Há um princípio sobre a Lei da Semeadura, que em resumo, diz que colhemos o que plantamos. Da semeadura até a colheita passam-se dias, meses, anos... Isso quer dizer, caro leitor, que nossas sementes, na forma de erros e acertos, escolhas e renúncias, estão caindo no chão hoje para gerar frutos que serão colhidos daqui a 1, 2, 5, 10, 15… 30 anos.
A artista plástica Branca Emy Tanaka é uma semente da lendária cerejeira - conhecida como ‘sakura’ - não somente pela origem asiática, mas por seu significado: a efemeridade da vida. Assim, ela nos deixa a lição de que se deve aproveitar ao máximo cada momento, procurando estar plenamente presente, visto que a vida é curta e tudo passa tão rápido. “Sempre quis ser uma semente do bem, tenho uma necessidade espiritual incrível. Passei esse ensinamento até para os meus netos. Digo para as minhas filhas que uma das obrigações dos pais é semear a bondade. Esta é uma força que engrandece o ser-humano e o mundo onde ele vive”, diz a artista enquanto passávamos uma tarde falando sobre histórias de vida, espiritualidade, arte, dores e paixão.
Filha de imigrantes japoneses - o respeitadíssimo artista plástico japonês Shigeto Tanaka, e a pintora retratista Shigeko Tanaka – Branca nasceu no dia 27 de janeiro de 1947 na cidade de São Paulo, capital. Tal qual Fernando Pessoa, morou em mais de 30 casas diferentes, algumas delas no Japão e em Portugal. A primeira mudança de lar surgiu aos nove anos quando se mudou de São Paulo para Campinas em um colégio interno de freiras. “Fui uma órfã de pais vivos. No fim, não passávamos nem os natais juntos. A impressão que eu tenho da minha infância é muito vazia... Muito triste, porque sempre tive necessidade de família”.
Lá, foi apresentada à verdadeira solidão; ao anoitecer sentia medo do escuro e encontrava conforto nos cantos gregorianos que ecoavam nos imensuráveis corredores. “Até hoje tenho essas lembranças bem vivas, quando escuto essas canções eu me transporto”. Ainda que tão jovem, aprendeu a substituir o medo e a insegurança pela resiliência e a fé infinita.
Apegou-se ao lado espiritual para ter paz, como também utilizou suas habilidades perspicazes de criança para lidar com a fase difícil. “A única força que eu podia recorrer era a espiritual. Fui criada nesse colégio de freiras, por esta razão, a minha crença era baseada naquele catecismo antigo sobre temer a Deus e não amar a Deus. Aos dez anos de idade eu tinha de confessar pecados. O que uma criança nessa idade tem de pecado? Toda semana tínhamos de confessar na capela, e eu impaciente pensava ‘o que eu vou inventar dessa vez?’, então criei uma listinha de tudo que poderia ser pecado de criança. Toda semana eu inventava formas de resolver os meus problemas”.
Branca expõe que nasceu pensando, refletindo e questionando a vida. Era a criança dos ‘por quês’, mas como não havia ninguém para conversar questionava a si. “Lembro-me aos sete anos, estava deitada me perguntando por que eu tinha um vazio dentro de mim, isso antes de ir para o internato. Eu morava com os meus pais, mas estava sempre sozinha”.
Criativa, habitualmente refletia sobre a existência, a engrenagem cósmica e onde se encaixava no mundo, por este motivo, criava fantasias de diferentes vidas. “Eu tinha de viver alguma coisa, como eu não tinha nada, estava sempre criando um lugar, pessoas, ou fantasias. Quando jovem queria ser a mulher-maravilha para salvar o mundo, para ter força, para ser a salvadora. Nesse ínterim, passei por muito sofrimento. Dada época, tinha que realmente ser uma mulher-maravilha. Pela minha sobrevivência e pelas minhas filhas. Aquela imagem de jovenzinha fantasiada para mim, no fim, foi uma realidade que eu tive de viver para poder sozinha criar minhas filhas e sobreviver”.
Sob o ponto de vista da cerejeira, símbolo de renovação e vitalidade – que surge em belas florações após a despedida do inverno, do frio, da neve e das cores pálidas que compõe a estação – Branca cultivou as suas sementes e após anos de inverno floreou-se a esperança. “Nunca gostei de ficar olhando para o passado, olhando para trás, nunca voltei a morar no mesmo lugar, eu não gosto. Gosto de tudo assim: para frente e para cima!”.
