de falar sobre o problema e ao agravamento do sofrimento emocional.
Entre as principais consequências estão quadros de ansiedade, depressão, síndrome do pânico e burnout. Em muitos casos, as vítimas deixam de frequentar ambientes, se afastam de atividades e até comprometem relações pessoais.
Sheila Cordeiro, professora universitária e psicóloga (Foto: Hojemais Três Lagoas)
Denunciar ainda é um desafio
Apesar dos impactos, denunciar o assédio moral ainda é difícil. A advogada Laura Achiles explica que esse tipo de violência costuma ser silencioso e, muitas vezes, mascarado como “brincadeira”.
Entre as formas de comprovação estão testemunhas, registros de mensagens, e-mails e denúncias formais dentro das empresas. Ela também destaca que, embora não exista uma lei específica para o assédio moral, a legislação brasileira garante proteção por meio de princípios como a dignidade da pessoa humana, podendo gerar indenização por danos morais.
Especialistas reforçam que a vítima não deve enfrentar a situação sozinha. O primeiro passo é reconhecer que o comportamento ultrapassa os limites do respeito. A orientação é procurar apoio psicológico, canais de denúncia e, quando necessário, assistência jurídica.
Em Três Lagoas, serviços como o Centro de Referência de Atendimento à Mulher (CRAM) e a clínica-escola de psicologia da AEMS oferecem suporte gratuito à população.