Entrevista

Ana Claudia Cano: "Nós somos seres humanos e temos que aprender a acolher sem adoecer"

Conheça um pouco mais sobre ela - pequena no tamanho mas gigante na personalidade e na atitude

Daniela Galli
03/12/22 às 09h00

“Eu tenho um perfil mais reservado mesmo. Até o meu trabalho é nos bastidores” . Foi com esta frase que Ana Cláudia Cano iniciou a nossa entrevista. Ana Cláudia nos recebeu em sua casa em meio a um trabalho e outro. Chegou pontualmente às 10h, horário que tínhamos agendado previamente. Uma mulher de estatura baixa e com ‘o pescoço curto’, ‘típico dos Santana’, como ela mesma explica. Sem brincos. Pouca - ou nenhuma maquiagem. Conversou com a filha Julia, com a funcionária, foi ao banheiro e, enfim, sentamos para conversar.

Nossa entrevistada é médica intensivista, legista da Polícia Civil de Três Lagoas e técnica administrativa concursada da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul. Por isso que ela nos disse no começo, que seu trabalho é ficar nos bastidores; apesar de ser médica, ela não atende os pacientes em uma clínica, como pensamos. 

Em busca de sentido em tudo que faz, Ana conta que demorou um pouco para escolher em qual área da medicina gostaria de atuar. Depois da formação, fez dois anos de residência em clínica médica, iniciou  e parou cardiologia e na sequência fez dois anos em terapia intensiva, foi quando se apaixonou pela área.

Após dez anos atuando em terapia intensiva, em 2020, se deparou com a pandemia. “Eu não sabia o que Deus tinha preparado para mim, mas encarei aquilo como uma missão. Eu sabia que eu teria que ser a ‘mulher maravilha’ naquele momento”.

"Nós somos seres humanos e temos que aprender a acolher sem adoecer. Acho que não precisa haver essa distância, tem que ter proximidade senão a relação não se fortalece”

Enquanto muitos profissionais ficaram em crise no início da doença, Ana brinca que já estava com uma ´carapaça dura´, porque havia adoecido - e se tratado - antes da covid-19. “Fui envolvida por uma força incrível. Tinha uma energia reprimida que eu joguei ali”.  Um dos assuntos mais comentados pela imprensa, principalmente durante os anos de 2020 e 2021 era como os profissionais da linha de frente estavam sofrendo para levar suas funções adiante sem prejudicar seus familiares e sem serem infectados. “Sou muito idealista. Quando os equipamentos estavam acabando eu sabia que eu iria para o hospital mesmo que fosse com um saco de lixo no corpo. Se não fosse desta forma eu não seria fiel aos meus princípios e não seria eu”.

Hoje, com a doença e o vírus aparentemente mais calmos, a médica olha para trás e vê que tudo foi um grande aprendizado. “ Vivi coisas terríveis mas não declinei, fiquei mais fortalecida, amadureci profissional e emocionalmente dez anos em dois. Fiz o que tinha que fazer, fui um canal. Penso que somos instrumentos de Deus para fazer algo pelas pessoas. Se não for assim não tem sentido”.

Envolvimento

Em todas as áreas há profissionais que se relacionam de forma diferente com as pessoas com as quais precisa lidar todos os dias. Na relação médico/paciente não é diferente. Tanto que alguns deles mantém uma ‘distância segura’ dos casos mais complexos para que não se envolvam tanto a ponto de comprometer o tratamento. 

Para Ana, isso é diferente. “Como vou me doar sem me envolver? Como fazer isso sem adoecer? Como dar colo se eu estou chorando? São algumas das questões que temos para resolver. Nós somos seres humanos e temos que aprender a acolher sem adoecer. Acho que não precisa haver essa distância, tem que ter proximidade senão a relação não se fortalece”. Como técnica administrativa da UFMS, Ana lida diariamente com os alunos de medicina que fazem estágio na UTI e faz questão de transmitir a eles a importância dos seus valores e de tudo que aprendeu até hoje. “Pergunto sobre a válvula de escape deles, se estão praticando esportes, se têm momentos de lazer, pois todos precisamos para mantermos o equilíbrio”. Ela fala com orgulho seus alunos, e deixa claro que ama estar com eles. Tanto amor se refletiu no convite para ser a paraninfa da terceira turma. 

O trabalho com os mortos

Já dissemos também que ela é médica legista da Polícia Civil em Três Lagoas, função que desempenha desde 2012, quando teve que se afastar da UTI por conta de sua saúde mental. Ela diz ainda que, quando começou a trabalhar, a infraestrutura do Instituto Médico Legal da cidade era bem precária.

Tanto, que ela contou diversas situações nas quais tinha que improvisar para concluir as necropsias. “Tudo na vida é uma questão de adaptação. Passei por experiências peculiares na profissão, mas penso que sou resiliente”.

Até hoje os casos que lhe tocam mais são aqueles em que as pessoas tiram a própria vida. “Você tem certeza que ali houve um sofrimento para a pessoa chegar a tomar uma atitude dessas. Imagine o tamanho dessa dor! Quando tenho que lidar com isso eu fico sem energia naquele dia. Eu sinto a dor do outro. Eu falo isso aos meus alunos: como médico se você não sentir isso, você está errado”.

A família

Até agora, de tudo que falamos sobre ela, não é de se estranhar que o marido, o médico ginecologista Eneias Cano tenha sido seu colega de turma na faculdade. A diferença de idade entre eles é de sete anos, o que não foi empecilho nenhum para que se dessem bem - eles estão juntos desde o segundo ano do curso. “Nosso amor nos deu força para juntos vencermos nossas dificuldades”.

A história de vida deles é bem parecida, segundo ela. As famílias eram de origem simples, as duas lutaram muito para que eles pudessem estudar. “Os pais de Eneias se mudaram de Angélica, na região de Dourados, para Campo Grande quando ele foi aprovado no vestibular.

A palavra que resume o relacionamento deles é parceria. E isso fica bem presente quando ela conta como vieram morar em Três Lagoas atendendo ao chamado de um amigo que lhe disse que precisava de um médico intensivista. “Eu queria muito pois ficaria um pouco mais perto dos meus pais, estaria basicamente no meio do caminho. Mas ele já tinha consultório e clientela formada em Campo Grande. Mesmo sabendo que ficaria um tempo sem emprego ele embarcou junto comigo e nos mudamos para cá”.

“Nosso amor nos deu força para juntos vencermos nossas dificuldades”

A filha Júlia, hoje com sete anos, nasceu em meio à construção da casa na qual eles moram. “Eu que toquei a obra, queria muito que ela nascesse aqui”. A maternidade fez com que ela tivesse que se adaptar de novo, mas desta vez à rotina que viria a seguir. Ela conta que Julia chorava muito de um lado e ela, em contrapartida, chorava do outro. Ao mesmo tempo reconhece que a filha é, na verdade uma Ana em miniatura. “Quando nasceu, o pescoço já estava firme. Ela é determinada e não se convence fácil. É um desafio. Aprendo todos os dias e tento crescer como pessoa sendo mãe dela”.

O futuro

Para os próximos anos que estão por vir, ela, claro, já tem em mente o que quer fazer. E, apesar de estar sempre imersa e entregue em sua profissão, pretende diminuir o ritmo. “Quero trabalhar menos e ficar mais tempo com a Júlia. Fazer atividades de mãe mesmo, sabe? Hoje em dia está tudo muito corrido, mas quero me dedicar às coisas que eu gosto; arte, pintura, leitura, ter outro estilo de vida”.  

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