RARA GENTE: Há um movimento que nos convida a repensar os nossos hábitos alimentares, correntes como o veganismo e o vegetarianismo estão cada vez mais fortes e com mais adesões. Isso impacta em que no agronegócio?
STHEPHANIE: Essa reavaliação de hábitos não só alimentares, mas outras coisas que a gente pratica no dia a dia é válida, e é ela quem faz o movimento para que o mundo realmente mude. Algumas coisas que hoje parecem impensáveis que a gente faça, daqui há alguns anos, todo mundo vai fazer e vai ver que era mais do que o caminho a ser seguido. Com relação ao impacto diretamente no setor, a gente pode sentir em uma ou outra atividade, mas tudo o que consumimos vem do setor agropecuário, de alguma maneira. Não só o que a gente consome como alimento, mas roupa, combustível como o etanol, tudo vem da cadeia agropecuária. E é importante, porque a pressão que temos do nosso consumidor final é o que faz com que a gente mude o processo produtivo dentro da porteira.
E não só os brasileiros ajudam desenvolver melhor o sistema, mas também os outros países para onde exportamos, como exemplo a União Europeia.
RG: Nenhuma das áreas que compõem o agronegócio fica em desequilíbrio então?
SG: Não necessariamente. O impacto que a gente tem, por exemplo, da mudança de hábitos alimentares hoje no país, o que mais a gente vê está ligado a nichos de produção. Como por exemplo a questão dos orgânicos, dos produtos que não vêm de origem animal, tudo isso é um tipo de nicho que com o tempo pode vir a escalonar e aí atingir todas as pessoas. Como a gente está falando de comida, temos que lembrar que estamos falando também de colocar comida na mesa daqueles que estão em situação menos favorecida. A gente produz comida para essas pessoas. Alguns produtores conseguem encontrar um nicho de mercado, como os orgânicos que está ótimo mas que acaba tendo um custo elevado de produção e a gente acaba não conseguindo atingir essas pessoas que estão nesta situação que eu comentei. Mas o mais importante de tudo é trazer luz, discussão, dados e principalmente a prática de como funciona a produção para basear e fundamentar os argumentos do porquê. O ser humano é livre para suas escolhas, agora precisamos discutir mais o que o leva a fazer esta opção. São muitas discussões para a gente entender.
RG: E que discussões seriam estas?
SG: A dos orgânicos. As pessoas enxergam que há como fazer uma comida sem agrotóxicos, então por que isso não é feito? O agrotóxico é um insumo que encarece a produção do produtor rural lá na ponta. Ele não quer usar, mas o nosso clima tropical que ao mesmo tempo favorece a gente em quesitos de produtividade, é muito propício ao surgimento de pragas nas lavouras, que levam dias para estragar toda uma produção. Então, existe um protocolo de prevenção e combate a estas pragas e doenças que hoje é feito e que não é algo que a gente escolhe, é o que temos que fazer para produzir em larga escala, para que o produto chegue com um preço mais acessível ao consumidor final, lá na outra ponta. Os orgânicos são produzidos de uma forma que faz com que o alimento chegue mais caro na mesa do consumidor, e este é um alimento que o brasileiro não vai conseguir comprar tão cedo.
RG: O que precisa acontecer para mudar isso?
SG: A pesquisa vem melhorando, fazendo com que cada vez mais as moléculas sejam mais eficientes, o uso eficiente de agrotóxicos precisa ser melhorado, a prática de como se aplica estes defensivos também, para que cada vez mais a gente consiga trabalhar com produtos biológicos que não são moléculas químicas e que apresentam baixo risco para a saúde. Ao mesmo tempo, quando a gente faz as análises dos produtos que vão para a mesa do brasileiro, com relação aos índices de contaminação, eles são muito baixos. O que acontece muito é a aplicação de defensivos direto pelo trabalhador lá no campo e isso pode levá-lo a ter algum tipo de doença, por isso ela tem que mudar. O uso de EPIs - Equipamentos de Proteção Individual - também precisa ser melhorado cada vez mais. A gente vê sobre a aprovação das moléculas, às vezes vemos as leis sobre uso de defensivo, temos que estudar bastante para entender se aquela lei é para melhorar a eficiência da molécula para usar menos insumo do que achar que está aumentando o uso de defensivos, mas na verdade não está. Quando você divide o quanto o Brasil usa de defensivos por produção você vê que é um número muito menor em relação a outros países.