Entrevista

"Risco do aborto era menor que o parto", explica médico sobre menina de 10 anos

Em entrevista, médico que realizou procedimento fala sobre o caso

Bruna Taiski
17/08/20 às 10h21
Reprodução

Ao chegar ao Centro Integrado de Saúde Amaury de Medeiros (Cisam), da Universidade de Pernambuco, na tarde deste domingo (16), o médico, gestor da unidade e professor universitário, Olimpio Barbosa de Morais Filho, teve uma surpresa: mais de 200 pessoas protestavam na frente da unidade por causa do aborto da menina de 10 anos, vítima de estupro. Ele revelou ao jornal Tribuna Online que já durante a tarde foi dado início ao processo de aborto, com aplicação de drogas.

Segundo o médico, manter a gravidez na sua idade teria muito mais riscos de complicações e de morte que em um adulto. A menina já estava com mais de 22 semanas de gravidez, ou seja, cerca de 5 meses.

Conforme publicado na noite de ontem pelo jornal, o médico informou que a menina  passa bem. "Todo procedimento tem um risco, mas garanto a você que o risco é menor que um parto. No caso dela, se continuasse a gravidez, por causa da idade, teria riscos muito maiores de complicações e morte que uma mulher adulta. Além disso, ela não queria de jeito nenhum a gravidez. Ela verbalizava que não aceitava de jeito nenhum. Quando acontece isso, obrigar uma criança é uma tortura muito grande, destrói a vida da pessoa", diz.

Manifestação

Um grupo religioso de Recife, em Pernambuco, mobilizou dezenas de pessoas neste domingo (16) em frente ao hospital onde a menina de 10 anos que engravidou após ser estuprada realizaria o aborto do feto. Em imagens publicadas nas redes sociais, o grupo reza e chama o médico responsável pelo procedimento de "assassino".

"Eu pensei que ninguém sabia do procedimento, já que é sigiloso, mas quando cheguei lá (no Cisam) tinha mais de 200 pessoas tentando entrar no Centro. Eles não deixavam nem as gestantes que chegavam entrar no local, dizendo que ali era a casa de Satanás. Eram mulheres parindo, na ambulância, tentando entrar, e eles gritando. Uma coisa da idade média. Políticos, religiosos...", diz ao Tribuna Online.

O ato teria começado após a ativista Sara Winter divulgar em sua página no Twitter o endereço do hospital onde a menina realizaria o aborto. Em contato com o hospital, a reportagem foi informada que a criança ainda não havia chegado.

"O maior problema que vejo são essas forças religiosas e políticas contrárias a salvar a vida dessa menina, essas pessoas divulgaram o nome dela. Eles perseguem. Temos que ter cuidado em proteger a criança, com o nome dela, para que isso não destrua a chance dela reconstruir a vida depois disso tudo. É muito ódio", diz o médico.

Vários vídeos da manifestação foram publicados também no Twitter, onde grupos que defendem a realização do procedimento também foram à porta do hospital. Em um deles, pode-se ouvir um grupo de pessoas que brada: "Vocês estão rezando para uma menina de 10 anos parir", enquanto os religiosos dão as mãos e fecham a roda contra o outro grupo.

Caso

O caso da menina de dez anos grávida após ser estuprada ganhou repercussão nacional nesta semana após a Justiça do Espírito Santo anunciar que estaria analisando a possibilidade de a criança abortar o feto. A questão gerou revolta uma vez que o direito ao aborto no caso da menina - após estupro - é previsto por lei, sem necessidade de análise judicial.

A menina deu entrada em um hospital na cidade de São Mateus, norte do Espírito Santo, na semana passada. Ela sentia dores no abdômen. Um exame de sangue mostrou que ela estava grávida. A menina contou que era estuprada pelo próprio tio.

A polícia investigou o caso e em menos de dez dias concluiu o inquérito. O tio da criança foi indiciado por estupro de vulnerável e ameaça.

A Justiça decretou a prisão, mas o homem, de 33 anos, está foragido. Esta semana, equipes da Polícia Civil seguiram uma pista que ele estaria na Bahia, foram até lá, mas não conseguiram encontrá-lo.

A criança contou que ele começou a praticar os abusos quando ela tinha seis anos de idade e fazia ameaças, dizia que se ela contasse para alguém, ele iria fazer algum mal a parentes da menina.


Com informações Tribuna Online.

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