Insônia. Palavra que está cada vez mais presente na vida dos brasileiros. Atualmente, dormir uma noite inteira por pelo menos oito horas seguidas tornou-se uma tarefa quase que impossível para muitas pessoas. Levantamento feito pela OMS - Organização Mundial da Saúde - mostra que 40% da população sofrem com o problema. As causas estão ligadas à rotina agitada, acesso permanente aos celulares e redes sociais. Tudo isso colabora para que o sono “vá embora”.
De acordo com a OMS, as mulheres são as mais afetadas pelo distúrbio e ele se torna mais recorrente depois da menopausa. A mudança no comportamento da sociedade - considerada natural e que envolve: a falta de rotina na hora de ir dormir; trocar o dia pela noite; a preocupação excessiva com as contas a pagar; compromissos de trabalho cada vez mais frequentes - causam distúrbios de sono. O alarmante é que não existe idade; pessoas cada vez mais jovens não conseguem dormir pelo menos oito horas por noite.
O problema é que, mesmo assim, muita gente deixa de buscar ajuda. Entre as justificativas está a falta de tempo - motivo esse que colabora com o distúrbio - além da dificuldade em aceitar que se trata de um problema que precisa de cura. Essa protelação agrava ainda mais a situação já que, quanto mais o tempo passar, maiores serão as chances de o paciente precisar do uso de medicamentos para dormir. Conforme a OMS, 7,6% da população brasileira usam remédios para dormir. O número representa 11 milhões de pessoas.
Nervos à flor da pele; mau humor. Esses são um dos primeiros sintomas que surgem quando não dormimos bem - além da falta de atenção. Isso acontece porque o sistema nervoso simpático - associado à descarga da adrenalina e ao estresse - acaba mais ativo que o parassimpático - que promove o relaxamento.
Noites mal dormidas podem causar graves consequências às pessoas no decorrer do dia – como, por exemplo, acidentes de trânsito ou de trabalho. Imagine uma pessoa com sono, que precisa operar uma máquina em uma empresa? Ou um motorista? O resultado disso é bem óbvio, não é mesmo?
Mas, os problemas decorrentes da insônia vão muito além. Estudos comprovam que distúrbios do sono podem causar problemas cardiovasculares, obesidade, envelhecimento precoce, depressão, hipertensão e diabetes.
Quem não dorme o necessário costuma ter mais resfriados e gripes ao longo do tempo - já que a imunidade é mais baixa e faz com que essas pessoas fiquem mais suscetíveis a contrair doenças. Problemas gastrointestinais também são males de quem dorme pouco.
Além de tudo isso, os estudos mostram, ainda, que a falta de sono aumenta o apetite e a resistência à insulina, por conta da influência do sono no sistema endócrino. Isso justifica maiores chances de diabetes. E não fica por aí. O déficit crônico é fator de risco associado a alguns tipos de câncer, como o de mama e o de próstata.
Quando dormimos menos do que o necessário, nosso corpo manda sinais de que não está bem. O sono é restaurador e promove melhoras significativas em nossa saúde física e mental.
Dormir bem, sem interrupções, evita o surgimento de algumas doenças e ajuda o corpo a se recuperar de algumas condições – como as gripes. Por isso, é importante ficar atento a qualquer alteração no padrão do sono.
Caso perceba que, mesmo com a mudança de hábitos, seu sono continua prejudicado, é hora de procurar um profissional para investigar as causas da insônia. Como dito, a insônia pode ser causada por distúrbios emocionais – como a ansiedade e a depressão.
Portanto, procure um profissional e converse abertamente com ele sobre as prováveis causas da insônia. É essencial compreender o seu corpo e a sua mente para recuperar um padrão de sono ideal, restabelecer a saúde plena e a rotina das atividades com ânimo e vigor.
Além da correria do dia a dia, das preocupações com as contas e com o trabalho, existem doenças que causam distúrbio do sono. Entre elas estão: desvio de septo nasal, aumento das amígdalas, bem como, a rinite alérgica.
De acordo com o médico otorrinolaringologista - Lucas Lara Hahmed - esses problemas prejudicam o sono de crianças e adultos e precisam ser tratados para não gerarem consequências - entre elas, baixa produtividade no trabalho ou baixo desempenho na escola.
O médico explica que essas doenças são percebidas com certa facilidade. No caso de crianças, que são mais propensas a terem amígdalas ou adenoide aumentadas, os primeiros sintomas são percebidos pelos pais durante o sono. “A criança sente falta de ar, emite som ao respirar - parecido com o ronco - e, geralmente, no outro dia fica sonolenta, sem muita disposição” - explicou.
Já nos adultos, a maior reclamação é acordar com dificuldade em respirar e roncar muito. “Casais chegam ao meu consultório reclamando que o parceiro ronca muito. Isso acontece com mais frequência quando o paciente sofre de desvio de septo” - disse.
Na maioria desses casos, o tratamento depende de procedimento cirúrgico - com exceção da rinite alérgica. Conforme Lucas, é importante seguir os protocolos médicos para que o paciente volte a ter qualidade de vida. Em longo prazo, essas doenças podem provocar sérias consequências como: prejudicar o desenvolvimento da criança a possíveis acidentes no caso de adultos - que dirigem, trabalham, estudam - independentemente se dormiu bem ou não.
Pelo menos 30% das crianças brasileiras já apresentaram ou vão apresentar sintomas de insônia comportamental. Ela se resume à inquietação da criança na hora de dormir. Por exemplo, a criança pede para tomar água, para ir ao banheiro; pede algo para comer no momento em que está na cama. Apesar de, inicialmente, parecer birra, o pequenino pode ter dificuldade em dormir.
Entre os fatores que podem desenvolver a insônia comportamental está algo bem simples e que é praticamente cultural: balançar o bebê para dormir ou andar de carro para que isso aconteça. Esses são exemplos que - segundo especialistas - prejudicam a criança e, quando ela cresce, tem dificuldade em conseguir dormir sozinha.
O grande problema é que o sono é essencial para o desenvolvimento da criança e, se ela não dorme o suficiente, poderá apresentar consequências negativas que englobam o físico, o emocional e o cognitivo. Estudos mostram que a insônia em um cérebro ainda em desenvolvimento, pode acarretar em problemas como: o déficit de atenção e a hiperatividade - além de depressão e ansiedade.
A orientação é para que os pais procurem um neuropediatra, já que a insônia está ligada ao sistema nervoso. Nestes casos, o profissional fará uma entrevista criteriosa com os pais para entender como é a rotina da criança e da família na hora do sono. “Regularidade, duração do sono, resistência na hora de dormir, dificuldade de iniciar o sono e despertares noturnos frequentes podem ser indícios importantes para fechar o diagnóstico - assim como sonolência diurna" - diz o especialista.
O neuropediatra irá descartar outras possíveis causas, como problemas respiratórios e outros distúrbios do sono. Também irá entender o impacto dos problemas do sono na criança e na família para propor estratégias e recursos que possam ajudar a gerenciar o problema.
O tratamento da insônia comportamental não envolve medicamentos, mesmo porque não há nenhum fármaco aprovado pelos órgãos reguladores para tratar insônia em crianças. Assim, é preciso usar os recursos de intervenção de comportamento para gerenciar a insônia.
Conversamos com a diretora de escola - Mariana Martins (nome fictício) - de 45 anos. Ela preferiu não ter sua identidade revelada. Conforme Mariana, noites mal dormidas já fazem parte da sua rotina; ela dorme, em média, quatro horas por noite.
As consequências da falta de sono são: irritabilidade, estresse, cansaço - principalmente entre 13h e 17h. “Acordo por volta das seis da manhã e fico bem durante esse período; porém, depois do almoço me sinto esgotada. Mas, curiosamente, ao entardecer, volto a ficar acelerada e só consigo pegar no sono depois de uma da manhã” - disse.
De acordo com Mariana, o seu sono é prejudicado por conta da preocupação com o trabalho. “Eu me cobro demais, pois sempre espero resultados excelentes no meu ambiente profissional; isso tudo deixa minha mente barulhenta - não consigo me desligar” - explicou.
Questionada se já procurou ajuda médica, Mariana disse que sim. Porém, ela se negou a seguir o conselho médico de usar medicamentos para dormir. “Eu não quero me tornar dependente de remédios; então, não aceito isso para minha vida. Eu acredito no autocontrole. Quando percebo que estou muito cansada, com muito sono, eu procuro orar, relaxar... Até que o sono chegue. Pelo menos, por enquanto, a estratégia tem dado certo” - completou.
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