Entrevista

Quando a dor da perda demora, mas aparece

Não viver o luto no momento da perda traz o risco de se viver por mais tempo no luto.

Rara Gente
25/05/23 às 19h00

No furor da pandemia da Covid-19, muitas pessoas mal tiveram a chance de viver o luto pelos entes perdidos. Muitos estavam lutando pela própria sobrevivência financeira, às vezes contaminada também ou estavam focadas na cura de outros parentes internados. A impossibilidade de ir a cerimônias fúnebres também criaram um falso afastamento da perda e, em consequência, uma sensação de não esgotar o luto, como normalmente o vivemos, em outras condições. A má notícia é que, diante das condições pandêmicas, inúmeras pessoas estão vivendo processos de luto tardio, ou seja, começaram, mais recentemente, a sentir os impactos das perdas ocorridas no ápice da crise sanitária. É como se a ficha dolorosa estivesse caindo agora.

O sentimento de luto foi e continua sendo alvo de muitos estudos científicos. Entre eles, um resultou na definição de que o luto é composto por estágios: negação, raiva, barganha, depressão e, enfim, aceitação. Não existe necessariamente uma ordem entre os estágios, nem todas as pessoas passam por todas as fases. Porém, a psicologia explica que alcançar a aceitação - com o abrandamento da dor - é um processo.

“O chamado luto tardio é visto como uma consequência do luto ausente e acontece quando o enlutado não vivencia a dor da perda logo após a morte do ente querido ou a perda de algo. Isso tende a ocorrer quando o indivíduo passa por outras situações delicadas no mesmo momento e acaba ocultando o processo de luto”, explica a psicóloga Rosimeire Cardoso de Oliveira Chaves. Este não é um fenômeno exclusivo da pandemia, pode ocorrer a qualquer momento, com qualquer um. Mas, devido ao volume das tensões, medos e mortes do período, formou-se um cenário propício para casos de luto tardio.

Segundo Rosimeire, normalmente, cada pessoa sente e processa o luto de forma única, o que indica que não existe um tempo certo de duração ou padrões. O conceito de ‘luto’ está naturalmente associado ao processo posterior à morte de um ente querido. Mas também pode aparecer perante o término de uma relação amorosa, a perda de um membro do corpo, a uma ruína financeira, ou seja, ele pode estar relacionado também a fim de ciclos ou rompimentos de outras naturezas. Todas estas situações são exemplos de perdas pelas quais o indivíduo passa ao longo da sua vida e, obviamente, eles necessitam de tempo para ultrapassar esta fase.

"PARA AMADURECER E SUPERAR A DOR, É PRECISO QUE SE BUSQUE UMA REDE DE APOIO FAMILIAR, SOCIAL E PROFISSIONAL"

"SE NÃO VIVERMOS O LUTO ATÉ O FIM, A GENTE NÃO ELABORA, E IMPEDE QUE O PROCESSO SE ENCERRE”.

A psicóloga ensina que viver o luto significa aceitar a dor e a realidade da perda, vivenciar esta dor com tudo o que ela representa, adaptar-se ao ambiente sem o outro - ou sem aquilo que se perdeu, para então prosseguir com a vida. “O melhor é se permitir passar pelo processo de transformação gerado por esse ‘adeus’, que vai nos preparar para os caminhos que podem surgir no futuro. Se não vivermos o luto até o fim, a gente não elabora, e impede que o processo se encerre”.

Neste contexto, ela avalia que o luto tardio pode ser mais difícil de se superar. “Pode se tornar mais difícil pelas condições relacionais, emocionais, sociais, culturais e psíquicas que podem influenciar no processo de luto tardio de cada indivíduo, intensificando seu grau de impacto. Os sentimentos de negação, raiva e culpa são naturais, mas superá-los também é. Então, a dica é ficar de olho tanto no tempo que esses sentimentos e sintomas adversos duram, como no quanto eles estão atrapalhando sua rotina e qualidade de vida”, recomenda.

FATORES

Rosimeire também sugere atenção aos fatores que, normalmente, podem provocar o estado de luto tardio, como não participar dos rituais de despedida, não querer ou não conseguir desapegar de objetos daqueles que faleceram e não respeitar os próprios momentos de solidão. Segundo alguns autores, outros fatores que levam a viver o luto tardio são a Identidade e o papel da pessoa perdida, quanto mais o enlutado dependeu desta; a idade e o sexo da pessoa enlutada; circunstâncias da perda e circunstância sociais e psicológicas da pessoa enlutada para lidar com situações estressantes e para estabelecer relações amorosas. “Estas condições parecem ser as que exercem mais influência na forma como cada sujeito vivencia o processo de luto”, afirma.

No entanto, vivenciar o luto não é processo simples nem indolor. Ele tem impactos indiscutíveis e subjetivos na saúde mental. O desequilíbrio emocional, presente em todas as fases do processo de luto, permeia todo o organismo. “Os efeitos atingem corpo e mente. Os mais comuns são sentimentos confusos, crises constantes de choro, falta de rotina, sensação de fragilidade, insônia, fadiga extrema, sensação de que a dor não vai passar nunca, entre ouros”.

Para ela, é necessário que pessoas próximas e a própria enlutada estejam atentas ao tempo que esses impactos demoram para chegar à fase da aceitação. “Nesse momento, a pessoa aprende a conviver com a saudade e volta a ter qualidade de vida”. Caso isso não aconteça, também é necessária atenção para entender se está se formando um quadro depressivo, pois ambos sentimentos podem ser confundidos. “Os sintomas são semelhantes aos da depressão e da ansiedade. A diferença com os transtornos está no fator motivador para o sofrimento. No luto, a perda é o gatilho do problema”.

Para amadurecer e superar a dor, Rosimeire recomenda que se busque uma rede de apoio familiar e social e até mesmo religiosa, e também terapia, onde se possa expressar sentimentos sem julgamentos e cobranças. “O psicólogo vai acolher essa dor emocional e irá ajudar o paciente a chegar a um caminho de aceitação, assim na medida em que ajuda a pessoa enlutada a lidar ou encarar a perda de forma adaptativa e ajustada, promove-se uma reorganização das crenças acerca de si mesmo e do mundo. "Acima de tudo, é preciso viver o luto para não viver de luto”, conclui. 

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