Em um parecer técnico, violência contra a mulher é todo ato que resulte em morte ou lesão física, sexual ou psicológica de mulheres - tanto na esfera pública quanto na privada.
No país, ocorre um estupro a cada 11 minutos. Cerca de 70% das vítimas de estupro são menores de idade.
Há, em média, 10 estupros coletivos - notificados diariamente no sistema de saúde do país. Somente 15,7% dos acusados por estupro foram presos.
E esses dados, colhidos no Anuário Brasileiro de Segurança Pública, são os mais atualizados; mas, as estimativas variam: calcula-se que estes sejam apenas 10% do total dos casos que realmente acontecem.
Inúmeras pesquisas mostram, há anos, a vergonhosa prevalência da violência contra as mulheres no Brasil. Jornais e portais de notícias registram casos e histórias, diariamente. A realidade, no entanto, muda pouco.
Por isso, nesta edição – especial de mulheres – a Gente entrevistou quem está inserida no cotidiano de violência contra a mulher e entende - mesmo - do assunto: Letícia Mobis Alves, delegada titular da DEAM – Delegacia de Atendimento à Mulher.
Mesmo em meio à agitação do cotidiano na Delegacia – os meses de janeiro e fevereiro, período em que entramos em contato, foram bem movimentados em ocorrências – ela conseguiu abrir um espaço para nós.
Explicou tudo sobre a incidência de crimes contra a mulher, a persistência dos casos e o constante aumento na gravidade dos crimes na cidade.
Sobre a incidência de casos na cidade, Letícia explica que "nessa ordem, a maioria dos crimes contra a mulher aqui é de ameaça, lesão corporal, injúria e vias de fato.
Nós temos uma média de 120, 130 boletins de ocorrência todo mês. O que vem chamando a nossa atenção é que o número de lesões corporais – e até mesmo de feminicídios – tem aumentado ultimamente, do ano passado para cá."
Uma das partes mais marcantes de tudo que disse durante a entrevista é sobre depoimentos e casos mais chocantes que viu em sua trajetória. "De todas as crianças, infelizmente eu consigo lembrar o rosto da maioria. E sempre me marcam. Mas, o que me deixa mais abismada é a reação das mães; porque, na maioria dos casos, os agressores são os pais ou os padrastos - e as mães se omitem. Nós tivemos um caso em que o agressor era o pai biológico da menina e a mãe fez a filha “desmentir” depois, dizendo que ela não havia sido abusada; que, na verdade, a menina tinha visto a Xuxa na televisão – foi na mesma época em que a Xuxa contou que tinha sido abusada – e que tinha mentido para ficar igual à apresentadora infantil. E, depois de um tempo, durante um depoimento, a mãe contou que não queria que o pai da menina fosse preso, apesar de – realmente – ter abusado, porque ela tinha muitas dívidas para pagar e ainda dependia financeiramente dele. Mas, graças a Deus, essa estratégia não teve êxito e esse homem está preso até hoje. De mulher, teve um caso específico logo que eu cheguei aqui, de uma grávida que foi sequestrada pelo ex-marido e espancada durante dias. Ela estava com cerca de oito meses de gravidez. Quando ela chegou à Delegacia, o rosto estava deformado; o corpo tinha hematomas de todas as cores. E estava grávida. Aquilo foi horrível para mim. A mulher com o “barrigão” de quase nove meses, prestes a dar à luz, toda roxa e deformada."
Entrevista: Aurora Villalba.