Entrevista

Pós-pandemia: Infectologista elucida as questões em diferentes pontos de vista

Dra. Renata Congro Leal, infectologista, elucida questões sobre o mais importante marco do século 21.

Bruna Taiski
06/01/21 às 07h27
Dra. Renata Congro Leal, infectologista

A Covid-19 mudou nossas vidas, e o ano de 2020 definitivamente entrará para a história da humanidade. Desde 31 de dezembro de 2019, quando a China alertou a Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre uma pneumonia de origem desconhecida o mundo acelerou para implementar voluntariamente em meses, mudanças que normalmente levariam décadas para acontecer.

Milhões de pessoas foram infectadas com a doença, em uma contagem que não para de crescer, inclusive no Brasil. Bilhões estão presos em casa, saindo apenas para atividades essenciais, tentando conter o avanço do ‘mal invisível’ e evitar o colapso do sistema de saúde.

A doença, que pode infectar todas as pessoas, sem excessões, assusta pela grande quantidade de mortes - só no Brasil, mais de sessenta mil pessoas já faleceram em decorrência da Covid-19. Enquanto não houver uma vacina ou um tratamento eficaz que garanta a segurança de andar na rua sem máscara e sem medo de se contaminar e, pior, de infectar a própria família, o mundo não será o mesmo. Por isso talvez seja melhor mudar o tempo verbal da frase que abre esta matéria e dizer que o coronavírus vai mudar - mais ainda - as nossas vidas. Mas como? Que cenários prováveis já começam a emergir e devem se impor no mundo pós-pandemia? A infectologista, Renata Congro Leal, traz essas respostas e outras para a Gente. Confira!


RG: É verdade que todos vão pegar Covid-19 em algum momento?

RC: Por ser um vírus novo nós ainda estamos descobrindo como ele se comporta. Porém, já sabemos que ele é um vírus com alta taxa de transmissibilidade, ou seja, é fácil ‘pegar’ o vírus de uma pessoa infectada. Assim, é bem provável que no futuro a maior parte da população seja exposta. O fato é que se afrouxarmos as medidas de distanciamento social, como estamos vendo agora, uma grande parcela da população será acometida.


RG: A pessoa pode se contaminar mais de uma vez?  Testar anticorpos positivos para o Covid-19 é garantia de imunidade?

RC: Até o momento, não há estudos ou testes que comprovem a possibilidade de reinfecção, visto que China, Japão e Coréia do Sul, estão se recuperando da curva epidemiológica, porém há registros em todo o mundo de pacientes que testaram positivo para o coronavírus por mais de uma vez, não sendo a infecção garantia de imunidade permanente.


RG: Já se sabe se é possível o vírus ficar alojado no corpo?

RC: Ainda não se sabe se o coronavírus “fica alojado” no organismo. É descrito que o período de incubação em média é de 14 dias e que alguns pacientes podem transmitir o vírus por mais tempo, como os pacientes imunossuprimidos. Acredito que no futuro teremos essa resposta.

RG: Por que a nova doença foi batizada de covid-19?

RC: Desde o início de fevereiro, a Organização Mundial da Saúde (OMS) passou a chamar oficialmente a doença causada pelo novo coronavírus de Covid-19. COVID significa Corona Virus Disease (Doença do Coronavírus), enquanto “19” refere-se a 2019, quando os primeiros casos em Wuhan, na China, foram divulgados publicamente pelo governo chinês no final de dezembro.


RG: O Brasil já está no pico máximo de contágios? Qual a perspectiva para os próximos meses?

RC: Por ser um país continental, não podemos falar em uma epidemia única no Brasil. Temos uma pandemia composta por diversas epidemias locais, com padrões diferentes em cada região. É mais fácil identificar o auge de uma pandemia quando já passamos por ela e vemos que houve uma redução consistente de alguns índices-chave, como o número de casos novos por dia e número de óbitos por dia, enquanto esses números estiverem crescendo, não dá para dizer que passamos do pico, esses valores não podem ser pontuais, eles tem que sustentarem por pelo menos duas semanas, o que infelizmente não vem acontecendo em nossa cidade, região, estado e país.


RG: É possível que surjam outros tipos de coronavírus nos próximos anos?

RC: Épossível que haja mutações e adaptações do vírus, assim como aconteceu com H1N1.

RG: Depois que os governantes flexibilizarem a quarentena, como saber se de fato é seguro sair do isolamento?

RC: A Organização Mundial de Saúde (OMS), criou critérios para auxiliar os países a flexibilizarem ou suspenderem o isolamento social. Os critérios são: Controle na transmissão da doença, capacidade de atendimento no sistema de saúde, capacidade de testagem dos casos e dos contactantes, viabilidade de recursos para possíveis surtos como em unidades de saúde e asilos; implantação de medidas preventivas em locais de trabalho, escolas e estabelecimento essenciais e preparo das comunidades com as novas normas e regras.

RG: Conseguiremos estar em grandes aglomerações novamente?

RC: Acredito que não estaremos em grandes aglomerações nos próximos meses. Para que essa liberação ocorra de forma segura precisamos nos estabilizar na pandemia, com números de casos em queda, com a taxa de ocupação hospitalar baixa e com a capacidade de testagem populacional assegurada, sem contar os avanços na terapêutica farmacológica e vacinal.

RG: Quanto tempo poderá durar os efeitos da pandemia?

RC: A resposta para essa pergunta é algo que todas as autoridades do mundo buscam saber nesse momento, a COVID-19 vem fechando fronteiras, terrestres e aéreas, paralisando comércios e empresas, colocando praticamente todos os países em estado de quarentena. Infelizmente não sabemos por quanto tempo essa situação vai perdurar e como serão os próximos meses. A pandemia é dinâmica e depende do comportamento social para sua contenção ou expansão. Enquanto não houver uma vacina eficaz e segura a pandemia poderá persistir, aumentando a insegurança global.

RG: Quais serão as mudanças permanentes na rotina dos brasileiros?

RC: A pandemia mexeu diretamente com a saúde física e psíquica das pessoas. Acredito que construção de novos valores e novas prioridades serão dadas após essa fase tão difícil e sombria que obrigou o planeta a repensar. O fato é que o mundo não será mais o mesmo e que valores antes menosprezados serão resgatados e dados a real importância. Tivemos que passar por essa catástrofe para os governantes enxergarem de perto o déficit na saúde. A falta de leito de UTI, a falta de equipamentos essenciais como ventiladores mecânicos é uma briga antiga que ganhou destaque só agora por causa da crise. Cuidados com a higiene pessoal e dos ambientes ganharão reforços nos lares e nos estabelecimentos. Creio que não vamos esquecer o aprendizado da pandemia e que levaremos nossos conhecimentos para essa nova fase da vida como um ganho positivo.

RG: É possível voltar a nossa rotina usando apenas a máscara facial?

RC: Definitivamente não, a máscara facial é mais um equipamento de proteção individual que para ser efetiva tem que ser usada em concordância com o afastamento social, higienização de mãos e superfícies. É o conjunto de medidas que são eficazes e não apenas uma única orientação isolada que irá acarretar no impacto do dano geral.

RG: Quais mudanças de espaços físicos e ambientes como cinema, escolas, comércios, podem continuar após a pandemia?

RC: As medidas de distanciamento pessoal, o reforço na higiene individual e coletiva, a preocupação com a ventilação do ambiente e o uso de máscara facial. Além dessas medidas, trabalhos à distância, aulas online, aumento de delivery e cinemas ao ar livre.

RG:O coronavírus pode ‘desaparecer’ ou será uma doença comum como o H1N1?

RC: Como todos sabem estamos conhecendo o novo coronavírus e ainda temos muitas perguntas sem respostas. A Organização Mundial de Saúde deu esse alerta em maio para as autoridades de que a doença tem potencial de se tornar endêmica se ações firmes não forem tomadas, mesmo com uma eventual vacina.

RG: Já existem resultados para a vacina? Qual a perspectivas da vacina no Brasil?

RC: Temos no mundo mais de 200 vacinas em estudo contra a Covid-19, das quais 15 já entraram na fase de testes clínicos, ou seja, em seres humanos. A vacina de Oxford está na fase três de desenvolvimento, última fase antes da aprovação e distribuição. Começou a ser testada por volta do dia 15 de junho em voluntários brasileiros, em um estudo liderado pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), podendo durar até um ano essa análise. Já a vacina chinesa começou a ser testada no Brasil em julho, depois de a companhia fechar acordo com o Instituto Butantan, ligada ao governo do Estado de São Paulo, que pode levar à produção dela no Brasil, caso se mostre eficaz.

RG: O que ainda não se sabe sobre o novo coronavírus?

RC: Infelizmente não sabemos de muita coisa, começando pela origem do vírus, até hoje não ficou bem estabelecido qual animal silvestre foi o transmissor do novo coronavírus para os seres humanos. Acredita-se que o período de incubação é 14 dias e que a média do contágio até os primeiros sintomas são 5,2 dias. Não está bem descrito se pacientes assintomático são transmissores da doença e se a terapêutica que vem sido aplicada de fato funciona. Diria sem nenhuma vergonha que temos mais dúvidas que certezas até o momento.

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