Saúde e Bem estar

Quando os pais se tornam filhos

Assim é o ciclo da vida: somos cuidados e temos alguém que zela pela nossa saúde, mas em determinado momento os papeis se invertem

Rara Gente - Da redação
05/01/22 às 13h00

Assim é o ciclo da vida: somos cuidados e temos alguém que zela pela nossa saúde, mas em determinado momento os papéis se invertem e cabe a nós todas as decisões sobre aqueles que protagonizaram nossa criação.

Com o processo de aumento da longevidade, é esperado que o número de pessoas que vivem com algum tipo de doença neurodegenerativa também se eleve. No caso da demência, por exemplo, a projeção é que o diagnóstico triplique de 50 milhões para 152 milhões até 2050, segundo a OMS – Organização Mundial da Saúde. 

Isso, porque a chance de desenvolver doenças degenerativas cresce conforme a idade avança, e os novos quadros já correspondem a 55 mil diagnósticos por ano. Nesse contexto, quando uma mãe ou um pai se torna totalmente dependente de atenção e auxílio, além de aceitação e entendimento, é preciso que o filho desenvolva habilidades que não são ensinadas na escola e nem são muito difundidas na sociedade. 

A situação frequentemente é encarada com surpresa, uma experiência não normativa, geradora de estresse, tensão e adaptação. Mas também pode ser vista como brecha para uma retribuição madura e espontânea, dependendo dos sentimentos e das relações estabelecidas até ali. 

“Quando um dos pais se torna dependente de quem eles mesmos cuidaram, é preciso que o filho desenvolva muita compreensão, aceitação e paciência”, diz a psicóloga Janaína Catolino reiterando que a dinâmica familiar tem um peso muito grande nesse momento. “Se a relação entre pais e filhos foi construída baseada no cuidado, no amor e no respeito, muitos filhos encaram essa oportunidade como uma maneira de retribuir tudo o que lhes foi feito. Já, se a relação foi traumática, desrespeitosa e afetivamente negativa, cuidar dos pais pode gerar situações extremamente conflitantes e os filhos podem encarar esse novo processo como um fardo, uma prisão ou até mesmo uma oportunidade para se vingar do que ele recebeu anteriormente”.

NINGUÉM NASCE PRONTO

A dinâmica e a história familiar costumam influenciar bastante em situações de filhos cuidando dos pais. A Facilitadora de Processos de Autoconhecimento, Rosária Catananti reitera a fala da psicóloga e destaca que quando os pais, em algum momento, necessitam dos cuidados dos filhos, pode gerar diversas situações, tanto de grandes aprendizados e muita gratidão, quanto de grandes conflitos e muita confusão. “Entre tantas situações, há exemplos de verdadeiras curas em relacionamentos dolorosos entre filhos e seus pais, por outro lado, há incontáveis casos de pais abandonados e de desentendimentos entre os irmãos quando alguns se recusam a assumir suas responsabilidades. 

Ou seja, existem situações que podem promover o fortalecimento dos vínculos familiares, bem como grandes afastamentos e emaranhamentos – situação complexa e confusa de afeto dentro de um sistema familiar - com muito sofrimento”. Rosária ainda evidencia os fios que compõe a trama dos filhos que não tiveram bons relacionamentos com os pais e se veem na posição de cuidar deles. “Se um filho não está com seu passado bem resolvido em relação aos seus pais e seu lugar nas relações, se está emaranhado em suas dores e traumas do passado, quem está atuando não é o adulto, mas sim a criança interna ainda querendo mudar o passado, ainda desejando que seus pais tivessem feito diferente; ou querendo salvar os pais de seus destinos difíceis”.

“Esses filhos podem se esquivar de suas responsabilidades, alegando diversas razões, por não conseguirem lidar com os próprios conflitos internos ou muitas vezes tomam para si responsabilidades que não lhes cabem, como resolver problemas emocionais de seus pais, querer mudar seus pais, e muitas vezes desejar que eles os ‘obedeçam’, como se fossem melhores ou maiores que os pais”.

A psicóloga Janaína completa dizendo que até as relações saudáveis entre as famílias correm o risco de sofrerem um abalo se não forem bem trabalhadas. A situação, segundo ela, pode gerar negação e frustração pelas mudanças que devem ocorrer dali em diante e pelos filhos terem que assumir novos papéis e tarefas nessa conjuntura de cuidados. “Nós sabemos que esse momento irá chegar, mas quando acontece, sempre somos pegos de surpresa. É muito
comum a troca de responsabilidades assustar e com isso, surgir um sentimento de não estar pronto. Cuidar de si e do outro é sim um processo complexo, mas possível”, afirma Janaína.

Segundo a psicóloga para que isso aconteça da maneira mais leve possível, é necessário compreender que o processo de envelhecimento é natural e que a dependência pode fazer parte desse processo. “Nesse momento de transição, é importante procurar a ajuda de um profissional para tratar e analisar a maneira que os pais e filhos estão lidando com essa nova fase”.

PROCESSO SAUDÁVEL

É difícil aceitar que nossos pais envelheçam, demora até aceitarmos que não são mais os mesmos - quem dirá ‘super-heróis’! Não se pode dividir toda angústia e todos os problemas porque, para eles, as proporções são ainda maiores e então o organismo se desregula: o ritmo cardíaco, a pressão, a taxa glicêmica, o equilíbrio emocional, entre outros fatores. Assim, os filhos vão ficando um pouco ‘cerimoniosos’ por amor. Tentando poupar-lhes do que é evitável, e sem querer, começam a inverter os papéis de proteção. Passa-se a tentar resguardar os pais dos abalos do mundo.

Mas então, o que fazer para que este processo seja saudável? Conforme a facilitadora, filhos com maturidade, ou seja, bem resolvidos com seu passado, fazem o que precisa ser feito em relação ao que podem oferecer aos pais, sem que isso dificulte seus cuidados e responsabilidades com suas próprias vidas. “São filhos que têm consciência de suas responsabilidades e também de seus reais limites. Têm discernimento e tomam as decisões de tal forma que a vida possa fluir naturalmente, como precisa fluir, da maneira mais saudável possível: seja cuidando em sua casa ou na casa dos pais; seja contratando serviços profissionais ou mesmo internando-os em Casa de Repouso - quando essa for a melhor alternativa para todos”, diz.

Rosária também orienta que para o processo ser pacífico é necessário respeitar a hierarquia familiar e explica o conceito na visão da Constelação Familiar. Segundo a facilitadora, a Constelação Familiar, tem como base as leis sistêmicas às quais os seres humanos e os sistemas estão submetidos: o vínculo - que é o direito de pertencimento, a ordem de hierarquia, e o equilíbrio nas trocas - entre o dar e receber.

“Na visão sistêmica, olhando para a ordem de hierarquia, os filhos nunca se tornam pais de seus pais. Mesmo que esses filhos necessitem cuidar dos pais, os papéis nunca se invertem. O que muda é a função com as responsabilidades que um filho possa exercer. Os pais vieram antes, e essa ordem de hierarquia não se inverte - se respeita! Os pais permanecem grandes perante os filhos e os filhos permanecem pequenos perante os pais”.

Apesar da intensidade do que isso pode representar, é um momento para rever laços e despertar compaixão ao perceber que os pais chegaram a um estágio de limitação e dependência. É importante se apropriar disso como um espaço de aprendizado, de partilha e de vivências transformadoras. 

Conforme as especialistas, quem assumir essa responsabilidade precisa sentir que foi uma escolha, e não uma condição imposta. Essa pretensa liberdade faz muita diferença e ajuda na manutenção das relações saudáveis na família. “Só o verdadeiro autocuidado nos prepara para cuidar do outro, em qualquer circunstância”, pontua Rosária.

RESPEITE A AUTONOMIA

O envelhecimento não necessariamente afeta a capacidade de tomada de decisões dos idosos – e é aí que reside sua autonomia - embora as famílias tenham dificuldade de compreender isso. Se o idoso ainda tem a competência para tomar decisões, mas já não pode mais executar certas tarefas decorrentes delas, cabe aos que estão ao seu redor procurar respeitá-las e, se for o caso, cumpri-las.

Outro ponto importante do que não se deve fazer ao intervir mais de perto na vida dos pais idosos é dar a entender que eles são um problema. Conforme Janaína, banalizar as dificuldades ou infantilizar o idoso também são atitudes muito negativas por parte dos filhos e devem ser evitadas. “É necessário respeitar a história desses pais, respeitar seus sentimentos, suas vontades, suas capacidades e ter em mente que a pessoa cuidada já foi uma pessoa independente, autônoma, criou seus gostos e hábitos. Diferente de uma criança, os pais não precisam ser educados, mas sim cuidados”.

Mas qual exatamente é a linha entre a autonomia do idoso e a sua independência, considerando as limitações da idade? A autonomia, diz respeito à capacidade do idoso de tomar decisões. A independência, por sua vez, está mais relacionada a um efeito prático: significa dizer que seria a condição de capacidade em realizar atividades do dia a dia sem o auxílio de terceiros ou com uma interferência mínima destes.
Enquanto a primeira concerne à aptidão mental, a segunda está associada às habilidades físicas. Sendo assim, é possível que um idoso tenha autonomia, mas uma independência limitada. Da mesma forma, ele pode ter ambos, ser apenas independente ou ser somente autônomo.

É devido à fácil confusão entre as duas condições que as famílias se antecipam e cometem o erro de julgar o idoso como uma pessoa incapaz de ter autonomia, enquanto ele pode estar apenas com sua independência prejudicada pelo envelhecimento. É preciso ter respeito à biografia e à autonomia, mesmo que mínima, deste ser humano que é pai ou mãe. Não se pode menosprezar quem é dono de sua própria história.

AQUELES QUE CUIDAM

Quando existe uma conjuntura favorável, que envolve divisão igualitária de tarefas, apoio de um cuidador profissional, aconselhamento psicoterapêutico e recursos financeiros para bancar os gastos e a assistência necessária, a atividade de cuidar fica menos densa e trabalhosa, o que pode abrir caminho para reflexão, autoavaliação e crescimento. 

Compartilhar experiências com outras pessoas que vivenciaram situações similares é bastante aconselhável para contribuir nesse processo. Entretanto, há uma alta taxa de adoecimento daqueles que assumem a função de cuidador dos pais, principalmente entre mulheres de classes mais baixas, que ficam sobrecarregadas com o acúmulo de tarefas e pelas dificuldades na falta de recursos e de oportunidades devido à desigualdade social.

“Mesmo com todo amor e dedicação, cuidar dos pais idosos é extremamente desgastante, tanto física quanto psicologicamente. Assistir o envelhecimento dos pais pode gerar muita ansiedade, tristeza e sensação de incapacidade”, diz a psicóloga. Apesar de complexo, o equilíbrio nas tarefas de cuidar do outro e de si é imprescindível. 

Os cuidadores precisam sinalizar quando estão acumulando funções e estabelecer limites nessa relação, reservando tempo para fazerem suas próprias atividades - e que não sejam somente obrigações. Assim é possível evitar que esta fase da vida seja tida como um fardo e se configure em novas partilhas e aprendizados.

“É comum ver os filhos sobrecarregados e esgotados, por isso é importante que esses tenham um momento só para si, um momento em que possam desabafar, liberar suas emoções, serem ouvidos, acolhidos e aprenderem a conviver com a situação. Apesar das mudanças e das emoções que isso pode gerar, é um momento para estreitar laços e enxergar como uma oportunidade de grande aprendizado, empatia, partilha, vivências e gratidão”.

E QUANDO FORMOS NÓS?

Será que existe segredo para envelhecer? Para a médica geriatra Dra. Maisa Kairalla, não há mistério, fórmula mágica ou fonte da juventude. Uma das chaves para envelhecer bem consiste em se preparar para essa etapa da vida. A expectativa é que a maioria de nós vá alcançar o que se convencionou chamar de ‘terceira idade’. A grande questão, porém, não é só chegar lá. É chegar bem. 

Então a partir de quando deveríamos nos preocupar em como seremos lá na frente? Segundo Maisa, desde que nascemos. “Os hábitos que cultivamos ao longo da vida são responsáveis por 70% do que vamos colher em nossa velhice - positiva ou negativamente. Os outros 30% são fatores genéticos. Por isso, o ideal é que, desde crianças, tenhamos um olhar voltado para o processo de envelhecimento.

Organicamente, é a partir dos 28 anos de idade que o ser humano entra na rota do envelhecimento. Pele, cabelos, órgãos e tecidos passam a sentir o que é um caminho natural da vida”. O medo de envelhecer, conforme a médica é uma barreira para chegar bem à velhice e permanecer nela com saúde, qualidade de vida, dignidade e autonomia. 

Uma pesquisa recente, que ouviu dois mil brasileiros na casa dos 55 anos de idade, aponta que boa parte das pessoas tem certo receio em relação ao que as espera no futuro. Ainda é comum associar a velhice a circunstâncias negativas, como solidão, abandono, incapacidade e doença. “Acredito que nossa missão passa por educar a população para envelhecer bem - tanto do ponto de vista físico, como também emocional, social e financeiro - ao longo de toda a vida, em vez de esperar alcançar os 60 anos para começar a pensar e a agir sobre isso”.

Maisa finaliza dizendo que é preciso romper estigmas para que o indivíduo mais velho seja valorizado e visto fora do espectro do ‘aposentado’ ou do ‘inválido’. Lutar para que o termo ‘idoso’ não mais seja encarado com um cunho pejorativo, mas, sim, como uma atribuição de um cidadão ativo, respeitado e produtivo, física e intelectualmente - ainda que venha a ter certas limitações.

“Mesmo que essa pessoa adoeça ou fique dependente dos outros, temos o dever de tratá-la com o respeito e o carinho que ela merece. Não podemos deixar que uma determinada condição de saúde tire o brilho de ser uma pessoa idosa. Os anos não devem roubar de nós quem somos, mas lapidar nossa essência, concretizar nossas conquistas”.

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