Ela comandou quase cem edições da principal revista de comportamento e variedades da região leste de Mato Grosso do Sul, garantindo a publicação de reportagens, fotos e publicidades com a melhor qualidade técnica, de forma a promover o encantamento dos leitores, mas também com uma linha editorial preocupada em elevar a autoestima de uma comunidade inteira e de enaltecer as pessoas que nela vivem.
As pautas focam em melhorar a qualidade de vida do leitor, antecipam tendências até mesmo nacionais e a escolha das personalidades para estampar as capas da revista Criativa e, posteriormente, da Rara Gente, sempre foi a missão mais primorosa para Ivete Binda Mendonça, à frente do periódico. Ela escolheu, a dedo e com muito feeling, pessoas representativas para a cidade de Três Lagoas e que, com suas histórias de vida pudessem ser inspiração e referência, pudessem passar lições para o crescimento de outros e, talvez, até de si mesmas.
“O objetivo sempre foi criar uma vitrine para histórias inspiradoras”, explica. Empregando estes propósitos, estampar a capa da Rara Gente virou um sinônimo de relevância social e Ivete proporcionou isso para inúmeras personalidades. Nada e nenhuma escolha foi por acaso. Como não é por acaso que ela, aos 57 anos, seja, de forma madura e altiva, a personagem da reportagem de capa da atual edição, a de número 99.
“Estou feliz em estar aqui, experimentar o que proporcionei”, ela afirma sem rodeios.
Ivete Binda Mendonça, fundadora da revista Rara Gente
Há tempos, a equipe sugeria seu nome, mas foi do marido junto aos filhos, que veio o incentivo. Ela temia parecer carta marcada editar sua própria matéria, sem lembrar que existem autobiografias sendo editadas o tempo todo, muitas vezes escritas por terceiros.
Porém, estejam preparados, porque agora é a hora de Ivete aceitar que seu perfil venha a público. “Por que não?”, ela indaga e a gente responde: “então, vamos lá, conhecer o que a mulher, a mãe, a empresária, a parente Ivete, esta pessoa que, afinal, é a cara - e a alma - da Rara Gente, tem para nos motivar e inspirar”.
Para seguir, é necessário dizer que também não é por acaso que ela ocupa seu espaço no mundo, hoje. “Sou fruto das minhas escolhas e do meu empenho. O que tenho de positivo ou negativo, na vida, eu mesma construí ou desconstruí, sempre alicerçada pela minha base familiar”, admite. Assim, se ela fosse dar o título desta reportagem - e teria autonomia para fazê-lo como editora da revista - seria “de bem com a vida”. Ou seja, em seu próprio balanço, o resultado até aqui é positivo.
E, para chegar neste aprazível veredito de si mesma, sua trajetória de vida pessoal e profissional foi sempre marcada pela determinação de caminhar as estradas com fé e com consciência do rumo certo a se tomar e de como deveria dar os passos para alcançar os objetivos. “Sempre avalio se estou fazendo o que é certo, se vai me fazer feliz e melhor, se vai me levar ao lugar que quero chegar”, revela. Como norte para seus passos, Ivete se vale da autorreflexão, da terapia, de leituras e estudos, da negociação de limites, de muita conversa e de uma herança italiana baseada no empenho e no espírito aguerrido herdado das “frisonas”, um termo que navega entre o substantivo e o adjetivo, cunhado pelas tias, mãe e irmãs, para designar as fortes mulheres da família Frison.
Com elas, a começar pela mãe, Amélia Frison, e com as vizinhas, no sul do país, Ivete aprendeu a bordar, pintar, crochetar, costurar. Ela conta que na infância, se reuniam no quintal, à sombra de duas mangueiras, toda tarde, para praticar as artes manuais. Porém, mais do que tomar chimarrão, prosear e produzir roupas de bonecas ou panos de prato obrigatória e deliciosamente impecáveis, naquele ambiente se trocavam lições de companheirismo, de dignidade, capricho e alegria. Formavam-se laços com a mãe, uma pessoa que não se desviava de seus pensamentos e opiniões, alguém que foi o porto seguro, sempre oferecendo os sábios conselhos que precisava, inclusive depois que os filhos vieram.
E se desenhava uma infância sem percalços, sem traumas e baseada na tranquilidade de se viver retamente, com muita disciplina, mas com liberdade. Já com o pai, Benjamim Binda, nascido no Brasil, mas metódico com os costumes e a cultura italiana. Ivete lembra-se de ter aprendido principalmente as lições de economia, de poupar hoje para ter amanhã, da valorização dos recursos disponíveis, do empreendedorismo e a gostar de ler, ouvir música e de artes - que ele fazia questão de oferecer à família.
“Tenho muita gratidão pelos meus antepassados. Reconheço e honro todas as dificuldades que eles passaram e tudo que me proporcionaram para eu ser quem sou”, diz com emoção ao lembrar que seus quatro ‘nonos’ saíram da Itália e atravessaram o Atlântico em uma viagem de um mês, após a guerra, para arriscar a vida por aqui. Vieram no mesmo navio, o Adria, e seguiram para o Rio Grande do Sul, mas foram se conhecer somente um tempo depois. E ainda fala com honra dos irmãos, Reinelle, Sady, Adelina, Noeme e Genuir, os cinco com mais idade que a caçula Ivete, uma filha temporã com diferença de 13 anos. “Eles sempre desempenharam o papel correto que lhes cabia, me dando proteção, carinho, cuidados e a segurança de irmãos”.
E estas lições, de hierarquia, disciplina e mútua ajuda, a Ivete adolescente levou para a faculdade de Farmácia, cursada na Universidade Estadual de Maringá. Empenhada em ter destaque, concluiu o curso com especialização em bioquímica e farmácia industrial e começava a delinear sua vida adulta com o firme objetivo de tomar atitudes corretas e com muita postura. Nos seus projetos profissionais, nunca pensou em ser empregada, mas em ter seu próprio negócio.
Na vida pessoal, foi lá no campus, aos 17 anos, que ela conheceu o companheiro da vida toda, seu marido e sócio, Wesley Mendonça, à época estudante de engenharia química. Ainda no primeiro semestre de curso, começaram a namorar, mas o casamento só veio após estarem formados e trabalhando.
Ivete lembra que foi funcionária apenas uma vez na vida, montando uma farmácia de manipulação para uma rede de drogarias, em Foz do Iguaçu, e adquirindo experiência prática em sua profissão. A partir dali, empreendeu em sua própria empresa, em Pereira Barreto, no interior de São Paulo. Cuidar de cada detalhe, atender com esmero, prestar serviços eficientes e oferecer afetividade aos seus clientes eram suas metas.
"MEU FUTURO SONHADO É COM 'RODINHAS NOS PÉS', MAS NÃO SOU UMA TURISTA QUE SAI DE CASA PARA DESCANSAR"
Entre plantões e fórmulas, foi lá que nasceu seu primeiro filho, Giovane Binda Mendonça, há 24 anos. Nascia junto a Ivete mãe, que também guarda consigo parâmetros bem definidos sobre sua visão e propósitos de maternidade. “Filho não deve ser projeto de vida. Filho é responsabilidade e depende da proteção dos pais. Eles não nascem como um papel em branco, mas sim com genética definida, e cabe aos pais orientar, ajudar a moldar valores com atitudes e exemplos corretos. Eles precisam ser enxergados e amados”, opina.
E a maternidade ainda teria, para o casal, uma surpresa: a gravidez dos gêmeos Piero e Enzo, quando Giovane tinha apenas cinco meses e ela tomava anticoncepcional compatível com amamentação. Apesar da consequente dificuldade de ter um bebê nos braços e dois no ventre, ela se lembra que gestar foi uma completa alegria.
O peso inerente à gravidez e à situação não tiravam a paz, trabalhou até a última semana antes do nascimento e reconhecia a benção de ter um desejo realizado. Segundo ela, nem a árdua rotina de três bebês parecia difícil, porque maternidade é uma escolha que se faz todos os dias. “Sempre soube que seria mais feliz se eu fizesse o que tinha que ser feito, e isso seria assumir minhas responsabilidades”, afirma.
Outra revelação é de que sempre se achou preparada para ser mãe e que, para isso, empregaria todos os esforços para cumprir bem a missão. E, ao ter que administrar a vida de seus três loiros e lindos meninos, Ivete conta que vem sendo completamente realizada. “As professoras, o tio da cantina, o segurança, as pessoas me davam bom feedback sobre eles”, diz orgulhosa. De fato, os meninos da Ivete são um ponto fora da curva, seja no porte, na aparência ou no comportamento. Para alcançar estas virtudes, claro que existem os pais ajudando a moldá-los. Um pacto entre Wesley e Ivete, é nunca um desautorizar o outro na frente dos filhos.
Outra visão é de proporcionar todos os aprendizados e formação que podem, isso indo do clássico curso de inglês até aulas de arte. Também inclui não negligenciar necessidades, como as que Giovane enfrentou na escola, mas que a família buscou entender até o diagnóstico e tratamento de dislexia. “Valeu a pena insistir e apoiar meu filho. Vai se formar ainda este ano em engenharia química, numa renomada universidade, e se transformou num aluno exemplar”, comemora.
Enzo e Piero também trilham seus promissores passos numa universidade em Portugal, vivendo a parte boa, mas também as dificuldades que isso implica, como ingredientes do crescimento como pessoas e futuros profissionais. Ivete afirma que nunca dispensou as referências familiares, atualizadas para os dias atuais, na educação e formação dos filhos.
E, até aqui, os pais não largaram as mãos de nenhum dos três. “Todas as questões de família são discutidas entre todos, pessoalmente ou em chamadas de vídeo. Todos opinam. Não queremos criar campeões que precisam ganhar em tudo, mas pessoas que respeitem as outras, a hierarquia e saibam que têm condições de fazer escolhas certas e de ter uma vida adulta saudável e feliz”, explica Ivete, deixando escapar que reconhece ainda ter dois possíveis desafios pela frente: ser sogra e avó. “Faço terapia...Vou tirar de letra!”, brinca.
Terapia também é estar em casa. Ivete e Wesley construíram um refúgio de paz e conforto, lugar onde ela adora estar para receber pessoas para um café da manhã ou almoço especial – afinal ela é 100% diurna, diz que “se recolhe com as galinhas”. É em casa que ela também relaxa, lê - inclusive a Bíblia, e se dedica à pintura de telas e ao cultivo de suas orquídeas, paixões que pretende exercitar mais, a cada dia. Para isso, criou os cenários, um pequeno orquidário e um ateliê, locais próprios para praticar a arte da beleza, da criatividade, da experimentação estética e, claro, de viver o prazer que isso lhe dá.
"SOU GEMINIANA, GOSTO DE ME COMUNICAR, DE ENSINAR E, ME EXPRESSAR - PODER TRANSMITIR BOAS COISAS É UM PRAZER IMENSO"
Iniciar ciclos e saber encerrá-los tem sido uma realidade para nossa personagem e ela diz que faz isso bem. Um grande ciclo encerrado foi na sua profissão. Ao deixar a farmácia de Pereira Barreto para se mudar para Três Lagoas, em 2005, chegou a projetar a construção de uma outra unidade no novo local de moradia. Fez os investimentos iniciais, como compra de terreno e muitos trâmites, até ser convidada pelo marido, para - provisoriamente - auxiliar na condução do grupo Agitta de Comunicações, que incluía gráfica, jornal, pontos de outdoor e apenas três edições da revista, então chamada Criativa Gente.
Ela já vinha dando algumas opiniões na revista e você pode se perguntar como assim, uma farmacêutica opinar sobre jornalismo. Uma explicação é que Ivete sempre foi uma leitora atenta e crítica de revistas, sempre acreditou no potencial que uma publicação poderia ter, de formar conceitos e conhecimentos. Outra, é que ela fez o que sempre faz, leu muito e pesquisou para conhecer melhor este universo. Ao assumir funções na empresa, Ivete conta que encerrou o ciclo da farmacêutica.
E não foram poucas funções. Indo do financeiro, passando pelo comercial, pela gestão de pessoas e chegando até nas atribuições editoriais, cada dia estava mais envolvida. E, mesmo com uma carga grande, ela destaca que logo optou em dar caráter permanente ao que seria provisório, ou seja, optou por não continuar em sua profissão de formação. Entre as motivações estavam ter mais qualidade de vida, ficar em casa à noite e nos finais de semana, estar mais próxima dos meninos e aposentar os plantões. E, logo, a queridinha entre suas atribuições foi comandar a revista. “Fiquei completamente apaixonada. Não busquei estar à frente da revista, ela quem me buscou”, afirma.
Ao longo destes 19 anos de Ivete editora, a revista mudou de nome, passou a se chamar Rara Gente. Nas propostas de Ivete, sempre discutidas pela equipe, cada sessão, cada coluna, cada capa e pauta, teve a preocupação de somar com a vida dos leitores. Promoveu uma robusta revolução no designer e manteve a linha de mostrar a raridade de cada história contada, mesmo sendo a história de pessoas comuns. Os editoriais de moda, produzidos com fotógrafos, modelos e roupas da cidade, são sucesso pela qualidade visual e informativa de tendências no mais alto padrão.
Muitos temas, como sustentabilidade, estiveram nas páginas da Rara - aliás, em quatro edições como caderno especial - , antes mesmo de isso ser assunto da moda e ter informações tão disponíveis, como atualmente. “Sou geminiana, gosto de me comunicar, de ensinar e, me expressar, poder transmitir boas coisas, é um prazer imenso. Hoje, penso que a sociedade três-lagoense respeita o que construímos porque se viu e se vê na revista e nos nossos outros produtos, sabe que trazemos informações com credibilidade e respeito”, avalia.
Mas isso também, segundo ela, é fruto de sempre ter pessoas empenhadas em trabalhar na equipe, de oferecer o melhor para o público, de ter encontrado profissionais que não têm receio de inovar, de aceitar desafios e de surpreender.
No entanto, ela admite que gerenciar pessoas e estimulá-las, dentro das atuais demandas da vida, não é tarefa fácil. Ao encontrar cenários de funcionários com quadros de ansiedade, depressão e até burnout, ela, mais uma vez, recorreu ao conhecimento para tentar trabalhar a questão na gestão da empresa. Fez uma pós-graduação voltada ao tema e ainda baseada na neurociência e psicologia positiva - que se desenvolve com a intenção de evitar as doenças emocionais e psiquiátricas e não somente tratá-las.
"SOU FRUTO DAS MINHAS ESCOLHAS E DO MEU EMPENHO. O QUE TENHO DE POSITIVO OU NEGATIVO, NA VIDA, EU MESMA CONSTRUÍ OU DESTRUÍ, SEMPRE ALICERÇADA PELA MINHA BASE FAMILIAR"
Como vimos, até aqui, esta poderia ser uma frase aplicada a Ivete. Ela não a usou na entrevista, mas poderia ser uma interpretação, um resumo, não só no trabalho ou na vida familiar, mas mesmo quando o assunto é viagem de férias. Ela diz que seu futuro sonhado é “com rodinha nos pés” e que não é uma turista que sai de casa para descansar, mas justamente o contrário, para se cansar na busca de conhecer tudo que o destino tiver a oferecer.
Foi assim quando fez o trajeto do famoso Caminho de Santiago de Compostela, em 2021, junto com o marido. Pautada na fé e na busca verdadeira por sinais, por entendimentos e pelas suas próprias verdades, ela relata que enfrentou dificuldades físicas para percorrer os 160 km em oito dias, mas que, em meio a orações, considera indescritíveis as experiências vividas nas trilhas pelas quais um apóstolo de Cristo passou há séculos. “Foi uma superação”.
Também gastou a sola dos sapatos na viagem feita para a Turquia, em 2023. Embarcou com muitas pesquisas sobre a cultura, os pontos a visitar e roteiros prontos, mas conta que tudo valeu a pena, principalmente a emoção de visitar a casa que foi de Maria, mãe de Jesus, na região de Éfeso. É que ela exercita sua fé cristã “inabalável” com carinho e cuidado, mas também com a profundidade que aplica em outros setores da sua vida. Com alegria e liberdade, na prática da disciplina.
E nesta mesma perspectiva, de tratar a vida com rigor e gostar disso e, ainda mais, dos resultados que vem colhendo, Ivete Binda Mendonça está anunciando que fica à frente da revista Rara Gente somente até a próxima edição, a de número 100, e ela se diz preparada para encerrar este ciclo. Em sua análise, fez o melhor que poderia, construiu um produto com reputação e aceitação inquestionáveis, construiu a sua própria reputação como empresária antenada e responsável por entregar entretenimento com qualidade e profissionalismo.
“Ainda estarei na empresa, mas não darei continuidade à minha atividade na revista. Vou encerrar mais um ciclo com tranquilidade e pés no chão”, afirma. A empresa vive outros momentos, com mais produtos, como duas rádios e um mix de veículos capaz de atender a seus clientes na integralidade. Entre os trancos e barrancos da economia e da política nacionais, principalmente no pós-pandemia, conseguiram estabelecer mais alicerces. Ivete se preparou ainda mais para gerir pessoas. Certamente, ainda há de contribuir em muito com o Grupo Agitta, e será com afinco, mesmo que sejam outros momentos.
Enfim, é possível que o leitor ache esta história muito colorida e sem dificuldades. Elas existiram e existem, obviamente. A questão é a abordagem que se dá a elas. Ivete ensina que é necessário enfrentá-las com dignidade e pensando, sobretudo, no que será o melhor para si, respeitando o outro, mesmo que contrariando o senso comum e a pressa em tomar decisões. Com rodinhas nos pés ou não - ainda mais que já conquistou sua cidadania europeia, “Sou uma italiana”, ela diz com orgulho -, tratando seus príncipes loiros com mãos ora de ferro, ora de veludo - como requer a boa educação de filhos -, dirigindo uma empresa em ascensão e se empenhando em ser a dona do próprio destino, é fácil dizer que Ivete Binda Mendonça está de bem com a vida.
E isso tem um custo que ela se propõe a pagar em muitos atos. E o mais legal, considerando isso mais libertador do que escravizante. Eis as lições que a editora-chefe sempre quis passar para os milhares e milhares de leitores, em dezenas e dezenas de edições. Agora, de própria voz, experimentando o que proporcionou.
"ESTAR DE BEM COM A VIDA TEM UM CUSTO, QUE EU ME PROPONHO A PAGAR EM MUITOS ATOS, E CONSIDERO MAIS LIBERTADOR QUE ESCRAVIZANTE"
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