Na infância, Leticia Sanches, 36 anos, gostava de brincar usando os vestidos da mãe. Certo dia, a avó flagrou o momento e, curiosa, disse: “Edna do céu, cheguei em casa e a criança estava usando seu vestido de noiva!”.
As memórias são de Edna Sanches, 61 anos, e poderiam ser de qualquer outra mãe - não fosse um detalhe que marcou toda a sua relação com a maternidade: Leticia é transexual.
Natural de Andradina, ela viveu parte da adolescência em Três Lagoas - cidade onde ‘renasceu’. “Mudei-me para o município no comecinho da minha adolescência e foi aqui que despertou todo o caminhar. A Letícia é três-lagoense” – brinca a filha.
Atualmente Letícia mora em São Paulo; mãe e filha se falam por telefone todos os dias... Nas visitas matam a saudade. Por falar em visita, nossa entrevista foi feita em seu último dia de férias em Três Lagoas, contando histórias enquanto ela passava os olhos pela casa, vivenciando todos os momentos de alegria e também de dor.
“Nós somos muito ligadas; não há nada que eu não conte para a minha mãe; ela é minha amiga e confidente. Se hoje tenho o desejo de crescer profissionalmente é para ela me olhar e sentir orgulho do que eu me tornei e do que venho me tornando” – diz.
O amor entre elas não é perceptível somente nas palavras; quem vivencia, percebe os olhares carregados de respeito; os gestos afetuosos... Suas vidas sempre foram assim - uma segurando a mão da outra. “A Letícia me ensinou muitas coisas; uma delas é ver tudo com mais naturalidade. Vivemos de uma maneira mais leve, porque nos momentos difíceis deixamos aflorar aquilo que tínhamos de sobra... O amor” - afirma a mãe.
O apoio está no sangue da família. Miguel, o pai prestativo e carinhoso, também foi essencial e sempre se fez presente. A irmã, Juliana, é citada como um de seus portos-seguros e responsável por tê-la presenteado com uma nobre missão... A de ser madrinha do seu filho. “A simbologia de madrinha é ser a segunda mãe. Eu, como não posso ter filhos, recebi o convite como um grande presente” - conta Letícia, emocionada.
Por vezes, as pessoas transexuais não são acolhidas no seio familiar como Letícia; ela se diz privilegiada por receber esse acolhimento das pessoas próximas. “Isso, de certa forma nos encoraja e nos dá forças para seguirmos e não nos perdermos - porque o mundo é muito cruel. Se hoje eu tenho uma base, devo muito à minha família”.
O aflorar feminino foi percebido desde que a filha era uma criança. Ela pedia por uma boneca, dizendo que era o seu grande sonho; chegou a escrever uma cartinha para o Papai Noel descrevendo o desejo, não sabendo que eram os pais que recebiam essas cartas. “Infelizmente, eu não a ganhei. Depois da minha transformação, no meu aniversário, ela me deu a boneca; foi lindo – e, até hoje eu guardo no meu quarto; é o meu xodó”.
Letícia revelou-se transexual aos 14 anos; ela se recorda que a grande preocupação naquele momento era magoar a mãe; no entanto, a reação foi o contrário do esperado. “Quando eu contei para a minha mãe, ela me abraçou e falou: ‘A mãe sempre soube disso; eu só estava esperando você ter o seu momento de me contar; eu sou a sua melhor amiga; estarei sempre do seu lado’”.
“No começo é difícil, porque ela poderia sofrer muito; eu só pensava nisso - no que o mundo poderia fazer com ela” - completa a mãe.
Edna e sua filha Letícia enfrentaram juntas uma trajetória de aprendizado, superação e, principalmente, empatia; afinal, onde há amor, não há espaço para o preconceito.
“Para mim, nunca tive um filho menino. Pensava a gestação inteira que seria uma menina e foi o que aconteceu: ganhei duas filhas” – destaca Edna.