“Do primeiro rabisco até o be-a-bá. Em todos os desenhos coloridos vou estar”. Ela começa a entrevista com a Gente cantarolando a música ‘O caderno’ de Toquinho, para definir o amor que sempre teve por seus livros e cadernos... Todos eles. A matéria de capa desta edição carrega consigo uma elegância ímpar; é nítido, em seus olhos, o fascínio pela leitura, pela arte, pela cultura e por tudo que compreende o universo do conhecimento. Esta é Márcia Raquel Spazzapan - uma mulher segura em tudo o que faz; que encanta com sua personalidade única e sensatez admirável.
Amante da arquitetura, da decoração, da pintura e da poesia, afirma gostar do ‘belo’. Quando era pequena, lixava e envernizava as cadeiras de sua avó, pois sempre deu importância à manutenção de tudo. Inclusive do saber. Você já viu alguém ter um livro de gramática como “livro de cabeceira”? Pois é... Ela tem!
Márcia foi educada para conquistar o seu espaço... E conquistou! Apaixonou-se pela Medicina e encontrou-se na Cirurgia Plástica; trabalhou com grandes nomes, como Ivo Pitanguy - patrono da Cirurgia Plástica no Brasil- e Pedro Vital – cirurgião renomado.
Foi com muita hospitalidade que ela nos recebeu em sua clínica; logo, a entrevista tornou-se um bate-papo muito gostoso regado a risadas e boas memórias. “Sou uma mulher simples - como tantas outras. Fui criada para estudar e depois trabalhar... Em minha casa esse era o lema” – descreve-se.
Prefácio“Deus nos dá pessoas e coisas para aprendermos a alegria...” - este trecho foi citado por Guimarães Rosa, importante escritor que recebeu o Prêmio Machado de Assis - o principal prêmio literário brasileiro, em 1961 - ano em que Maria Josepha Sacco Spazzapan – 80 anos - e Valdomiro Spazzapan [in memorian] também foram presenteados com uma grande alegria - o nascimento de Márcia.
Natural de Andradina, o pai era sitiante e a mãe Professora Primária... Em meio às obras de Monteiro Lobato e José de Alencar, ela cresceu vendo a mãe lecionar - o que talvez explique, de certa forma, o amor hereditário pela leitura – e trabalhar em outras áreas, simultaneamente. “Minha mãe, na verdade, é uma mulher muito versátil; eu cresci vendo-a fazer uma série de coisas - desde objetos de decoração a comida... Ela já fez de tudo”.
Maria Josepha ou ‘Zepha’ fomentou o saber de seus alunos e filhos - Stela Mara Spazzapan Martins, Paulo Sérgio Spazzapan, Lucia Helena Spazzapan Gullotta e, claro, Márcia - com lições de casa e lições sobre a vida. Era bastante rígida; ensinava a importância da honestidade, da responsabilidade, da humildade em saber qual o seu lugar e, acima de tudo, do respeito ao próximo. Márcia herdou todos essas qualidades, junto com a força, em meio à delicadeza - e o afeto, em meio aos deveres do dia a dia.
“Acho que isso vem com a gente. Sou a mais velha - de uma família que não tinha muitas condições. Não aprendi a ter gastos desnecessários; sou uma pessoa um pouco espartana. Tenho aversão a desperdícios – inclusive, de talento. Tantos necessitando... E outros desperdiçando... Não aproveitando”.
Asas e raízes
As asas foram concebidas e, desta vez, não eram aquelas que imaginava nos contos. Ao terminar o segundo ano do colegial - em uma escola pública – recebeu a oportunidade de cursar o terceiro ano em uma escola particular de Ribeirão Preto. “Eu li várias coleções; quando cheguei ao terceiro colegial, havia lido todos os livros que iam cair no vestibular. Eu estava sempre na biblioteca, porque não tinha condições de comprar os livros”.
Voar não foi tão fácil; pelo caminho, ela se deparou com discursos desmotivadores. ‘Uma jovem de 16 anos de escola pública não poderia ir tão longe; há coisas mais importantes para dar atenção em tempos tão difíceis’ - declaravam os desacreditados. “Diziam que nós, com tantas dificuldades, íamos investir em algo que, talvez, não virasse nada; que seria um investimento jogado fora”. Crer em si mesma a blindou dessas opiniões adversas; ela não perdeu o foco... Meses depois, estava entre os dez primeiros alunos da escola.
O sonho de entrar em uma faculdade não foi barrado pela situação financeira na época; ao contrário, ela utilizou essa dificuldade como estímulo para concluir seu objetivo. Em 1978, prestou vestibular para a USP de Ribeirão Preto, para a Santa Casa de São Paulo, para a Paulista e para Botucatu. No fim, foi aprovada em todas as universidades.
“Eu saí do vestibular com a sensação de que não havia passado; mas, felizmente passei. Foi uma das maiores alegrias da minha vida. Escolhi a USP de Ribeirão Preto, pela qual já estava encantada” - recorda emocionada.
Durante a faculdade de medicina ela trabalhou; teve bolsas de estudos; prestou concurso; foi monitora de Fisiologia, Oftalmologia, Anatomia e deu aulas de Física e Português. Monotonia, sem dúvida, não é o que a rege. Márcia sempre buscava conhecer algo novo; é de sua essência. “Fiz todos os cursos básicos que você imaginar: corte e costura; bordado; pintura de parede; cartazes; datilografia; inglês... Sou formada até em piano - embora não toque mais; é uma pena!”.
A ideia inicial quando entrou para a faculdade, era ser professora de Fisiologia; mas, no quarto ano, encantou-se com as técnicas da cirurgia e iniciou Residência em Cirurgia-Geral no Hospital das Clínicas em Ribeirão Preto. No final desta residência, conheceu o que seria uma das suas grandes paixões - a Cirurgia Plástica.
“Quando fui colocada em uma cirurgia pensei: ‘Nossa! Esse é o meu mundo’. Penso que a medicina encontra a gente; é um senso de responsabilidade grande; gosto de desafios. Sigo uma premissa, que minha mãe sempre diz. ‘Aprenda a arte, coloque a parte’.
Márcia é a personificação da força feminina; em suas próprias palavras ‘como todas as mulheres’ e, como todas as mulheres... Não mede esforços para conseguir o que é para ser seu. Perfeccionista, detalhista, extremamente observadora e exigente são características determinantes na vida profissional e que fazem parte da sua personalidade. Para provar - é só olhar o seu histórico. Ela foi a única mulher residente de Cirurgia-Geral de sua turma no Hospital das Clínicas de Ribeirão e, também, a única mulher residente em Cirurgia Plástica.
“Não poderia abraçar uma especialidade que me oferecesse poucas opções; poucas cirurgias. O universo é infinito e o horizonte - amplo; a Cirurgia Plástica me seduziu; uma viagem pela superfície do corpo humano; uma gama de procedimentos para restaurar e embelezar a forma. Apaixonei- me!”.
Novo capítulo
De volta à terra natal o desejo em construir a própria clínica tomava forma. As obras iniciaram em 1994; ela revela à Gente que a sensação era indescritível. Sentava-se do outro lado da calçada e observava a construção, sem acreditar nesta etapa que se iniciava em sua vida. “Eu ficava olhando no final do dia e pensando: ‘Será que vou dar conta disso? ’.
O sucesso verdadeiro nunca vem sem sacrifício; para edificar ‘seu cantinho’, foi necessário abrir mão de alguns bens. “Fiquei sem carro; recolhi os pregos que eles jogavam fora; discuti por causa de um monte de meios tijolos. Você só pode ter dois meios tijolos em uma obra - o resto é desperdício!”.
Após três anos de obra o sonho foi concretizado - a ‘Spazz e Forma’ era inaugurada. Este início foi marcado pelo apoio da família e dos poucos colaboradores, relembrados com carinho. “Eu tinha só uma secretária e uma moça que ajudava na faxina. Tenho de agradecer aos meus funcionários - desde a primeira, que foi a Neide - porque eles trabalham no mesmo ritmo que eu... E eu não trabalho pouco”.
No que diz respeito ao empenho, ao compromisso, ao esforço, à dedicação... Não existe meio termo; a satisfação neste trabalho é a transformação na vida dos pacientes. “Muitas pessoas chegam ao consultório, ansiosas e cheias de expectativas; infelizes com o seu aspecto - por vezes tristemente cansado. Depois de passar pelo procedimento, essa pessoa vai se transformando, curtindo a si própria. Na profissão de cirurgião isso é fantástico! A transformação vai além do corpo”.
Mas não é só nas palavras e cirurgias que ela encontra o seu conforto... O marido - Olivio Augusto Kenan - é compreensão, sabedoria e ponto de paz para a jornada diária que ambos compartilham. Também cirurgião, Kenan atua na clínica como Gastro Proctologista. Segundo ela, o casal soube caminhar lado a lado, sem nunca desencontrar os passos. “Meu marido é um homem maravilhoso; tem uma formação ótima; é muito informado e está sempre em busca de desafios. Então... Nós nos damos muito bem”.
Os almoços aos domingos - reunindo a família - também são valorizados por ela. “Irmãs, mãe e agregados... todos nos reunimos para bater um papinho”.
‘Viajar é viver’
Em Portugal - andou pelas ruas; observou as cerâmicas, as pinturas e a arte. Em Amsterdã - analisou a arquitetura e as curiosas casinhas estreitas e ‘tombadas’. Na Itália - trouxe uma bagagem de cultura, de música e de pequenos souvenires.
Quando ela diz que ama viajar... Pode acreditar! “Eu amo viajar; eu gosto de ver tudo - os lugares, o povo... De me sentar e ver como as pessoas se comportam; se for possível, me comunicar com o pessoal e saber como vivem”.
O que mais a atrai nas viagens é conhecer a história dos lugares onde passa - mesmo se for romanceada; cada canto tem uma vida e algo para contar. “Viajar é viver e aprender diferentes culturas. Você pode viajar de várias formas; você pode estar lá ou assistir a documentários, na televisão, no celular. Já viajei pelos livros que me transportavam - quando não podia fazê-lo de outra forma; e, continuam me transportando para diferentes lugares, em diversas épocas; mas, acho que nada substitui a sua presença ali”.
Márcia nos descreveu suas viagens de uma maneira tão sublime, que conseguimos nos transportar para seus destinos, mesmo nunca tendo vivenciado aquilo. “É um presente tão grande... Uma vivência... Nessa hora nós pensamos: ‘Que presente fantástico do criador’”.
Por falar em presente, quase no fim da entrevista, ela reitera: “Sou privilegiada em todos os sentidos”. Indagamos em quais... Márcia, então, respondeu que, por sua família, pelo seu companheiro, pelos amigos, pelos colaboradores e pela profissão - que a presenteia todos os dias, seja através da autoconfiança transformada por seu bisturi, ou todas as outras áreas da vida que a Cirurgia Plástica muda nas pessoas.
Conhecer Márcia Spazzapan é como ser um dos seus pacientes, que sai do consultório com uma nova perspectiva e esperança. A menina que saiu do interior de São Paulo, com os livros e a expectativa de um futuro melhor na mala, é hoje uma mulher de um feitio admirável e que a Gente tem o prazer de trazer a história para vocês. “Noites sem dormir? Inúmeras! Muitas orações? Várias! Muito estudo e programação? Sem dúvida! Nessa vida não é apenas o destino que rege; mas, também, as escolhas, as metas e o quanto queremos nos esforçar para tal... E o que eu mais tenho é determinação... Uma paixão extrema e muita gratidão” - finaliza.