Entrevista

Os impactos dos novos hábitos alimentares no agronegócio

Sthephanie Gobato desmistifica pontos que ainda são amplamente divulgados sobre o agronegócio brasileiro

Daniela Galli
17/11/22 às 08h00

Sthephanie Ferreira Gobato tem 29 anos, é engenheira agrônoma e concentrou seus estudos na área de produção animal. Fez isso para que pudesse atuar desta forma assim que terminasse a faculdade. E conseguiu. Trabalhou com a capacitação e assistência técnica para produtores rurais, com pecuária sustentável, tem uma empresa de assessoria nesta área e é vice-presidente do Sindicato Rural de Três Lagoas.

Nesta entrevista ela desmistifica muita coisa que ainda é amplamente divulgada sobre o agronegócio brasileiro e também explica como este setor tem reagido e evoluído devido às pressões que a sociedade em geral exerce sobre ele.

RARA GENTE: Há um movimento que nos convida a repensar os nossos hábitos alimentares, correntes como o veganismo e o vegetarianismo estão cada vez mais fortes e com mais adesões. Isso impacta em que no agronegócio?

STHEPHANIE: Essa reavaliação de hábitos não só alimentares, mas outras coisas que a gente pratica no dia a dia é válida, e é ela quem faz o movimento para que o mundo realmente mude. Algumas coisas que hoje parecem impensáveis que a gente faça, daqui há alguns anos, todo mundo vai fazer e vai ver que era mais do que o caminho a ser seguido. Com relação ao impacto diretamente no setor, a gente pode sentir em uma ou outra atividade, mas tudo o que consumimos vem do setor agropecuário, de alguma maneira. Não só o que a gente consome como alimento, mas roupa, combustível como o etanol, tudo vem da cadeia agropecuária. E é importante, porque a pressão que temos do nosso consumidor final é o que faz com que a gente mude o processo produtivo dentro da porteira.

E não só os brasileiros ajudam desenvolver melhor o sistema, mas também os outros países para onde exportamos, como exemplo a União Europeia. 

RG: Nenhuma das áreas que compõem o agronegócio fica em desequilíbrio então?

SG: Não necessariamente. O impacto que a gente tem, por exemplo, da mudança de hábitos alimentares hoje no país, o que mais a gente vê está ligado a nichos de produção. Como por exemplo a questão dos orgânicos, dos produtos que não vêm de origem animal, tudo isso é um tipo de nicho que com o tempo pode vir a escalonar e aí atingir todas as pessoas. Como a gente está falando de comida, temos que lembrar que estamos falando também de colocar comida na mesa daqueles que estão em situação menos favorecida. A gente produz comida para essas pessoas. Alguns produtores conseguem encontrar um nicho de mercado, como os orgânicos que está ótimo mas que acaba tendo um custo elevado de produção e a gente acaba não conseguindo atingir essas pessoas que estão nesta situação que eu comentei. Mas o mais importante de tudo é trazer luz, discussão, dados e principalmente a prática de como funciona a produção para basear e fundamentar os argumentos do porquê. O ser humano é livre para suas escolhas, agora precisamos discutir mais o que o leva a fazer esta opção. São muitas discussões para a gente entender. 

RG: E que discussões seriam estas?

SG: A dos orgânicos. As pessoas enxergam que há como fazer uma comida sem agrotóxicos, então por que isso não é feito? O agrotóxico é um insumo que encarece a produção do produtor rural lá na ponta. Ele não quer usar, mas o nosso clima tropical que ao mesmo tempo favorece a gente em quesitos de produtividade, é muito propício ao surgimento de pragas nas lavouras, que levam dias para estragar toda uma produção. Então, existe um protocolo de prevenção e combate a estas pragas e doenças que hoje é feito e que não é algo que a gente escolhe, é o que temos que fazer para produzir em larga escala, para que o produto chegue com um preço mais acessível ao consumidor final, lá na outra ponta. Os orgânicos são produzidos de uma forma que faz com que o alimento chegue mais caro na mesa do consumidor, e este é um alimento que o brasileiro não vai conseguir comprar tão cedo.

RG: O que precisa acontecer para mudar isso?

SG: A pesquisa vem melhorando, fazendo com que cada vez mais as moléculas sejam mais eficientes, o uso eficiente de agrotóxicos precisa ser melhorado, a prática de como se aplica estes defensivos também, para que cada vez mais a gente consiga trabalhar com produtos biológicos que não são moléculas químicas e que apresentam baixo risco para a saúde. Ao mesmo tempo, quando a gente faz as análises dos produtos que vão para a mesa do brasileiro, com relação aos índices de contaminação, eles são muito baixos. O que acontece muito é a aplicação de defensivos direto pelo trabalhador lá no campo e isso pode levá-lo a ter algum tipo de doença, por isso ela tem que mudar. O uso de EPIs - Equipamentos de Proteção Individual - também precisa ser melhorado cada vez mais.  A gente vê sobre a aprovação das moléculas, às vezes vemos as leis sobre uso de defensivo, temos que estudar bastante para entender se aquela lei é para melhorar a eficiência da molécula para usar menos insumo do que achar que está aumentando o uso de defensivos, mas na verdade não está. Quando você divide o quanto o Brasil usa de defensivos por produção você vê que é um número muito menor em relação a outros países.

RG: Estas pesquisas fazem parte da evolução natural de qualquer área de atuação. Quais outras exigências o mercado faz ou fez para esse setor que fizeram com que vocês repensassem as condutas de vocês?

SG: São três pautas que o consumidor da carne como um todo critíca: o desmatamento, o aquecimento global ligado aos gases de efeito estufa e a questão do bem-estar animal.  As pessoas se assustam, mas ainda é permitido por lei fazer desmatamento no Brasil. Não é por que uma área foi desmatada que aquilo foi um crime.  É preciso desmatar para produzir alimentos? Não. O que temos visto é que tem aumentado a produtividade. Na mesma área é possível produzir muito mais do que é feito hoje em dia e essa é uma iniciativa que tem sido incentivada. Hoje em dia pelo menos 20% da área deve ser preservada; fauna e flora devem permanecer intactas. Na Amazônia essa porcentagem sobe para 80%.  E isso nem todos sabem. É claro que nem todo mundo segue isso, mas é preciso combater o desmatamento feito de forma ilegal sem a autorização dos órgãos responsáveis.

Os gases que favorecem o aquecimento global são: gás carbônico, óxido nitroso e metano, sendo este último emitido pelo processo digestivo do ruminante. Existe uma liberação de metano grande pela pecuária, mas ao mesmo tempo o que não se discute é que há uma captação do carbono também pela pecuária. Os três gases são tratados como uma unidade chamada de carbono equivalente. Dentro da produção pecuária nós conseguimos chegar em sistemas que são neutros ou compensatórios. A carne carbono neutro, produzida pela Embrapa, é feita dentro de um local onde há a plantação de eucalipto. As árvores em crescimento conseguiram compensar toda a emissão de carbono pelos bois. Essa carne não emitiu carbono para a atmosfera. O que tem sido estudado hoje em dia é a absorção feita pela pastagem, mas para isso ela não pode estar degradada. 

RG: Sobre o bem-estar animal, é possível dizer que as práticas estão mais humanizadas?

SG: Isso é o que a gente queria muito mudar no setor. Eu acho que o consumidor só vai conseguir olhar para a gente com um olhar que busca compreensão, quando ele conseguir entender que aquela carne que ele está no açougue passou por um processo de produção. A agropecuária hoje em dia é muito familiar, mas nas médias propriedades há várias gerações de família que trabalham.

O sistema de produção da pecuária é responsável pela venda do boi até o embarque, depois disso ele é de responsabilidade da segunda parte da cadeia que é o frigorífico. Mas hoje em dia, ainda mais por causa dessa pressão que lida a pecuária às questões ambientais, temos visto um movimento para que todos saibam de onde vem aquela carne e em quais condições ela foi produzida. Na feira a gente vê quem plantou aquele alimento, mas em larga escala não. Porém isso tem mudado.

Alguns vídeos que recebemos, que mostram sofrimento animal não foram feitos no Brasil. A população deve lembrar de ver como é o sistema brasileiro. Um animal maltratado não produz carne e nem leite.

RG: Como nós enquanto consumidores finais podemos ajudar este setor? Como ir além do açougue?

SG: Eu acho que o consumidor brasileiro deve se sentir orgulhoso pois vem de um país cujo sistemas de produção de alimento evoluíram muito nos últimos anos. Consultar a Embrapa é uma boa opção para saber sobre isso, pois é a nossa empresa de pesquisa agropecuária. Conversar também é fundamental. Incorpore para você que todos fazem parte de uma potência enorme de produção agropecuária. Você deve se orgulhar mas é preciso saber mais sobre a forma como aquilo pode melhorar. A pressão do fornecedor direto vai impactar no produtor, como tem acontecido, por exemplo, na região norte. Os maiores frigoríficos da região adotaram um protocolo de análise de critério sócio ambientais em que eles só vão comprar de produtores que cumprem os requisitos ambientais. Este é o primeiro ponto.

O segundo são as escolhas que você faz dentro do supermercado. Quando você começa a olhar e analisar as etiquetas nas embalagens, você consome mais informações de quem fala sobre o setor e não contra ele. As porteiras estão longe da cidade então temos feito a nossa parte para que as informações cheguem até os consumidores finais.

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