Entrevista

“As mulheres ainda estão morrendo”

Ainda que a sociedade caminhe para vivenciar os últimos momentos da pandemia e que não haja mais isolamento social. A Cidade de Três Lagoas ainda apresenta um índice alto de feminicídios. Saiba como proteger as vítimas ou ajudá-las

Rara Gente - Daniela Galli
11/05/22 às 08h00

Somente este ano foram registrados em Três Lagoas dois feminicídios e mais quatro tentativas. O número é considerado alto para a cidade.

A violência doméstica é um assunto que já foi explorado aos montes pela imprensa, mas é devido a estes índices que ele não pode nunca ser esquecido.

Para falar sobre isso nós da revista Rara Gente convidamos Nelly Gomes dos Santos Macedo,  delegada adjunta da Delegacia de Atendimento à Mulher de Três Lagoas. Natural de Goiás, foi na PUC daquele estado em que se formou em Direito. Na função de delegada desde o ano de 2018, Nelly já trabalhou em Aquidauana, Dois Irmãos do Buriti e Selvíria. Está em Três Lagoas desde 2021. Ela fez questão de divulgar o perfil dela nas redes sociais, @nellygsmacedo, para que todas as mulheres possam tirar dúvidas.

 

RARA GENTE: O que caracteriza a violência doméstica

NELLY MACEDO: Ela pode se apresentar de diferentes formas. Não apenas a violência física, mas a moral, patrimonial de todas as formas que a mulher se sentir humilhada, chantageada, cerceada de sua liberdade ela está sofrendo uma violência e pode fazer denúncia.

RG: A lei Maria da Penha só vale para quem mora junto?

NM: Não. Qualquer relação afetiva, inclusive empregada doméstica que trabalha todos os dias e tem uma relação próxima, familiar com o núcleo onde ela trabalha pode se caracterizar como violência doméstica. Pode ser pai e filho, mãe, irmãos, não tem que necessariamente ser uma relação amorosa e nem que haja coabitação.

RG: Porque muitas mulheres ainda continuam com o agressor?

NM: Muitas por dependência psicológica porque a agressão evolui gradativamente então quando a mulher consegue perceber que está em um ciclo de violência e tenta  sair daquela relação ela já está tão subjugada que tem dificuldade em se ver livre daquele abuso. Pode ser também por dependência financeira, nem só por ela, mas pelos filhos também. E também tem a questão afetiva. Mas independente das razões, não nos cabe questionar o motivo pelo qual ela permanece e sim perguntar por que aquele homem continua com as agressões.

RG: Os casos de violência doméstica aumentaram em Três Lagoas durante a pandemia?

NM: Na verdade, durante a pandemia, nós tivemos um registro menor de ocorrências por que as mulheres não tinham como sair. Isso não quer dizer que elas não sofriam violência e sim que não tinham como pedir ajuda. A expectativa desde o ano passado ela que os registros aumentassem e que as violências fossem mais graves. Por que nesse período de isolamento elas não tinham opção. Quando o isolamento passou elas se voltaram contra aquilo e decidiram sair do relacionamento e os homens aumentaram a violência. É isso que nós estamos vendo agora.

RG: Você já viveu um relacionamento abusivo? Pode contar para nós como foi essa experiência como mulher?

NM: Sim. Não foi uma relação com violência física mas havia muito ciúmes, assédio moral com controle excessivo. Infelizmente hoje não tem uma mulher que esteja completamente livre. O que nos diferencia é o tempo de reação. Nós temos que reagir rápido, identificar logo os sinais de uma pessoa abusiva. A mulher foi criada para entender e aceitar. As pessoas dizem "se você continuar deste jeito vai morrer sozinha", mas as mulheres estão morrendo acompanhadas pelas mãos dos companheiros. Então eu digo: fique sozinha, busque o seu bem-estar, encontre a sua plenitude por que você vai saber o que não é bom para você.

RG: A Delegacia da mulher só atende relações heteronormativas?

NM: Não. Quando se trata de uma violência de gênero, mesmo em relações homoafetivas entre duas mulheres ou com uma mulher trans, se o fato se enquadrar em violência doméstica, a delegacia da mulher vai atender.

RG: Como as pessoas que estão ao redor da mulher que está vivenciando um relacionamento abusivo podem ajudar?

NM: A primeira coisa é se dispor realmente a ajudar e não a julgar. Perguntar como pode ajudar, o que pode fazer por ela. Se a pessoa sabe e tem certeza do abuso, ainda que ela suspeite e quiser fazer uma denúncia pode fazer porque nós fazemos a checagem com o maior cuidado. Não desista desta vítima. É preciso entender que a mulher tem a própria liberdade para tomar as próprias decisões. Muitas vezes ela não está preparada para fazer a denúncia. Não é um bandido comum, é o pai dos filhos dela, é o marido dela. Não coloque a culpa nela.

RG: Quais são os canais para pedir ajuda?

NM: Pode discar 180, que é o canal de denúncia do governo. Hoje a Polícia Civil do Estado do Mato Grosso do Sul tem a opção de registrar as ocorrências on line pela DEVIR. Se o crime estiver acontecendo naquele momento, for urgente e precisar da interferência policial pode discar 190. Qualquer pessoa pode denunciar. É importante que todos entendam que os efeitos colaterais da violência doméstica vão além daquele lar. Às vezes a pessoa fala que não é problema dela mas é. O que acontece nos lares reflete a sociedade como um todo. Têm crianças e adolescentes crescendo em lares abusivos. Se você contratar uma mulher que está sendo vítima de violência, tem que saber como lidar com ela, como oferecer ajuda e proteção.

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