Entrevista

Precisamos falar sobre igualdade de gênero

No dia Internacional da Igualdade da Mulher separamos alguns relatos que mostram que ainda temos um longo caminho a percorrer para enfim chegar a tão sonhada igualdade

Thais Dias  - Rara Gente
26/08/21 às 11h14

Nesta quinta-feira, 26 de agosto, é comemorado o Dia Internacional da Igualdade da Mulher. Neste mesmo dia, em 1973, a data foi escolhida pelo Congresso dos Estados Unidos como homenagem pelos 53 anos da aprovação da emenda que permitiu o voto às mulheres do país. Muitas já foram as conquistas em tantos anos de luta por direitos iguais aos dos homens. E, ainda assim, é importante a permanência e até o aumento dos debates sobre a causa.

Um dos âmbitos em que há maiores desigualdades de gênero é no mercado de trabalho que ainda reflete a tardia inserção feminina. No Brasil, apenas há 58 anos as mulheres conquistaram o pleno direito, perante as leis brasileiras, de exercer uma profissão. A vitória, em 1962, ocorreu com a revogação do inciso VII do Artigo 242 do Código Civil brasileiro de 1916 – em que o trabalho feminino estava sujeito à autorização do marido.

De acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), elaborada no primeiro trimestre deste ano pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as mulheres correspondem a maior parte da população fora da força de trabalho (formal ou informal), sendo 64,5% das pessoas.

"Quando um homem vai para uma entrevista de emprego, fazem essas perguntas? Trabalhei por alguns anos e resolvi sair para cuidar da minha família, faço o que amo, sem ter julgamentos do que vou fazer com meus filhos”

Ouvimos relatos de algumas mulheres que passaram e passam por desigualdade pelo simples fato de serem do gênero feminino. A artesã Aline Araújo, revela que em uma entrevista o recrutador realizou perguntas sexistas por ela ser mãe “Quando fui chamada para fazer entrevista a primeira pergunta era se sou casada e depois se tinha filhos, respondi que sim, na sequência questionou o que eu iria fazer se não tivesse creche, fiquei alguns segundos pensando em uma resposta que não fosse grosseira e respondi que ficaria com o pai ou com a avó.

Fiquei me perguntando quando um homem vai para uma entrevista de emprego, fazem essas perguntas? Trabalhei por alguns anos e resolvi sair para cuidar da minha família, hoje sou artesã, cuido da minha família e ainda faço o que amo, sem ter julgamentos do que vou fazer com meus filhos”, afirmou.

Aline se inspirou em seus filhos para confeccionar pantufas de fio de malha, pois eles não param de sapato no frio e hoje é um dos produtos que mais vende. 

“Me emociono em lembrar essa passagem de minha vida, porque o recrutador agiu como se meus filhos fossem um obstáculo na vida profissional, eles são minha força, sempre que faço uma peça eles ficam felizes me incentivando sempre”, relatou a artesã. Siga o trabalho dela nas redes sociais @alineeartesanato

"Quando olham minha unha comprida sempre questionam como eu dou conta de fazer o que eu faço, eu afirmo que o que impede é a força de vontade e não o gênero, somos todos capazes de fazer qualquer coisa”, afirmou Thalita. 

Thalita Peretto, que trabalha no ramo da celulose há algum tempo relembra momentos constrangedores que passou e ainda passa na indústria “O ramo da indústria ainda é muito masculinizado, já ouvi da antiga gestão de onde eu trabalhava como eu justificaria minha promoção lá dentro sendo mulher por mais que eu tivesse eficiência no que eu fizesse ele não poderia me promover, a não ser se eu engravidasse, porque eu engravidando ficaria seis meses em outra função assim ele não poderia me voltar a antiga e eu seria promovida.

Meus companheiros de equipe quando entrei por ser bem nova – na época com 18 anos- não era comum ter mulher na área que eu trabalho e eles falavam ‘você sabe que foi contratada aqui para limpar nosso lixo, porque você não tem capacidade de trabalhar de igual para igual conosco, pois mulher dentro de fábrica só serve para servir café , ou trabalhar na faxina, o melhor cargo que você conseguiria era trabalhar no RH (recursos humanos), na parte de comunicação, porque trabalhar no processo químico tem que ser homem’.

É muito complicado a igualdade de gênero, sofro bastante até hoje. Opto por trabalhar com roupas mais masculinas, pego o uniforme masculino para evitar ser vista como um corpinho, para não acharem que quero chamar a atenção e as coisas serem mais fácies por ser mulher, acham que mulher não dá conta. 

Isso é algo muito recorrente, é sempre uma provação! Meu antigo gestor falava que eu precisava fazer 110/130/140% para compensar ter mulher na indústria, porque mulher é mais fraca, mais sensível. 

Eu faço questão de realçar minha feminilidade, uso unha comprida, faço extensão de cílios, estou sempre arrumada, procuro estar mais feminina possível, porém usando uniformes masculinos porque por mais que eu esteja ‘camuflada’ quando olham minha unha comprida sempre questionam como eu dou conta de fazer o que eu faço, eu afirmo que o que impede é a força de vontade e não o gênero, somos todos capazes de fazer qualquer coisa”, afirmou Thalita. 

Minha vida pessoal não tem nada haver com meu desempenho profissional

Peretto continua no ramo da celulose e por mais que nunca tenha se envolvido amorosamente com alguém de seu trabalho por questões de ética isso também é questionado por seus colegas de trabalho. “Brinco que os caras que trabalham comigo são mulheres e de mulher já basta eu, na empresa que trabalhava espalhavam comentários que eu era lésbica, que era casada com uma mulher e por isso não tinha engravidado ainda, não tinha filhos e nunca levava meu suposto marido para as confraternizações. Mas minha mãe na época morava comigo e ela era doente eu precisava cuidar dela, infelizmente minha mãe faleceu há dois anos e por este motivo eu sai da antiga empresa e hoje na atual a gestão é mais focada no plural, na inclusão. 

Minha vida pessoal não tem nada haver com meu desempenho profissional, nada irá afetar meu desempenho se eu fico com homens, com gays ou travestis, isso não deveria afetar em nada minha imagem dentro da empresa” concluiu Thalita. 

"É se colocar como prioridade mesmo e não abaixar a cabeça, não se deixar ser interrompida, se impor, falar mesmo, ser vista. e combater qualquer piadinha, qualquer comentário em relação ao gênero que te deixe desconfortável”, afirmou Galli.

A jornalista Daniela Galli, afirma como as mulheres já nascem imersas na desigualdade de gênero  “Acho que a gente já nasce de forma desigual, mas quando você é criança não tem muita consciência disso. É aquela coisa do ‘seu irmão pode por que é menino’, ou ‘não diga isso porque é feio pra uma menina’. 

Mas a primeira vez que eu senti essa diferença foi de uma forma muito sutil. Eu tinha separado do meu ex marido e fui fazer a matrícula da Juju na escola. Eu que fui, eu que comprei uniforme, paguei a matrícula, levei material escolar, preenchi todas as fichas. 

Quando veio o primeiro boleto, estava no nome do Rafa – seu ex esposo- sendo que eu mesma tinha me colocado como responsável financeira na ficha. As pessoas assumem que é sempre o homem que vai pagar a mensalidade e nunca as mulheres. Eu tive que pedir duas vezes pra trocar e ter o pedido atendido.

Na entrevista do mestrado eu disse que era casada e perguntaram se eu pretendia engravidar, por que o filho iria atrapalhar o andamento da pesquisa. Eu já estava grávida e, por medo, eu menti e falei que não. 

Quando eu comecei a trabalhar na TV em Andradina-SP a entrevista com a pessoa do RH foi a mais clássica de todas: ‘você tem filhos? quem cuida deles quando você não está? tem com quem deixar? se ficar doente você vai faltar?’ 

Isso é tão enraizado dentro da gente que a gente não questiona esse tipo de pergunta. Mesmo sabendo que eles não fariam esse tipo de questionamento para os homens. A gente simplesmente cede e responde. 

Eu acho que a mudança tem que vir de nós, temos sim que questionar ‘porque está perguntando isso pra mim? por que ele pode e eu não? qual é a diferença?’

É se colocar como prioridade mesmo e não abaixar a cabeça, não se deixar ser interrompida, se impor, falar mesmo, ser vista e combater qualquer piadinha, qualquer comentário em relação ao gênero que te deixe desconfortável”, afirmou Galli.

"A partir do momento que os homens não precisam se afirmar como profissionais, nós mulheres do agronegócio precisamos nos reafirmar todo o tempo, principalmente nas nossas capacitadas técnicas”.

Ana Paula Segatelli, engenheira agrônoma, que trabalha em um ambiente que 60% é do gênero masculino relata como se sente “Nós mulheres sofremos muito preconceito, o machismo é muito imperado no agronegócio principalmente com alguns produtores. A partir do momento que os homens não precisam se afirmar como profissionais, nós mulheres do agronegócio precisamos nos reafirmar todo o tempo, principalmente nas nossas capacitadas técnicas”.

Em um breve relato, Segatelli diz: “Meus primos e eu herdamos uma pequena propriedade de meu avô paterno, onde houve uma grande resistência da família para que eu não assumisse o negócio simplesmente por acharem que meus primos tinham mais força, saberiam lidar com gado, saberiam lidar com essas coisas do campo. A mulher no agronegócio tem que ter muita resiliência”, concluiu Ana Paula. 

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