Entrevista

Brasil vive intenso momento de protestos após assassinato de João Alberto

João Alberto Silveira Freitas, homem negro de 40 anos, foi assassinado por seguranças brancos do Carrefour às vésperas do Dia da Consciência Negra.

Redação
23/11/20 às 07h51

João Alberto Silveira Freitas, homem negro de 40 anos, foi assassinado por seguranças brancos do Carrefour às vésperas do Dia da Consciência Negra. O caso aconteceu em Porto Alegre e tornou-se o assunto mais comentado do Brasil esta semana, gerando uma enorme onda de protestos. Ele foi espancado em pleno estacionamento e morto no local.

Por todo o país, pessoas se reuniram em unidades da empresa. Nas redes sociais, imagens dos protestos rapidamente se espalharam, além de todo o tipo de manifestação contra o racismo. Novamente a hashtag #VidasNegrasImportam é uma das mais usadas. Na internet e em cartazes, a frase “parem de nos matar” também ganhou força total entre manifestantes negros.

A declaração do vice-presidente Hamilton Mourão, dizendo que não há racismo no Brasil, também gerou enorme repercussão. “No Brasil não existe racismo, isso é uma coisa que querem importar”, disse ele ao ser questionado sobre a morte de João Alberto.

Análises iniciais dos departamentos de Criminalística e Médico-Legal do Instituto-Geral de Perícias do Rio Grande do Sul apontam que João Alberto provavelmente morreu por asfixia. Como não poderia deixar de ser, o caso vem sendo comparado ao de George Floyd – homem negro morto por policiais brancos nos Estados Unidos em maio. Ele também foi asfixiado. Outra semelhança é o fato de que o crime foi filmado e o vídeo se espalhou rapidamente, não deixando dúvidas sobre a brutalidade do ato.

Ainda na sexta-feira (20), o presidente global do Carrefour, o francês Alexandre Bompard, se manifestou sobre o caso através do Twitter. Em português, ele escreveu que as imagens do assassinato “são insuportáveis”.

“Eu pedi para as equipes do Grupo Carrefour Brasil total colaboração com a Justiça e autoridades para que os fatos deste ato horrível sejam trazidos à luz”, diz Bompard. Ele também garante que “medidas internas foram imediatamente tomadas” em relação às empresas de segurança contratadas pelo Carrefour.

No Brasil, a empresa emitiu uma nota oficial, informando que o dinheiro de todas as vendas das lojas Carrefour Hipermercados, realizadas no dia 20, será doado para organizações do movimento negro. “Nada trará a vida de João Alberto de volta, mas estamos certos de que este momento de profundo pesar se converterá em ações concretas que impedirão que tragédias como essa se repitam”, diz o comunicado.

Neste sábado (21), o velório de João Alberto iniciou-se às 8h e seu corpo foi enterrado às 11h30, em Porto Alegre. Ele deixa a companheira, Milena Borges Alves, e quatro filhos: Thais Alexia, de 22 anos, Taynara, 16, João Alessandro, 15, e Desiree, de 9. Ele e Milena se casariam em dezembro.

Durante a despedida, amigos e familiares pediram por justiça. “Parecia que estavam jogando um pedaço de carne no chão. Mesmo que ele estivesse errado, nada justifica esse tratamento. Espero que a justiça seja feita. Não é justo que, daqui a seis meses, eles (dois seguranças) estejam na rua novamente. A morte dele é para chamar atenção, só quem não tem coração não vai dar bola para isso”, disse a filha Thais, em entrevista ao Estadão.

 

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