Entrevista

Serviço de emergência X casos de suicídio

Será que os profissionais estão realmente aptos a acolher as vítimas?

Thais Dias - Rara Gente
20/09/21 às 13h44

Ao ano, quase um milhão de pessoas morrem em decorrência de suicídio. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o ato está entre as dez causas de morte mais frequentes em muitos países do mundo. No Brasil, são registradas 10 mil mortes por ano, com uma taxa de 4,8 a cada 100 mil habitantes, em 2020. 

 

Nos últimos 45 anos, as taxas de morte por suicídio tiveram aumento de 60% no mundo, como mostra a OMS, ficando entre as três causas de morte mais frequentes em populações de 15 a 44 anos, em alguns países, e a segunda maior causa em grupos de 10 a 24 anos, em outras regiões. Nas populações brasileiras, houve um crescimento de suicídio entre os jovens, idosos, além de uma interiorização dos casos.

Mas será que os profissionais da saúde estão capacitados como acolher estas vítimas? A psicóloga Janaina Catolino, revela que já atendeu alguns pacientes que se queixaram da falta de empatia. 

“Infelizmente é uma queixa e uma situação recorrente. Atendi uma paciente que havia ingerido altas doses de medicação, com histórico de depressão e durante o procedimento de alta, uma enfermeira disse a ela que da próxima vez que ela quisesse fazer isso, que a procurasse que ela (a enfermeira) arrumaria um medicamento que seria "tiro e queda" e ela iria conseguir o que estava tentando”. 

Janaina afirma que já atendeu outra paciente, segundo ela uma moça enviou mensagem em sua página profissional pedindo pra torcer por ela, pois ela estava internada no hospital local, havia ingerido soda cáustica e estava muito mal. Essa moça não era paciente da psicóloga e morava na cidade vizinha, estava internada sem ninguém cuidando dela, literalmente sozinha. 

"Não compete a ninguém medir ou julgar a dor do outro. O que ele sente, apenas ele sente. Então não seja o dedo que condena, mas sim, a mão estendida que ajuda”.

Quando Janaina recebeu a mensagem, imediatamente começou a conversar com a vítima que relatou que estava há três dias internada, os profissionais não haviam dado nenhum suporte, ela estava morrendo de sede e pelo fato de a soda ter queimado boca, garganta e esôfago, ela não poderia tomar água, mas amenizar a sede com pano úmido nos lábios e ninguém se preocupou em ajudá-la. Simplesmente a colocaram no quarto e a deixaram lá para que o processo de morte fosse concluído. Ao saber disso, Janaina imediatamente realizou alguns manejos para que os cuidados fossem feitos, os profissionais foram obrigados a olhar essa moça com humanidade e dar o tratamento adequado. Hoje ela conseguiu fazer a cirurgia de reconstrução do esôfago, montou o próprio negócio e mudou totalmente sua perspectiva e visão de vida. Quem passou pela situação e quem lida diretamente com casos assim, sabe que esse mau comportamento é quase unanimidade entre os profissionais.

De acordo com a psicóloga, para muitos profissionais da saúde, é inadmissível que uma pessoa "saudável" tire a própria vida enquanto muitas pessoas estão lutando para viver por conta de doenças fisiológicas, palpáveis através de exames. Porém, a pessoa que tenta contra a própria vida também está doente, apesar de não ser uma doença que seja possível diagnosticar através de exames, é uma doença emocional, psicológica e da alma. O indivíduo com transtorno ou doença mental também sofre, assim como aquele que luta contra o câncer. Nós precisamos aprender a olhar o outro com mais respeito e humanidade. Independente da dor que ele está sentindo, ele precisa de cuidado, acolhimento e humanização.

Janaina revela que o descaso com os casos pode agravar os sintomas e trazer consequências irreversíveis, como o êxito do suicídio em próximas tentativas.

“É necessário que se invista em capacitações e campanhas de orientação quanto ao que são transtornos mentais, os sintomas e consequentemente, trabalhar questões como tratamento humanizado e maneiras de acolhimento. O profissional não precisa ser psicólogo para dar o primeiro suporte, basta ser humano e enxergar o outro também como humano, com suas dores e necessidades. A ignorância é quebrada através da informação”, afirmou a psicóloga. 

Janaina concluiu que o acolhimento tem um papel fundamental nesse momento. “É importante estimular essa pessoa a procurar tratamento psicológico e psiquiátrico, não julgar a escolha nem os motivos que a levaram a tomar essa atitude, demonstrar compaixão, humanidade e empatia. Não compete a ninguém medir ou julgar a dor do outro. O que ele sente, apenas ele sente. Então não seja o dedo que condena, mas sim, a mão estendida que ajuda”.

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