Entrevista

Mariá Costa fala sobre as vivências da mulher preta no Brasil

"Ser uma mulher preta é enfrentar o racismo cotidianamente em todas as esferas...”.

Bruna Taiski
18/11/20 às 07h27

“Eu sou e vou até o fim cantar!”. Com a letra da música de Elza Soares - Mulher do Fim do Mundo - Mariá Costa Leal Rodrigues inicia esta entrevista, e falar sobre as vivências da mulher negra no Brasil.

Aos 20 anos de idade possui uma grande bagagem acadêmica e cultural, é estudante do curso de Ciências Sociais na UNESP - Faculdade de Filosofia e Ciências no campus de Marília; participa do Programa de Educação Tutorial (PET) de Ciências Sociais; é bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) e desenvolve em conjunto com o grupo um projeto chamado Podcast - uma ciência na rede que tem o intuito de realizar podcasts sobre temas sociais.

“ Estou em fase inicial de uma pesquisa sobre necropolítica e também faço parte do grupo que realiza as atividades do projeto Malungos de Zumbi e Dandara”.

Três-lagoense, Mariá atualmente mora em Marília no interior de São Paulo onde foi aluna do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Mato Grosso do Sul (IFMS) campus Três Lagoas e por conta das reflexões críticas propostas nas aulas de sociologia do professor e doutor Guilherme Tommaselli, ela e muitos amigos e amigas começaram a refletir sobre as questões raciais que aconteciam na própria escola e no mundo.

“Em vista disso começamos o que nós chamamos de empoderamento negro, que foi uma maneira de buscar a nossa identidade enquanto pessoas negras, identidade essa que nos é negada cotidianamente desde sempre em todas as esferas sociais e institucionais”.

Sendo assim, foi criada uma página no Facebook e no Instagram que serve de divulgação dos seus projetos e principalmente o Concurso de Beleza Negra do IFMS. O concurso conta com a participação de todos os alunos e alunas dos 9º anos e ensino médio de Três Lagoas e região, ele é realizado em três etapas: primeira consiste em um desfile com roupas, maquiagens e acessórios que remetem a estética negra, a segunda etapa uma apresentação cultural com relação a negritude como comidas, danças, contação de histórias, músicas, poemas, e por último uma pergunta relacionada a este universo para os candidatos.

“É muito importante ressaltar que o concurso de beleza negra é uma entre muitas outras atividades que acontecem na semana de consciência negra do IFMS, semana essa que para acontecer teve que ter muita luta, insistência e resistência por parte do professor Dr.Guilherme Tommaselli e do Professor Gilmar Pereira”.

“Ser mulher negra no Brasil é lidar com o racismo afetando a sua vida desde pequena, é viver situações que muitas vezes nós não entendemos, mas que sempre aconteceram conosco”.

Minha essência

“Ser mulher negra no Brasil é lidar com o racismo afetando a sua vida desde pequena, é viver situações que muitas vezes nós não entendemos, mas que sempre aconteceram conosco”.

Um exemplo, conforme Mariá, é a solidão que estas mulheres enfrentam na infância e na vida adulta principalmente em seus relacionamentos, de acordo com a filósofa Djamila Ribeiro as mulheres negras no Brasil são as que menos se casam e as que mais se divorciam, isso se dá por conta de uma mentalidade, desde os tempos escravocratas, onde elas eram vistas como objetos sexuais e não pessoas dignas de serem amadas.

“Por conta disso, acho que todas as pessoas independentemente da idade, gênero, orientação sexual, raça, classe social, devem começar a ouvir e buscar entender melhor as questões que envolvem a mulher negra na sociedade brasileira, pois uma vez que elas se movem, toda a sociedade se move em conjunto”.

Além de ouvir e ter empatia, Mariá pontua que é imprescindível também começar a consumir conteúdos delas, sejam elas youtubers, criadoras de conteúdo, escritoras, entre outras categorias. “Só através de uma aproximação mais humana que é possível entender e se solidarizar com os seus problemas e questões racistas que enfrentamos cotidianamente”.

“Ser preta é sinônimo de luta!”. A luta dramática para combater a violência no Brasil é explicada em números, e no ano de 2018, ainda segundo os dados compilados pelo Atlas da Violência, a taxa de homicídios de mulheres negras era bem maior que a de não negras - 5,3 e 3,1 respectivamente. A diferença é de 71%.

“Esses dados só escancaram as consequências do racismo institucional no Brasil, portanto, concluo que ser uma mulher preta é enfrentar o racismo cotidianamente em todas as esferas...Mas estar sempre na busca do aconchego e na beleza de ser o que se é”.

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