Entrevista

O semear das cerejeiras

Nossa capa da edição 95 respira arte, cultura e amor. Majestosa como uma cerejeira, esta história também simboliza a renovação e a esperança. Assim como a lendária árvore nipônica

Rara Gente - Da redação
13/12/21 às 10h00

Há um princípio sobre a Lei da Semeadura, que em resumo, diz que colhemos o que plantamos. Da semeadura até a colheita passam-se dias, meses, anos... Isso quer dizer, caro leitor, que nossas sementes, na forma de erros e acertos, escolhas e renúncias, estão caindo no chão hoje para gerar frutos que serão colhidos daqui a 1, 2, 5, 10, 15… 30 anos.

A artista plástica Branca Emy Tanaka é uma semente da lendária cerejeira - conhecida como ‘sakura’ - não somente pela origem asiática, mas por seu significado: a efemeridade da vida. Assim, ela nos deixa a lição de que se deve aproveitar ao máximo cada momento, procurando estar plenamente presente, visto que a vida é curta e tudo passa tão rápido. “Sempre quis ser uma semente do bem, tenho uma necessidade espiritual incrível. Passei esse ensinamento até para os meus netos. Digo para as minhas filhas que uma das obrigações dos pais é semear a bondade.  Esta é uma força que engrandece o ser-humano e o mundo onde ele vive”, diz a artista enquanto passávamos uma tarde falando sobre histórias de vida, espiritualidade, arte, dores e paixão.

Filha de imigrantes japoneses - o respeitadíssimo artista plástico japonês Shigeto Tanaka, e a pintora retratista Shigeko Tanaka – Branca nasceu no dia 27 de janeiro de 1947 na cidade de São Paulo, capital. Tal qual Fernando Pessoa, morou em mais de 30 casas diferentes, algumas delas no Japão e em Portugal.  A primeira mudança de lar surgiu aos nove anos quando se mudou de São Paulo para Campinas em um colégio interno de freiras. “Fui uma órfã de pais vivos. No fim, não passávamos nem os natais juntos. A impressão que eu tenho da minha infância é muito vazia... Muito triste, porque sempre tive necessidade de família”.

Lá, foi apresentada à verdadeira solidão; ao anoitecer sentia medo do escuro e encontrava conforto nos cantos gregorianos que ecoavam nos imensuráveis corredores. “Até hoje tenho essas lembranças bem vivas, quando escuto essas canções eu me transporto”. Ainda que tão jovem, aprendeu a substituir o medo e a insegurança pela resiliência e a fé infinita.

Apegou-se ao lado espiritual para ter paz, como também utilizou suas habilidades perspicazes de criança para lidar com a fase difícil. “A única força que eu podia recorrer era a espiritual. Fui criada nesse colégio de freiras, por esta razão, a minha crença era baseada naquele catecismo antigo sobre temer a Deus e não amar a Deus. Aos dez anos de idade eu tinha de confessar pecados. O que uma criança nessa idade tem de pecado? Toda semana tínhamos de confessar na capela, e eu impaciente pensava ‘o que eu vou inventar dessa vez?’, então criei uma listinha de tudo que poderia ser pecado de criança. Toda semana eu inventava formas de resolver os meus problemas”.

Branca expõe que nasceu pensando, refletindo e questionando a vida. Era a criança dos ‘por quês’, mas como não havia ninguém para conversar questionava a si. “Lembro-me aos sete anos, estava deitada me perguntando por que eu tinha um vazio dentro de mim, isso antes de ir para o internato. Eu morava com os meus pais, mas estava sempre sozinha”.
Criativa, habitualmente refletia sobre a existência, a engrenagem cósmica e onde se encaixava no mundo, por este motivo, criava fantasias de diferentes vidas. “Eu tinha de viver alguma coisa, como eu não tinha nada, estava sempre criando um lugar, pessoas, ou fantasias. Quando jovem queria ser a mulher-maravilha para salvar o mundo, para ter força, para ser a salvadora. Nesse ínterim, passei por muito sofrimento. Dada época, tinha que realmente ser uma mulher-maravilha. Pela minha sobrevivência e pelas minhas filhas. Aquela imagem de jovenzinha fantasiada para mim, no fim, foi uma realidade que eu tive de viver para poder sozinha criar minhas filhas e sobreviver”.

Sob o ponto de vista da cerejeira, símbolo de renovação e vitalidade – que surge em belas florações após a despedida do inverno, do frio, da neve e das cores pálidas que compõe a estação – Branca cultivou as suas sementes e após anos de inverno floreou-se a esperança. “Nunca gostei de ficar olhando para o passado, olhando para trás, nunca voltei a morar no mesmo lugar, eu não gosto. Gosto de tudo assim: para frente e para cima!”.

“Tudo que eu mais amei na vida, verdadeiramente, foi a maternidade”

ATO DE CRIAÇÃO

A angústia, o misto de ansiedade, medo e frustração, é um dos sentimentos mais difíceis de suportar. Todavia, é a marca registrada dos artistas. Uma obra de arte, qualquer que seja sua forma de manifestação, é fruto de muito trabalho, estudo, concentração e autodisciplina. Por isso, o poeta Carlos Drummond de Andrade sabia o que estava dizendo ao constatar: “A obra de arte é o resultado feliz de uma angústia contínua”.

“Eu não pude fugir deste mundo. Muitos dizem ‘que delícia’, mas não é fácil ser artista. Muito menos ser filho ou amigo de artistas, porque ninguém entende a gente. Se você debulhar a vida, ver detalhes, o processo, o caminhar, é muito difícil”, reitera.

Conforme Branca, no momento da inspiração, angustia-se, principalmente, ao procurar a melhor forma de expressão. Durante a execução, preocupa-se em não omitir nenhum detalhe, qualquer nuance que dê beleza ao que está executando. E ,concluída a produção, fica-lhe sempre um sentimento vago, de que não era daquela maneira que queria que a obra fosse.

“As pessoas só veem o resultado. Tem quadro que parece que a minha alma, meu espírito quer fugir do meu corpo! É sofrimento, é uma briga comigo, porque eu sou perfeccionista. Se eu não chego ao que eu quero eu fico atormentada. Se me falarem ‘Branca, isso é impossível!’, daí que eu quero. Sempre pensei, se é possível qualquer um faz, eu não preciso perder tempo”.

Criar, dar forma e substância ao que existe apenas na imaginação é, sobretudo, descobrir mundos, às vezes fascinantes e outras, assustadores. Portanto, é ousar. É ter coragem para aceitar o risco do ridículo. É desafiar o sistema vigente com alguma novidade que muitas vezes choca a sensibilidade alheia, mas não raro encanta, deslumbra e embevece. “O artista não pode ficar sentando esperando as glórias, tudo na vida é preciso trabalhar. Você tem que ter uma rede de pescas para lançar e juntar o que for necessário para a sua sabedoria, uma varinha só não adianta”.

“O mundo da arte é complicado, o artista tem um universo dentro de si, uma tormenta de alma que não tem explicação. Então eu entendo o porquê dos meus pais terem sido assim, eu só não fui igual por causa dos meus anseios de querer ser mãe. E tudo que eu mais amei na vida, verdadeiramente, foi a maternidade”.

“Se me falarem ‘Branca, isso é impossível!’, daí que eu quero. Sempre pensei: se é possível qualquer um faz, eu não preciso perder tempo”

TODOS POR UM E UM POR TODOS

Sim, ela não nega e tem orgulho em dizer: “Amo ser mãe!” Não há como explicar o essencial da existência dos filhos para ela. Pois em cada estágio de seus desenvolvimentos ela redescobriu sua capacidade de admiração, sua ternura e sensibilidade anestesiada. 

Os filhos redefiniram a palavra felicidade do seu dicionário e a fizeram entender o que é o amor verdadeiro. Branca se dotou de uma força e coragem incomparáveis quando se tornou mãe. E, fundamentalmente, teve incutido em si o dom do sacrifício.

“Eu nasci para ser mãe. Não queria saber de marido, isso ou aquilo, queria ser mãe! Mas eu não sabia que era o preço mais alto que eu tive de pagar para tornar esse sonho real. Fui mãe solteira e criei sozinha com medo de errar”, afirma.
Branca confessa ter sido uma mãe muito rígida e brava, porém, fazia de tudo para proteger as suas meninas: Patrícia Tanaka Angeli Galvani, Marjorie Tanaka Angeli Gimenes, Graziela Tanaka Angeli Dionísio e Priscilla Tanaka Angeli Rinaldi. Ela enxergava em cada filha uma lição de vida: amizade, conciliação espiritual, amor e determinação.

Por elas, voltou a concluir os estudos do Centro Universitário Belas Artes nas Faculdades Integradas Teresa D’Ávila em Santo André - havia trancado aos 17 anos quando casou e tornou-se professora no mesmo colégio das filhas. “No fim, três delas também acabaram fazendo a mesma faculdade de artes, somente a Priscila fez Direito”.

Ela conta que as filhas tiveram de amadurecer e entender situações conflitantes desde muito cedo, no entanto, todas são muito unidas e ajudam umas as outras, não é a toa que o lema da família seja ‘Todos por um e um por todos’. “Nós cinco tínhamos esse lema para tudo... Dizíamos umas as outras, ‘qual é nosso lema? ’ ‘Todos por um e um por todos’. Isso quando elas ainda eram pequenininhas”. Em suma, a maternidade não é uma jornada linear e estática. Ela é gangorra, feita de dias bons e dias ruins, e neste processo a artista aprendeu muitas lições, destas que não se aprende nos livros.


“Eu perdoei todo mundo, a minha mãe, o meu ex-marido, a outra mulher. Porque eu não quero guardar lixo dentro de mim. Eu rezo por eles”

A COLHEITA

Tempos após o divórcio ela decidiu fazer a viagem que sempre sonhou, o destino era Paris, terra dos seus ídolos Van Gogh e Salvador Dalí. Em uma das suas visitações recebeu um chamado, o que a fez adiantar a viagem de volta. “Quando estava em Paris, subi até uma igreja, entrei e me veio uma sensação, como se algo estivesse prestes a acontecer. Adiantei a volta, marquei minha passagem e liguei para casa, logo minha filha atendeu perguntando: ‘mãe, nós podemos ajudar nossos irmãos? ’ e eu respondi que lógico, eu sempre ensinei isso ‘nunca tenha raiva dos seus irmãos porque nós não sabemos o dia de amanhã’.

Eu que  não sabia o dia de amanhã, na verdade, a atual do meu ex-marido havia falecido e deixado os filhos. “Quando cheguei ao aeroporto estava lá, meu ex-marido, as crianças dele - o menorzinho com uma rosa para mim - e todos me esperando. Eu pensei... ‘O que é isso? ’. Ao chegar a minha casa e abrir a porta, soube que eles estavam morando lá e já estavam matriculados na escola que eu dava aula. Quem que foi adotada no caso? Eu!”.

O time ‘todos por um’, então, integrou novos participantes: Cássia Claudia Queiroz Flores, Péricles W. Carvalho Angeli Júnior e Victor Cezar Flores Ageli. Daí por diante, somaram-se os amores, a felicidade e até as dores... Eles foram a lição de superação, e nunca mais houve o sentimento de estar só no mundo. Todos se completam. “Hoje eu sou tão feliz! Eu pensava ‘vou passar por tudo isso’, mas serei uma velha feliz, louca e amada.

E eu tenho certeza que estou atingindo isso porque todos os meus netos me amam, meus filhos são meus melhores amigos. Estou tão orgulhosa de mim! Principalmente porque eles não se lembram de nenhum sofrimento!”. Desse modo, segundo Branca, a sua semeadura foi muito auxiliada por Deus. Ela que não teve exemplo materno, criou um para os seus filhos, ela que por vezes sentiu-se sozinha estava rodeada de pessoas maravilhosas. Um dos segredos dessa guinada? O perdão. Perdoar não significa esquecer. Significa livrar o coração do terrível peso da amargura e permitir-se evoluir independentemente dos acontecimentos passados. Assim, ela olhou para o seu passado com amor e o futuro agradeceu.

“Eu perdoei todo mundo, a minha mãe, o meu ex-marido, a outra mulher. Porque eu não quero guardar lixo dentro de mim. Eu rezo para eles. E eu quero que meus filhos tenham esse desprendimento de problemas, de traumas, de mágoas. De tanto sofrimento eu consegui tirar uma parte boa, porque hoje eu sou vazia das raivas e das dores. Não tem coisa melhor do que estar em paz consigo e saber que você ainda tem forças para fazer algum bem para alguém. Hoje, aos 75 anos, sou como o vento... Vou passando pelos lugares, tocando pessoas, e por onde eu passo procuro deixar alguma coisa boa”.

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