“A curiosidade trata-se de um instinto, presente em qualquer espécie, que está relacionado ao querer estar informado sobre determinada situação como forma de proteção".
“A curiosidade trata-se de um instinto, presente em qualquer espécie, que está relacionado ao querer estar informado sobre determinada situação como forma de proteção".
A morte de Lázaro Barbosa nesta segunda-feira (28) foi bastante comentada por toda mídia, população e internet, chegando ao primeiro e segundo lugar nos assuntos mais comentados do Twitter. A alta cobertura de notícias, a divulgação de vídeos e imagens do assassino já morto também despertou um debate: porque temos tanto interesse na morte e em notícias trágicas?
Para responder a essa questão, a Gente traz esclarecimentos da psicóloga Juliana Fernandes que elucida o que pode levar o ser humano a desenvolver esta curiosidade mórbida. Para a profissional, essa questão não existe uma resposta única, existem diversas possibilidades que perpassam o comportamento individual e coletivo.
O primeiro motivo, na tentativa de explicar esse fenômeno, seria a curiosidade. “A curiosidade trata-se de um instinto, presente em qualquer espécie, que está relacionado ao querer estar informado sobre determinada situação como forma de proteção. Vemos uma multidão na rua e logo vem o desejo de saber o que ocorreu. É uma função mental de querer saber o que aconteceu, como aconteceu, quem foi o culpado e etc’, diz a psicóloga.
A proteção é outro fator apontado. Para ela, a divulgação de uma notícia, principalmente de perigo, tal como um acidente ou assassinato, cumpre a função social de tentar evitar que aquilo aconteça no futuro com outras pessoas. “Quando ocorre algo trágico, como por exemplo, um assassinato, um acidente; a busca por detalhes se destaca, pois cria a ilusão de que sabendo como aconteceu talvez se consiga evitar ou pelo menos prevenir que a mesma situação se repita”.
Contudo, muitas vezes não há limite na propagação de imagens – como os vídeos e fotos de Lázaro morto circulando na internet-, o que leva a psicóloga a abordar outro item, as redes sociais. “A facilidade com que se divulga uma informação e o acesso rápido a equipamentos eletrônicos que estão sempre à mão e sempre conectados impulsiona o comportamento de certos divulgadores de notícias. Noticiar pode ser uma forma de empatia com o sofrimento ou alegria alheia”, explica.
Existe ainda, na visão de Juliana Fernandes, o sentimento de alívio. Ela conta que por mais estranho que pareça, o ser humano tende a achar bom que a tragédia tenha acontecido com um desconhecido. “Quando temos acesso a informações ruins que aconteceram na vida de outras pessoas, automaticamente comparamos a todas as situações que estamos vivendo ou já vivemos, se esta situação é julgada como algo “pior”, de certa maneira traz alívio às nossas dores. A comparação feita é de que aquela pessoa está passando por situação pior do que a vivenciada.”.
E por fim, a psicóloga fala sobre o tabu da morte. “Os tabus chamam a atenção e despertam interesse. O proibido atrai a curiosidade, trata-se também de uma questão cultural. A cultura tem grande influência nos aspectos psicológicos da sociedade. O ser humano reflete o meio ao qual está inserido. É importante ter consciência de que, o que nos leva adiante, são nossas crenças e escolhas, somos feitos daquilo que absorvemos no dia a dia, seja positivo ou negativo, todo tipo de informação está ao nosso alcance, a escolha de acesso é pessoal e intransferível, quem opta por qual informação irá acessar e o que deseja absorver é de cada um”, diz.
Nem tudo é um mar de rosas
A psicóloga conclui dizendo que tanto a procura exagerada quanto a exposição a essas informações não são benéficas, no entanto, devemos ter consciência que coisas ruins também acontecem.
“A exposição a notícias ruins e tragédias podem desencadear transtorno de ansiedade, síndrome do pânico além de outros problemas psicológicos que necessitam de tratamento. É óbvio que a informação é importante, mas de forma sadia, mas tudo que é exagerado pode tornar-se uma obsessão, convém mencionar que todo exagero é ruim e prejudicial. Em clínica, quando necessário, oriento meus pacientes a evitarem determinados programas ou notícias”.
“Estamos expostos a todos os tipos de informações, boas ou ruins, o importante é como nos relacionamos com elas. O mundo não é somente um mar de rosas, devemos ter consciência que as coisas ruins acontecem. Sabendo disto valorizamos o que é bom. Buscar somente o bom também é prejudicial, como no caso da “Sindrome de Poliana”, que nada mais é do que uma fuga da realidade. O importante é sempre saber dosar”, finaliza.