Uma infância difícil, classe social baixa, oportunidades estreitas e circunstâncias tampouco fáceis... A história de Marciana Santiago - a jovem historiadora e professora que está na foto - é daquelas que vêm para sacudir nossas vidas e transformar conceitos em que cremos.
Aos 28 anos ela já é mestra, está terminando sua segunda graduação; foi coordenadora pedagógica, é professora da rede pública de educação e, há pouco mais de um ano, voltou à universidade em que se formou, mas como professora - hoje dá aulas na UFMS.
"Meus pais não são alfabetizados. Aliás, sou a primeira geração da família que conseguiu estudar. Então, qualquer pessoa que me visse, nas condições em que eu nasci e cresci, não apostaria que um dia eu iria me formar em alguma coisa - que dirá ser mestra".
Marciana já foi casada quando mais nova, e é mãe de Mario Augusto, de 10 anos. "Eu trabalhava como empregada doméstica para poder estudar e sustentar meu filho, mas ganhava pouco e não tinha tempo para me dedicar à faculdade. Aí chutei tudo. Consegui uma bolsa de estudos e parei de trabalhar. Não tive muito apoio porque eram R$ 400,00 para sustentar minha família. Mas foi um divisor de águas na minha vida” - afirma.
"Muitas pessoas me perguntam coisas relacionadas à questão de ser negra. Na graduação eu acho que foi mais o processo de aceitação, entender quem eu sou, o que eu sou. Me encontrar. No mestrado, eu vi que era a única negra da turma. Quase a única negra da UFGD. Uma sala de 60 alunos e só eu negra. Isso me chamou a atenção porque, de fato, esse processo excludente existe e vai aumentando de acordo com o nível educacional.”
Episódios de preconceito aconteceram - e acontecem - na vida dela, mas um, em especial, a marcou. "Uma vez, eu estava na sala dos professores e chegou uma mãe de uma aluna fazendo algumas perguntas sobre o livro didático. Eu logo vi que era sobre a disciplina de História, então fui conversando com ela. Quando ela perguntou quem eu era, respondi que era a professora. Ela disse: 'Ah, pensei que era a faxineira da escola'. Tinha outro professor junto; ela me viu no computador, sentada à mesa - o que a levou a pensar que eu era a faxineira da escola?".
Como a maioria das jovens negras e de cabelo cacheado ou crespo, Marciana fazia progressiva desde a adolescência.
Ela assume que era uma forma de buscar a aceitação, de se encaixar no que a sociedade caracteriza como “belo”. Mas, na Universidade, como relata, ela se encontrou.
Decidiu passar pela transição capilar, usar o cabelo natural, cacheado - e lindo - como usa hoje e se assumir como negra em todos os aspectos.
"Eu decidi esperar o cabelo crescer. Aí, um belo dia [entre risos] eu fui ao cabeleireiro sozinha e voltei com dois dedos de comprimento de cabelo. Meus familiares ainda disseram 'mas você vai ficar com cabelo de homem'. Eu nem ligava. Fui e cortei. E o engraçado é que eu me olhava no espelho e, apesar do cabelo curtíssimo, eu nunca tinha me sentido tão ‘eu’ em toda a minha vida".
Quando tocamos no assunto 'condições de vida', Marciana se emociona. Hoje ela pode proporcionar ao filho o que seus pais não puderam proporcionar a ela. Entre lágrimas, ela conclui: "Quando eu ia para a escola, pequenininha, em dias de chuva, meu pai colocava meus cadernos dentro de um saco de arroz para não molhar. Hoje, meu filho não precisa passar por isso".