Entrevista

A piada que mata

O cyberbulling e o mal do século

Thais Dias - Rara Gente
14/09/21 às 14h42

O cyberbullying é a prática da intimidação, humilhação, exposição vexatória, perseguição, calúnia e difamação por meio de ambientes virtuais, como redes sociais, e-mail e aplicativos de mensagens. A incidência maior de casos de cyberbullying ocorre entre os adolescentes, porém há um número considerável de jovens adultos que utilizam essa prática criminosa.

Os agressores geralmente usam de perfis falsos (fakes), acreditando estarem totalmente protegidos quanto à sua identidade real, ou simplesmente se manifestam pelo meio virtual por não ter que encarar a sua vítima pessoalmente.

Apesar da sensação de segurança em que o agressor acredita estar, ele está cometendo crime e pode ser punido. O cyberbullying é passível de punição por meio do Código Penal quando configura os crimes contra a honra (calúnia, difamação e injúria – Artigo 138 do Código Penal Brasileiro), crime de injúria racial (ataques racistas – Artigo 140 do Código Penal Brasileiro) e exposição de imagens de conteúdo íntimo, erótico ou sexual (Artigo 218-C do Código Penal Brasileiro incluído pela Lei 13.718, de 2018).

Em todos os casos, as punições previstas no Código Penal Brasileiro podem chegar a quatro anos de reclusão. Na esfera civil, os agressores podem ser condenados a pagar indenizações por dano moral. Quando o agressor é menor de idade, os seus responsáveis respondem pelos crimes diante do tribunal e podem ser condenados a pagar indenizações à vítima e à sua família.

Os perfis e e-mails falsos das redes sociais, utilizados por muitos agressores a fim de não terem a sua identidade real revelada, podem ser rastreados e descobertos por meio da análise do endereço de IP (uma espécie de endereço que registra e identifica qualquer ponto de acesso à internet). O IP pode ser descoberto por meio de uma investigação policial autorizada pelo poder judiciário.

A jornalista Bruna Taiski, já foi uma vítima de cyberbulling e conta como tudo aconteceu “Foi em meados de 2015 /2016, um completo mal entendido, que virou uma bola de neve. Jornalismo e Publicidade uma rixa na faculdade, mas nada agressivo era mais uma brincadeira entre as turmas. Certa vez fiz uma piada envolvendo um dos cursos no meu Facebook com o pessoal da minha turma, e naquele mesmo post o pessoal começou a se sentir ofendido e a me ofender de volta, só que dessa vez foram ataques pessoais envolvendo muita gente. Chegaram a criar um grupo do WhatsApp só pra atacar ainda mais”, lembrou.

O que era para ser uma brincadeira entre turmas acabou se tornando uma perseguição em massa contra a jovem, que na época já fazia terapia e conseguiu se dar bem com a situação.

“Para alguns é divertido inferiorizar os outros, dessa maneira eles se sentiram superiores a mim me atacando de modo pessoal – mas, eu sabia que aquilo dizia muito mais sobre eles do que sobre mim”.

Uma pesquisa feita pelo Instituto Ipsos acerca do cyberbullying entrevistou cerca de 20 mil pessoas em 28 países do mundo.

Segundo a pesquisa, em 65% dos casos, as redes sociais foram usadas como ferramentas para praticar as agressões. Em seguida, aparecem os smartphones que são usados em 45% das ocorrências de bullying.

No Brasil, os perfis na internet são usados em 70% das vezes que uma criança é atacada nas redes. Nesse quesito, o país fica atrás de apenas quatro países: Peru (80%), Argentina (74%), México (73%) e Malásia (71%).

Bruna conta como se sentiu “Nos primeiros meses sim, foi bem difícil. Eu não frequentava mais as aulas e depois de um tempo até desisti e tranquei o curso. Por conta da situação eu tive medo de interagir com meus colegas sempre que eu tentava retornar a faculdade. Por um tempo eu tentei entender o que moveu aquele ódio coletivo, mas como disse anteriormente sinto que é um problema deles mesmo, uma necessidade de escolher um alvo pra descontar o ódio que carregam da própria vida, é assim que eu entendo quando vejo esses ataques. Cito exemplo da Luisa Sonza, com certeza quem atacou aquela mulher é porque teve um problema muito grande em relacionamento e desconta o ódio do ex-parceiro na famosa. Enfim, todos precisam é uma boa sessão de terapia”. 

Um caso de cyberbulling que chocou o país foi o caso de Lucas Santos, de 16 anos. O adolescente foi encontrado morto em casa, na Grande Natal.

Walkyria (mãe de Lucas) e a família iniciaram uma campanha para aprovar um projeto de lei na Câmara dos Deputados que criminaliza atuação de "haters" (pessoas que destilam comentários de ódio) na internet.

De acordo com o texto do projeto, durante o mês de agosto, deverão ser promovidas diversas atividades de conscientização, entre elas, a realização de campanhas educativas em escolas das redes pública e privada, além da promoção de palestras, veiculação na mídia e a iluminação de prédios públicos com a cor verde.

Pai de Lucas Santos, o empresário César Soanata falou em plenário e agradeceu a solidariedade dos parlamentares. "Nós, pais e mães, normalmente, achamos que esse tipo de coisa só acontece na casa do vizinho. A gente nunca imagina que nossos filhos podem estar sendo atacados de forma tão cruel por uma gama de pessoas que se denominam haters, ou seja, odiadores. O que nós queremos é que esse problema sério seja discutido, seja colocado à mesa e que seja combatido. Costumo dizer à mãe dele que nós vamos transformar o nosso luto em luta, uma luta na qual o bem vai sobressair ao mal. Tenho certeza de que a morte do meu filho não será em vão", afirmou César.

Bruna vítima deste crime deixa um recado para os haters e para as vítimas:

Para os agressores eu diria que o karma vem em seguida, tudo que fazemos na nossa vida retorna para nós depois. Já recebi currículo e pedido de indicação por onde trabalhei dessas mesmas pessoas, não indiquei porque sabia o tipo de atitude que a pessoa tomava em determinadas situações. Quem quer trabalhar com gente assim? Lembremo-nos que todos somos colegas de classe e que um dia nos tornaremos colegas de trabalho, por isso reveja as suas atitudes. 

Para as vítimas digo que não dê munição para essas pessoas, ignore-as, porque quanto mais elas sentem que está atingindo você, mas elas irão atacar. Essas pessoas amam ‘chutar cachorro morto’. Então pense: esse ódio é todo deles e vai permanecer só com eles. 

 

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