Já houve um tempo em que não ter opiniões sobre os principais assuntos da humanidade, ou pelo menos de sua comunidade, era quase um crime. Quem não tinha posicionamentos era taxado de alienado e quem apenas não queria expô-los, era considerada uma pessoa em cima do muro. Gente, talvez, classificada como isentona e sem personalidade. Assim, os dotados de opiniões e conhecimentos, que se expunham, eram os influenciadores, os formadores de opinião.
Acadêmicos graduados, artistas articulados, pensadores teóricos, lideranças políticas e reli- giosas, exímios conhecedores técnicos em um ou vários assuntos. Já houve um tempo que estas eram as vozes que ocupavam as poucas mídias para formar opinião junto à maioria das massas silenciosas, para apresentar conceitos e saberes, receitas de modo de vida progressistas - ou não - para formular as verdades, apontar caminhos para a qualidade da existência e apostar na evolução das pessoas e da humanidade. Para, enfim, influenciar.
Já houve um tempo que os influenciadores eram um seleto grupo. A frase, que pode soar saudosista, é apenas para fazer a fotografia dos tempos atuais. E, nesta foto, as personalidades que encontramos como formadores de opinião posso ser eu, pode você ou qualquer pessoa que tenha um smartphone nas mãos e uma ideia tola ou não na cabeça. Nas voltas que o mundo deu, na democratização do acesso à tecnologia e na inserção das massas na produção da comunicação, distribuídas pelas redes sociais, o Brasil construiu o segundo maior contingente de formadores de opinião do mundo, hoje conhecidos como digital influencers.
Conforme apontam estudos da Nielsen/Hootsuit e We Are Social, são mais de 500 mil pessoas gerando o que chamam de conteúdo para pelo menos 10 mil expectadores, mesmo que este denominado conteúdo seja apenas uma dancinha sem nexo e com apelação ao sexo. Para a média de um mil expectadores, são mais de 13 milhões de influenciadores, o equivalente a 6% da população nacional que saiu da condição de ouvidos para a de fala, muitas vezes sem balizamento e checagem do que se diz e prega.
Ainda segundo o estudo, cerca de 44,3% dos usuários de redes sociais seguem influenciadores, número inferior apenas ao das Filipinas, onde 51,4% seguem os influencers. E todos estes dados são crescentes. Ao mesmo tempo em que cresce a massa de influenciadores sobre todo e qualquer assunto, cresce ainda mais a massa de seguidores, muitas vezes bombardeados com informações imprecisas, mentiras descaradas e muita propaganda político-ideológica, e mesmo comercial, embutidas nos conteúdos.
"SER INFLUENCER SE TORNOU O SONHO DE MUITOS JOVENS QUE VISLUMBRAM A VIDA DE VIAGENS, LUXO E FAMA QUE ESSAS PESSOAS DEMOSNTRAM TER"
GRANDES PODERES, GRANDES RESPONSABILIDADES
Mas isso não é bom? Democratizar a emissão de informações, conteúdos e opiniões, dar voz a quem nunca teria se os meios de comunicação tivessem permanecido acessível apenas a grandes empresas nacionais e internacionais não é um caminho esperado e correto?
É preciso cuidado. A psicóloga Janaína Catolino considera a questão “um tanto quanto delicada e até mesmo perigosa”. Para ela, o fenômeno quase sempre vem associado à publicidade. “Contratar influenciadores para falar de seus produtos foi uma maneira estratégica que as empresas e pessoas encontraram de moldar os pensamentos, comportamentos e sentimentos das pessoas sem que elas percebam ou tenham consciência disso. O maior perigo é a perda do senso crítico, do consumismo desenfreado e da ilusão de corpos e vidas irreais”, explica.
Ela pondera que, na maioria das vezes, aquilo que é demonstrado não é real, seja produto, corpo, estilo de vida e relacionamento ou ideias. “O influencer continua sendo uma pessoa como qualquer outra, com problemas na vida pessoal, familiar e profissional, porém, só mostram aquilo que é bonito e que, consequentemente, atraia vendas e números”. Seguir gente que não sabe direito sobre o que fala, ou que faz qualquer coisa para ganhar seguidores e likes e que se investe de um poder descontrolado e sem regramento pode provocar mais desconhecimento sobre o assunto, criar preconceitos e distorções sobre a realidade tanto pessoal quanto social. Pode representar riscos reais à saúde e segurança, prejuízos financeiros, fobias. Pode arregimentar para ações criminosas ou violentas contra a sociedade, auxiliar a formação de milícias políticas e até mesmo promover barbáries que colocam a segurança de um país em risco.
Os estudiosos reforçam que seguir, cegamente, pessoas despreparadas ou sem responsabilidades, pode facilitar golpes financeiros, contatos para relacionamentos presenciais que desembocam em violências e construção de sentidos perigosos, até mesmo para a sociedade como um todo, haja vista movimentos de renascimento e organização de cunho neofascistas, cheios de ódio, por exemplo.
Além disso, Janaína alerta para o fato de que ser influenciador passou a ser o ideal de vida de muitas pessoas, principalmente crianças e jovens. “Ser influencer se tornou o sonho de muitos jovens que vislumbram a vida de viagens, luxo e fama que essas pessoas demonstram ter, o que faz com que diminua o desejo de uma profissão estável, com cursos e estudos, pois a aparente facilidade de conquistas e fama se torna mais atrativa e imediata”, opina a psicóloga. Ao comparar nossas vidas com a deles, ainda podemos amargar frustrações, construir baixa autoestima e sentimentos de fracasso.
Porém, é de se levar em conta que a excessiva exposição também tem custos para os próprios influencers, muitas vezes massacrados por haters ou, simplesmente, por terem suas vidas privadas tratadas como coisa pública ao ponto de provocarem crises pessoais e familiares, afetando até mesmo a saúde mental e física, sobretudo diante do medo de ser cancelado, ou seja, de deixar de ser seguido.
Mas, como o internauta pode se proteger de tantas influências, nem sempre positivas? "Praticar e exercer o próprio senso crítico, diariamente, se questionando quanto à necessidade - dos conteúdos que consome - e à veracidade do que está sendo vendido. Saber que muitas coisas não são reais, ter consciência da sua própria realidade e não se comparar com ninguém”, recomenda Janaína Catolino.
Ou seja, se os produtores de conteúdo podem não estar filtrando o que falam e pregam, o público precisa criar estes filtros, para não ser influenciado por vozes tolas que um dia saltaram das conversas descompromissadas de boteco para as redes sociais, como se fossem verdades universais e inquestionáveis.
A MASSA QUER ENTRETENIMENTO?
O filósofo francês Jean Baudrillard escreveu, na década de 70, quando o fenômeno da Internet e das redes sociais sequer existia, que as massas não querem coisas que façam sentido, que não estão abertas à comunicação racional, mas sim àquela que provoque deleite, que tenha caráter de entretenimento e até mesmo a explícita ideia de distorcer o sentido lógico das coisas. Na visão de Baudrillard, no livro À Sombra das Maiorias Silenciosas, de nada adianta informar melhor, socializar melhor ou tentar elevar o nível cultural das massas. Para ele, isso é uma bobagem, pois elas resistem escandalosamente a esse imperativo da comunicação racional. O que elas querem é espetáculo. Nenhuma força pode convertê-las à seriedade dos conteúdos, elas idolatram os estereótipos, amam todos os conteúdos desde que eles se transformem numa sequência espetacular.
Certa ou não, a questão posta por Baudrillard deve ser considerada pelo menos para reflexão diante do crescente número de comunicadores nitidamente boçais, mal intencionados e manipuladores e do crescente sucesso que fazem no Brasil. No mais, se a gente gosta de entretenimento, que tenha consciência de que é isso que estamos consumindo, para rir e se distrair. Não para ser influenciado nas decisões, pensamentos e ações que afetam a vida real.
Enquanto existem influenciadores sem embasamento, querendo influenciar padrões de consumo e ideias político-filosóficos, existem aqueles que apenas querem passar seus conhecimentos e opiniões para efetivamente oferecer melhor qualidade de vida para sua audiência.
"FORMADORES DE OPINIÃO POSSO SER EU, PODE VOCÊ OU QUALQUER PESSOA QUE TENHA UM SMARTPHONE NAS MÃOS E UMA IDEIA TOLA OU NÃO NA CABEÇA."
Maria Amélia Mendes, uma professora estadual de Inocência, interior do Mato Grosso do Sul, começou a fazer postagens de produção de artesanato, no estilo faça você mesmo, de forma despretensiosa e como uma terapia para as dificuldades de saúde que passava. Foi angariando seguidores. Hoje, com a proposta de ensinar como as pessoas podem ganhar um dinheiro extra, usando reaproveitamento de materiais e coisas simples para fazer artesanato, soma quase um milhão de inscritos no seu canal no YouTube. O sucesso de Maria Amélia repercute ainda no Instagram, une a família na produção dos vídeos e, de fato, apresenta uma alternativa fácil e barata de aumentar a renda do público que se inspira em seus métodos e topa por a mão na massa. Como seu conteúdo é praticamente técnico, ela enfrenta poucas polêmicas e chega a ultrapassar um milhão de visualizações em vídeos de DIY - faça você mesmo. Sua influência é ajudar e pouco expõe da sua vida pessoal.
Bárbara Alves Carvalho, 25 anos, é farmacêutica e começou a criar conteúdo sobre fotografia, chegando a viralizar em uma ocasião. Após sua gravidez, em 2022, nichou as publicações na maternidade com humor, mostrando os perrengues da vida de mãe. Soma 14.300 seguidores.
“Eu me considero influenciadora. Já me considerava com poucos seguidores e a influência se torna cada dia melhor e maior. Por fim, acho que meu Instagram sempre ajuda outras mães, de forma positiva. Mesmo tendo humor, meus destaques influenciam muito”. Ela avalia que a conexão com seus seguidores se dá também pelo respeito. “Tenho um posicionamento e sigo nele até o final, sempre fui muito verdadeira com meu público. Tenho absoluta certeza que foi isso que me levou a estar onde estou hoje”, afirma.
Com atuação em vídeos sobre moda, beleza, dia-a-dia, cuidados e autoestima, Gabriela Oliveira, de 25 anos, também é um sucesso como Influencer e empresária no ramo de cosméticos, sendo seguida por quase 40 mil pessoas. Ela começou fazendo fotos para o Facebook e procurou cursos e aulas de oratória quando decidiu se profissionalizar nas redes sociais. “Nisso fui criando um vínculo com quem assistia e foi se tornando o blog da Gabi”, conta ela.
Gabi também se diz preocupada em moderar os conteúdos, porque muitas crianças acabam assistindo aos seus vídeos. “Não tenho medo de ser cancelada, mas filtro muito o que posto, tenho um público infantil muito grande que se inspira em mim, mesmo sem apostar no nicho infantil. Tirei alguns quadros do ar justamente em respeito às mães que deixam as crianças assistirem e continuo me policiando em palavras e atitudes porque, a partir do momento que você se torna exemplo para alguém, você precisa ter uma boa postura. Mas sem perder a identidade”, diz.
Outro fenômeno local das redes sociais é a estudante Isabelle Caroline Silva, 23 anos, que acumula 85 mil seguidores no Instagram e a estrondosa marca de 668 mil, no TikTok. Seu perfil fala sobre o próprio cotidiano e o dia-a-dia universitário. Ela conta que começou fazendo vídeos para os amigos, acabou viralizando e mudando seu relacionamento com as redes. De certa forma, se considera influenciadora dessa massa de expectadores. “Por mais que esse não tenha sido meu intuito no começo, tudo acabou tomando uma proporção grande e, hoje, sei da responsabilidade que preciso ter nas redes sociais, visto que abarca muitas pessoas”.
Embora seu conteúdo seja mais de cunho pessoal, ela acredita que ajuda as pessoas. ‘’Recebo muitas mensagens das pessoas falando o quanto meus vídeos ajudam a distrair em momentos de ansiedade, de tristeza. Também já recebi muitas histórias lindas, de pessoas com entes queridos passando por situações delicadas, como a descoberta de um câncer, que me acompanham e viram toda a luta com a minha mãe e a cura dela, que se dizem motivadas e esperançosas através da nossa história, isso significa muito pra mim”. Significa muito para o público também, quando o conteúdo tem sentido, visa prestar serviços e é feito com responsabilidade. Mesmo que o internauta procure entretenimento, se este tiver qualidade, a influência será sempre positiva. Ou seja, é possível ser famoso e relevante com qualidade, aproveitando que, nestes tempos, todos têm a oportunidade de ser comunicador, de sair do anonimato e expressar o que julga necessário.
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