Entrevista

A DOUTORA ALEGRIA: pediatra Karina Dias estampa a capa da nova edição da Rara Gente

Em meio a uma cansativa rotina de trabalho, a médica pediatra escolhe a família como projeto e aposta na fé e no otimismo como motores para superar tudo.

Rara Gente
16/05/23 às 19h00

A entrevista estava no final, quando um item da decoração do consultório da médica pediatra Karina Moura Dias, 40 anos, mãe do Guilherme, de cinco anos, e da Jordana, de três, chamou a atenção. Era uma palavra com letras de madeira pintadas de vermelho. Gostei desta palavra, uma boa mensagem para seus pacientes e famílias, opinei. Ah, ganhei essa palavra de uma colega de faculdade, era meu apelido, ‘Alegria’, contou. Grand finale para a conversa de quase duas horas, sintetizado tudo o que a médica transpareceu: a doutora Karina bem poderia ser chamada de doutora Alegria. Primeiramente, seu sorriso é muito fácil, uma simpatia que encurta as distâncias entre as pessoas. E o sorriso é mais que estampa. Nos seus relatos da vida, sempre há uma bem ser- vida dose de otimismo, de fé, de amor à família e à profissão e de, pelo menos, uma tentativa de superar as dores com a certeza de que o melhor virá, de que tudo se resolverá.

Médica pediatra Karina Moura Dias

Quer um exemplo expressivo disso? No final de 2021, quando o hospital local, o Nossa Senhora Auxiliadora, tinha acabado de desmontar a UTI-Covid 19, Karina contraiu a doença. Naquele mês de outubro, o Brasil registrava desaceleração da pandemia, porém já eram mais de 607 mil vidas perdidas, ainda havia muito medo, afinal cada corpo reage de uma forma.  

Com pelo menos 80% dos pulmões afetados, saturação baixa e com duas crianças pequenas em casa, foi internada por 14 dias, numa vaga de UTI em isolamento criada para ela. 

“Parece loucura dizer, mas ter Covid-19 de forma grave foi um momento especial na minha vida, um divisor de águas. Eu nunca achei que não voltaria para casa. Pensava: tenho dois filhos pequenos e vou criá-los. Não construí ansiedade em cima do risco, tive muita paz e tranquilidade de que aquilo passaria”  , conta Karina.

A estratégia para isso foi exercitar a fé. Inicialmente, a fé nos colegas profissionais de forma a deixar que eles tocassem o processo, sem que- rer interferir na busca de soluções devido a seus próprios conhecimentos. Foi bom quando decidi sair da posição de médica e entrei na de paciente, sem interferir muito. Depois, foi a prática de fé religiosa e espiritual que a sustentou, em sua opinião. Não foram só os parentes e amigos que colocaram os joelhos no chão e construíram uma rede de orações em petição à sua cura. Quando saí, soube que a cidade inteira, muitas pessoas que nunca vi, pessoas de lugares que nunca fui, estavam pedindo por mim, afirma.

Ela tem certeza que venceu, devido a este clima espiritual somado ao tratamento hospitalar. Repousei no Espírito Santo, vivi uma experiência linda, diz, apesar de isso parecer soar estranho diante da tragédia pandêmica. Mas é que Karina, vendo o copo meio cheio, aproveitou o perrengue para crescimento pessoal. A acadêmica Alegria não ficou no passado, mas migrou para os dias de angústia do presente.

DA INFÂNCIA À FACULDADE

Karina nasceu em Três Lagoas, mas viveu, desde sua primeira infância até o início da adolescência, em Porto Primavera, no estado de São Paulo. Foi a filha mais nova do casal Osvaldo Alves Dias e Maria Dinah Moura Dias, que já tinha a pequena Léa Karla, de dois anos. Morando numa cidade pequena, conta que aproveitou a infância com tudo que tinha direito: andar de bicicleta, brincar na rua, dançar balé ou nas discotecas na casa dos colegas. Mas sua maior paixão foi o piano, do qual teve aulas iniciais aos seis anos. Formou-se no instrumento e relata que este é um amor deixado de lado desde a faculdade, mas que preten- de retomar um dia.

Por volta dos 12 anos, a família dela retornou para Três Lagoas, onde concluiu o ensino fundamental e cursou o ensino médio. E Karina lembra que, pelo amor ao piano, chegou a pensar em cursar faculdade de música, ao invés de medicina, que ela considera um desejo de sempre, um dom. Minha família foi sempre muito musical, nossos encontros são ao redor da música e de comes e bebes, brinca. Mas a vontade passou e prevaleceu a de estudar medicina.

Foram dois anos de cursinho, após o ensino mé- dio, para ingressar na PUC de Campinas. Mas ela sofria a costumeira pressão para ser aprovada no vestibular? Karina garante que não. Sabia que era só uma questão de estar preparada, tudo é uma questão de momento. Tinha uma rotina de estudos, mas mantinha meu lazer também. Não fui bitolada. Ao iniciar a faculdade, estava com 20 anos. Sua irmã já cursava o segundo ano, também de medicina, na cidade de Valença, no estado do Rio de Janeiro.

Rotina de estudos sempre existiu na casa de sua família. Meus pais fizeram curso superior depois que já tinham as duas filhas. Meu pai cursou enfermagem e minha mãe, história“. Assim, as meninas aprenderam que, sem rigor e compromisso, seria difícil conquistar os objetivos. Aprenderam que afinco e dedicação romperiam as barreiras. E assim foi, após a mudança para Campinas, na nova casa dividida com colegas e na nova dinâmi- ca acadêmica. Os dois primeiros anos foram mais puxados, mas depois me adaptei. O período da faculdade foi maravilhoso, comemora.

A pediatra não pensava em fazer esta especialidade até o 5º ano, quando participou de um parto, na faculdade, e se encantou em recepcionar os bebês. Decidiu pela neonatologia, setor no qual relata ter tido a benção de ver e viver inúmeros milagres de superação dos recém-nascidos. É maravilhoso devolver aos pais uma criança que parecia que não sobreviveria. E entre as centenas de casos, Karina ressalta histórias de bebês que nasceram prematuros além do possivelmente seguro para sobreviver ou que tiveram danos cerebrais e superaram o risco de morte e cresceram saudáveis.

Médica pediatra Karina Moura Dias

E quando isso não acontece? Temos que consolar a família no seu luto, ajudar a entender o que aconteceu e saber que fizemos o que podíamos e que de um ponto para frente não era mais a atuação humana que resolveria”, explica.

Depois de formada, Karina permaneceu em Campinas. Após seu pai sofrer um infarto e, em seguida um câncer, resolveu retornar a Três Lagoas. Atualmente, atua em seu consultório, na UTI neonatal do Hospital Cassems, no plantão pediátrico em sala de parto do Hospital Auxiliadora e ainda no setor de alto risco da Clínica da Criança.

Ela avalia que a medicina, nos últimos dez anos, teve um salto de qualidade no município. Hoje, comemora a existência de especialistas dentro da pediatria, bons centros de diagnóstico e equipes mais coesas para a área.

Sobre sua rotina de atendimento a crianças, que sempre trazem uma família para a sala de consulta, ela diz que não se importa, por exemplo, com a concorrência do doutor Google, ou seja, de que pais e mães já cheguem com pré-diagnósticos

para os sintomas sentidos pelos filhos. É até bom porque, muitas vezes, já filtram as informações e antecipam os sintomas, conseguimos até prevenir melhor o avanço do problema. Mas quando a consulta à internet assusta os pais, a médica se ocupa em explicar tudo certinho e acalmá-los.

Outras dicas que Karina dá são que, normalmente problemas de saúde infantis estão ligados a questões de dinâmica familiar que corrigidas já ajudam no tratamento e que, quando possível, o ideal é matricular os filhos em escolas e creches o mais tarde possível, porque o aumento do contato sempre pode aumentar o risco de doenças. Sobre seu relacionamento com a irmã, também médica, ela diz que são muito diferentes, ao mesmo tempo em que parecem a mesma pessoa. Estamos sempre juntas e misturadas, ela é minha parceira, diz.

A MATERNIDADE DA PEDIATRA

Como a vida tem suas contradições, a própria Karina, acostumada a lutar pela vida infantil e a apoiar famílias quanto a seus filhos, enfrentou dois lutos maternos. Ela não tinha ovulação e, por isso, não conseguia engravidar. Como este era um dos seus principais desejos, a opção foi induzir a gravidez. Entretanto, ela teve um aborto espontâneo na 14ª semana de gestação. A dor e a decepção existiram, mas a vontade de tentar mais uma vez foi maior. Assim, fez nova indução e chegou a se ale- grar com uma gravidez de gêmeos. No entanto, já nas primeiras semanas houve novo aborto.

Mesmo um tanto conformada com a ideia de que não poderia ter filhos, ela conta que, certo dia, ouvindo um programa numa emissora católica, prostrou-se ajoelhada, diante de uma adoração ao Santíssimo, clamando por um bebê. Não é que mais uma vez a fé moveu a médica? Cerca de 15 dias depois, durante um plantão, sentiu desconforto estomacal e, diante da brincadeira de uma colega, fez um teste de farmácia, que confirmou a gravidez de Guilherme.

O filho não tinha nem um ano quando Karina engravidou de Jordana. Meus filhos são os meus milagres”, diz emocionada. Com apenas 18 meses de diferença de idade, as crianças são os motivos pelos quais luta para ser uma pessoa melhor, pelos quais ela programa ter mais saúde física e emocional. Minha família é meu principal projeto”.

E este projeto não diz respeito somente aos descendentes. Também envolve seus ascendentes. Exemplo é a ligação que diz ter que a mãe, Maria Dinah, uma pessoa que a inspirou para a medicina e ao modo de vida. Não sei o que seria sem minha mãe. Ela é sempre otimista, cheia de fé. Diante dos problemas, ela dá solução, nos leva a enfrentar com serenidade e certeza de que tudo vai dar certo. Assim, Karina afirma que, se for 1/3 parecida com sua mãe, estará feliz. E, como já destacamos, estes traços já estão presentes na personalidade da doutora Alegria. Temos que aprender a lidar com os problemas, porque eles não são definitivos. Aprendi com minha mãe a não gerar ansiedade em cima das dificuldades, mas a fazer o que posso, ao invés de fazer tempestade em copo d´água.

Também é dos pais e da irmã que ela recebe suporte para os cuidados com Guilherme e Jordana, diante da correria do trabalho.

OUTROS PARADIGMAS

Logo no início da entrevista, Karina se disse surpresa e muito grata pela oportunidade de ser reportagem de capa de uma revista. Nunca imaginei isso, porque não tenho nada de glamour, não sou nada badalada, mas gostei do convite, ajuda a levantar a autoestima, agradeceu.

É que a doutora Karina é uma pessoa de gostos, hábitos e visual simples, que prefere o conforto à superprodução. “Fui criada com estes padrões, com valores morais diferentes, pelos quais mais vale o ser do que o ter. O ego pode ser perigoso; quando há disputas, todos os lados perdem, diz convicta.

Por conta disso, se diverte com alguns episódios em que é apresentada a estranhos pela família e acaba ouvindo mas esta não é a médica, né? A sociedade espera que uma médica seja glamourosa. Mas eu sou desta forma, às vezes sou a quebra do paradigma”. E, entre estas formas, a taurina diz que não dispensa uma boa refeição, um excelente relacionamento honesto e respeitoso, muita atenção aos pacientes, uma boa viagem e, claro e sempre, a alegre companhia da sua família. É que o jeito Karina-Alegria de ser sempre teve outros inúmeros jeitos de validação social. Mas, somos a testemunha de que uma linda capa de revista para uma personagem de perfil tão tranquilo e simples é também uma deliciosa quebra de paradigma.

Médica pediatra Karina Moura Dias

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