Vamos falar de situações que beiram a ilegalidade, ao crime, mas que envolvem um forte laço de amizade, de consideração real com as pessoas envolvidas. São histórias que acontecem frequentemente e que trazem muitos problemas tanto pela ação como pela inação em relação às vítimas.
O primeiro caso que relataremos: Carolina *, 27 anos, uma pessoa alegre que vive rodeada de amigas de infância. Final de semana é sinônimo de festa e dias em que sua casa recebe essas amigas para os preparativos: maquiagem, escolha de looks...
Em uma sexta-feira como outras, as amigas chegaram em sua casa e começaram a se arrumar. Carolina havia notado que a cada semana faltava um produto de sua maleta de maquiagem: lápis de olho, batom, delineador, esmalte de unhas, cílios postiços. Sem querer, Carolina procurou seu rímel preferido e ninguém o encontrou. Perguntou e nada, ninguém viu, ninguém sabia de nada.
Pronto: situação constrangedora. E agora?
Estamos pensando em resolver as situações constrangedoras por se tratarem de pessoas conhecidas, amigas de longa data, sem o envolvimento da justiça.
A psicologia estuda o comportamento humano em diversas situações, incluindo aquelas relacionadas a pequenos furtos. Existem várias teorias e abordagens que tentam explicar por que algumas pessoas se envolvem em pequenos furtos.
Uma das teorias mais conhecidas é a teoria da anomia, que sugere que as pessoas cometem pequenos furtos quando se sentem desconectadas da sociedade e das normas sociais. De acordo com essa teoria, as pessoas que se sentem isoladas, desvalorizadas ou incapazes de alcançar seus objetivos podem recorrer ao roubo como uma forma de atender suas necessidades.
Outra teoria que pode ajudar a explicar os pequenos furtos é a teoria da aprendizagem social, que sugere que as pessoas aprendem comportamentos observando outras pessoas ao seu redor. Isso significa que, se uma pessoa cresceu em um ambiente onde o roubo era comum, ela pode ter aprendido essa prática como uma forma de resolver problemas ou atender às suas necessidades. A psicologia também estuda os fatores individuais que podem contribuir para o comportamento de roubo. Por exemplo, a impulsividade, a falta de autocontrole e a baixa autoestima são fatores que podem aumentar a probabilidade de uma pessoa cometer um pequeno furto.
"CAROLINA HAVIA NOTADO QUE A CADA SEMANA FALTAVA UM PRODUTO DE SUA MALETA DE MAQUIAGEM”.
No geral, a psicologia reconhece que os pequenos furtos são um comportamento desviante e que pode ser prejudicial para o indivíduo e para a sociedade. É importante buscar tratamento psicológico caso você ou alguém próximo tenha dificuldades em controlar esse comportamento e precise de ajuda para lidar com as causas subjacentes.
Carolina preferiu não falar nada, pois acabaria acusando alguma de suas amigas de furto ou criaria um clima de desconfiança entre elas. Mas os encontros não foram mais os mesmos até um dia minguarem de vez. As festas continuaram, mas a alegria e os risos dessa turma ficaram raros.
A psicóloga Cristina Simone, 63 anos, que atende em uma clínica na zona sul de São Paulo há 35 anos, pode nos orientar sobre esses casos. Ela conta que seria melhor uma conversa entre as amigas, a fim de propor ajuda a quem estava praticando esses furtos, pois talvez quisesse chamar a atenção ou estivesse passando por algum momento difícil e isso explicaria suas atitudes, evitando inclusive o distanciamento delas e uma eterna desconfiança.
O QUE DIZER PARA UMA CRIANÇA?
O nosso segundo caso: Joana era uma menina de 7 anos, aluna de escola particular, filha de pais comerciantes bem sucedidos financeiramente. Todos os dias, a garota furtava da colega Alice, da mesma idade, seus lápis, adesivos de caderno, canetinhas coloridas.
A mãe de Alice procurou a coordenação do colégio. A mãe de Joana foi chamada para uma conversa. Outra situação constrangedora: duas crianças sendo expostas a um problema de comportamento bastante complicado. Como podemos contornar essa situação sem causar mais distúrbios? Como está Joana vinte e cinco anos depois?
Psicólogos afirmam que pequenos furtos na infância podem ser um sinal de comportamento problemático ou de falta de orientação e de limites por parte dos pais ou responsáveis. Esses comportamentos também podem estar relacionados à busca por atenção, à necessidade de se sentir importante ou a problemas emocionais e familiares não resolvidos.
É importante que os pais ou responsáveis conversem com a criança sobre a gravidade do ato e os impactos que isso pode ter em outras pessoas e na sua própria vida. Além disso, é essencial que sejam estabelecidas regras claras e limites para evitar que esse comportamento se repita. Se o problema persistir, é recomendado buscar ajuda profissional para entender as causas subjacentes ao comportamento e encontrar formas de tratá-lo.
Os pequenos furtos podem ser entendidos de várias maneiras, dependendo da perspectiva adotada. Aqui estão algumas possíveis formas de entender esse comportamento:
O comportamento de furtar pode estar relacionado a vários fatores psicológicos, como impulsividade, dificuldade em controlar impulsos, baixa autoestima, problemas emocionais ou transtornos mentais como a cleptomania. Nesse sentido, entender os pequenos furtos pode envolver a compreensão desses fatores subjacentes que podem estar influenciando o comportamento.
A prática de pequenos furtos também pode estar relacionada a fatores sociais, como pobreza, exclusão social, falta de oportunidades econômicas ou mesmo uma cultura de “jeitinho” ou de desrespeito às leis. Nesse sentido, compreender os pequenos furtos pode exigir uma análise mais ampla do contexto social em que eles ocorrem.
Os pequenos furtos são considerados crimes e podem resultar em consequências legais, como multas, reparações, serviços comunitários ou até mesmo prisão. Nesse sentido, entender os pequenos furtos pode envolver a compreensão das leis e dos mecanismos de punição que buscam coibir esse tipo de comportamento.
Esse entendimento pode envolver uma análise multidisciplinar que leva em conta fatores psicológicos, sociais e legais. É importante abordar esse comportamento com empatia, respeito e um desejo de entender e ajudar a pessoa envolvida, ao mesmo tempo em que se busca garantir a segurança e a justiça para todos os envolvidos.
AGORA O ASSUNTO É ASSÉDIO
E quando a questão envolve assédio em ambiente de trabalho? Aqui temos uma história contada pela empresária na área de cosméticos, Maria Helena, 57 anos. Por tratar-se de uma empresa de família, os colaboradores também são conhecidos há bastante tempo. Nunca se soube de um caso de denúncia de assédio, inclusive sexual. Ou melhor, nunca ninguém havia colocado esse problema sobre a mesa de Maria Helena, mas aconteceu.
Lúcia, 28 anos, noiva e prestes a se casar, funcionária há dez anos na empresa, entrou chorando na sala da empresária dizendo ter sido assediada por um colega de trabalho. Em detalhes, relatou tudo sem parar de soluçar: ele a convidou para sair para uma “despedida de solteira” e como ela não aceitou, ele insistiu mais algumas
"AS FESTAS CONTINUARAM, MAS A ALEGRIA E OS RISOS DESSA TURMA FICARAM RAROS”.
vezes com insinuações sexuais, que iam desde olhares até palavras ousadas.
Primeira opção: demissão e denúncia judicial. Porém um obstáculo: o assediador mora ao lado da empresa e trabalha há 22 anos, sendo responsável por um setor importante da produção dos cosméticos. E é casado, tem dois filhos pré-adolescentes e a mulher está grávida de gêmeos, que nascerão em seis ou oito semanas. Mais complicadores: seus filhos brincam com os filhos dos empresários.
Claro que Maria Helena perdeu o sono e o bom humor deu lugar à tristeza. Como tomar as providências na hora correta? Como não notou antes algum comportamento diferente? O que falar nessa situação?
Qual foi o desfecho que Maria Helena deu a esse caso? Primeiro conversou com o funcionário, explicou em detalhes o que ouviu e pediu que ele se defendesse. Ele começou a chorar e mostrou-se arrependido, sem negar o fato. A empresária pediu que ele se demitisse, pedisse desculpas à vítima, contasse tudo para sua mulher e procurasse ajuda psicológica, pois acompanharia de perto os seus passos. Tudo foi feito por parte do assediador.
A vítima se deu por satisfeita, pois foi ouvida e sentiu-se justiçada. A situação encaminhou-se dessa forma. Maria Helena mostrou-se bastante pensativa ao comentar o caso, pois não sabe se agiu corretamente, se deveria ir à delegacia registrar um boletim de ocorrência.
Mas, Otávio, 48 anos, engenheiro de produção, ao ouvir a filha de 14 anos contar-lhe um assédio moral que sofreu de um professor, seu amigo de outros tempos, não pensou duas vezes: denunciou-o à justiça. Nesse caso não houve tentativa de contato por parte do pai, principalmente por se tratar de uma jovem inexperiente e a situação ser constrangedora por ter acontecido na frente de seus colegas de sala.
O professor foi demitido sumariamente e os seus colegas de trabalho souberam da história, que foi uma desagradável surpresa para todos, uma vez que suas duas filhas também estudam no colégio onde o pai trabalhava. Imaginamos a decepção das adolescentes em saber do caso em que se envolveu o seu pai e uma aluna de idade próxima a delas. As situações constrangedoras se avolumam na vida das pessoas. Para cada momento, temos reações diferentes, pois envolvem pessoas e fatos distintos. O que fazer sem ser impulsivo ou apático diante desses cenários? Há uma única resposta ou um único caminho para resolvermos os problemas?
COMO LIDAR COM ESSAS SITUAÇÕES
Se você se sentir confortável, pode abordar a pessoa diretamente e dizer que suas ações ou palavras são inapropriadas e devem parar imediatamente.
Compartilhe o que aconteceu com alguém em quem você confia, como um amigo, membro da família ou colega de trabalho. Isso pode ajudá-lo a obter apoio emocional e a decidir como lidar com a situação.
Se o assédio estiver ocorrendo no local de trabalho, é importante que você relate isso ao seu supervisor ou ao departamento de recursos humanos. Eles têm a responsabilidade de investigar e tomar medidas adequadas para protegê-lo. Mantenha um registro detalhado de todas as interações ou incidentes que você considera assédio. Anote a data, hora, local e o que foi dito ou feito. Se houver testemunhas, registre seus nomes e informações de contato.
Procure ajuda profissional: se você estiver lutando para lidar com o assédio, procure ajuda profissional, como um psicólogo ou assistente social. Eles podem ajudar a lidar com o trauma e as emoções negativas relacionadas ao assédio.
É importante lembrar que você não tem que lidar com o assédio sozinho. Há muitas pessoas e organizações que podem ajudar a proteger você e ajudá-lo a tomar medidas contra o comportamento abusivo.
Se o assédio for uma forma de abuso ou violência, considere denunciar à polícia. Eles podem tomar medidas legais para garantir sua segurança.
*As identidades foram preservadas por questão de sigilo e respeito aos entrevistados, inclusive por se tratarem de situações embaraçosas.
"PESSOAS APRENDEM COMPORTAMENTOS OBSERVANDO OUTRAS PESSOAS AO SEU REDOR”.
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