“O que acontece entre nós é uma relação de troca: eu produzo; você consome. Eu só produzo porque você consome.”
Essa matéria é para abrir a revista “com o pé direito”. Vamos conhecer as verdades do que alimenta nosso país e, muitas vezes, fica nos bastidores - a agropecuária. Ivan Roberto Carrato Júnior preside o Sindicato Rural de Três Lagoas desde novembro de 2017; mas, é membro desde 2009. Ele afirma que “o Brasil é agropecuário” e, para a Gente, contou detalhes da potência que sustenta a economia brasileira. Grupo de mulheres, consultoria particular, Sindicato Jovem, cursos para produtores... São muitas iniciativas incríveis e interessantíssimas a serem exploradas. No entanto, o que faz o Sindicato? Qual é a proporção dos impostos? Para onde é destinada a tributação? Aqui, vamos direto ao ponto: verdades do Sindicato Rural da porteira para fora.
Rara Gente: Ivan, quais são as principais funções e atuações do Sindicato Rural?
Ivan Carrato: O sistema de trabalho que temos no Sindicato Rural tem o intuito de unir os produtores rurais - tanto os que atuam na agricultura quanto na pecuária. Assim, é possível unir forças dentro do nosso trabalho. O Sindicato vem há algum tempo, com a participação efetiva de toda a diretoria, mudando um pouco o foco que existia no município. Na maioria das vezes, e até hoje mesmo, acontece de associar o nome do Sindicato ao Parque de Exposições e às festas que acontecem lá; mas, nosso maior foco não é esse. Nosso foco é aproximar os produtores rurais, trazer informações, buscar soluções para problemas comuns, dar voz aos pequenos produtores, ouvir a política, etc.
RG: É evidente que o mercado favorece os grandes produtores, tanto por demanda quanto por alcance. Dentro do Sindicato, isso gera algum tipo de rixa ou supremacia?
IC: Não. De forma alguma. Costumo dizer que somos todos produtores rurais. Pequeno, médio, grande, pecuária, agrícola... Independentemente do tamanho, todos temos nosso trabalho e nossa importância para a sociedade. O que acontece, muitas vezes, é quem está de fora achar que os produtores rurais são ‘pessoas diferentes’, como se fôssemos uma casta elevada. E não é isso. O que acontece entre nós é uma relação de troca: eu produzo; você consome. Eu só produzo porque você consome. É um ciclo; uma parceria indireta e sem fim.
RG: Existem iniciativas para incentivar o alcance da agricultura familiar e dos pequenos produtores? Quais?
IC: Claro. Esse é um dos pilares mais fortes do Sindicato Rural - uma das causas pelas quais mais lutamos. O problema é que o país – a federação – não valoriza. O Brasil é agropecuário. Ponto. Aqui em Mato Grosso do Sul essa verdade é ainda mais forte. Faz parte da realidade da população. Mas, ainda temos muitos impostos e taxas por cima e quem acaba sofrendo mais com essas taxas é o pequeno produtor. Em uma consultoria feita, recentemente, pelo Sindicato vi um caso em que, na venda do leite, o produtor estava sem lucro. O que recebia era apenas o custo de produção. Com esse tipo de situação fica cada vez mais difícil de incentivar a agricultura familiar. Se o capital não gira, não tem como eles aumentarem a produção.
RG: É fato que o Brasil é agropecuário; no entanto, o senhor acredita que, nos últimos anos, devido à industrialização, a agropecuária em Três Lagoas acabou ficando desvalorizada?
IC: Se o Brasil é agropecuário, o Mato Grosso do Sul é mais ainda. É o coração da agropecuária. Como eu estou no Sindicato desde 2009 e trabalho nesta área há muitos anos, pude assistir boa parte dos avanços que aconteceram aqui na cidade. As indústrias de tecido, celulose e papel só vieram para a cidade porque já existia uma localização muito bem feita, com possibilidade de expansão muito grande. Três Lagoas e toda a região da Costa Leste – o antigo Bolsão – hoje são referência para vários aspectos no estado. Isso é muito bom. Tanto para o desenvolvimento da cidade quanto para o da agropecuária. Então, eu acho que esse desenvolvimento industrial não prejudicou a agropecuária, mas contribuiu de certa forma. Nós contribuímos antes, para que a região fosse valorizada e expandida; as indústrias contribuíram para o crescimento e desenvolvimento da cidade.
RG: A agricultura e a pecuária são duas das grandes potências do nosso Estado. A tributação em cima dessas potências também é alta?
IC: Sim. Bastante. Tudo é taxado em cima da agropecuária. Quando afirmam que “a agropecuária aqui é muito forte”, é lógico que é. Então, quando há um aumento muito grande dos impostos, toda a produção será taxada. É claro que afeta os produtores, mas isso reflete, diretamente, na população, que consome o que é produzido. Então... O que isso quer dizer? Quer dizer que quando há aumento nos preços, os produtores não estão lucrando mais - só estão sendo mais tributados. Se a alíquota do produtor sobe, todo o resto sobe.
RG: Os produtores veem o retorno dos impostos que pagam? De que forma são investidos?
IC: Não. Esses impostos – como o Fundersul [Fundo de Desenvolvimento do Sistema Rodoviário do Estado de Mato Grosso do Sul] – são altos e não retornam para o produtor, não geram recursos agropecuários. Pelo menos, não visivelmente. Porque, quando nos dirigimos às propriedades rurais, nem sempre os asfaltos estão em boas condições. As estradas de terra estão quase intransitáveis; a estrutura continua precária... Então, aquilo que os produtores pagam de impostos e de taxas não são devolvidos como investimento, como deveriam ser. Há alguns anos, foi aprovado que o Fundersul fosse utilizado para investimento dentro das cidades; eu acho isso muito bom também. O produtor rural não usa só as estradas de terra - esse tipo de investimento atinge, de maneira positiva, toda a população. Um exemplo é o recapeamento da Avenida Capitão Olintho Mancini até o monumento do Cristo. A questão é que esses investimentos não podem ficar estacionados.