O Brasil é o segundo país que mais realiza cirurgias bariátricas. Só em 2017 foram 105 mil. E dá até para entender: hoje, um em cada cinco brasileiros já é considerado obeso.
Diante da dificuldade que tanta gente tem para eliminar os muitos quilos a mais - inclusive por questões genéticas - e de todos os perigos que a obesidade traz à saúde, logo a cirurgia se projetou como uma boa saída, certo?
Sim, desde que sejam pesados diversos fatores antes da indicação e se invista em mudanças comportamentais e acompanhamento próximo após a operação.
A relação psicológica com a comida é um desses fatores a considerar.
Segundo uma revisão de 150 estudos sobre a incidência de certos hábitos e transtornos alimentares antes e depois da bariátrica, a compulsão é o problema mais comum no dia a dia dos obesos. “Contrário do que muitos pensam, inclusive os próprios candidatos à cirurgia, a avaliação psicológica não serve para impedir que o paciente realize a cirurgia, é um momento de preparar o paciente para o processo da cirurgia bariátrica”, diz a psicóloga Regiane Silva, membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica - SBCBM - COESAS.
O apoio psicológico também faz a diferença, ajudando a pessoa a saciar suas emoções não só com a comida, e a assumir uma postura mais ativa no tratamento - uma das metas é desconstruir a ilusão de que o bisturi resolve tudo. “Os fatores psicológicos podem influenciar negativamente no processo cirúrgico trazendo prejuízo ao tratamento da redução de peso, no entanto se faz necessário, caso diagnosticado pelo médico psiquiatra alguma psicopatologia, o tratamento paralelo juntamente com o psicólogo para que o fator emocional não cause interferências nos resultados da cirurgia”.
Neste sentido, o padrão de alimentação muda tão drasticamente após o procedimento que a pessoa pode desenvolver mecanismos negativos para compensar os excessos de antes. “No pós-operatório as mudanças ocorrem rapidamente em um curto espaço de tempo, o trabalho da psicologia neste período é ajudar o paciente a enfrentar as mudanças que surgem após a cirurgia, tanto emocional quanto corporal, onde uma nova identidade vai se estabelecendo aos poucos, assim como uma nova auto-imagem, auto estima”, explica a psicóloga.
Não é por acaso que os serviços de bariátrica dos grandes hospitais devem ter um programa de acompanhamento multiprofissional. Ainda assim, a adesão depende muito de quem está no centro da história, o paciente. Parece exagerado, mas não é: o acompanhamento deve seguir pelo resto da vida. Como a obesidade é uma doença crônica e progressiva, precisa ser vigiada para evitar o retorno. Um dos aspectos monitorados é o estado nutricional. Como os pacientes passam a comer menos e, em alguns casos, absorvem menos nutrientes por causa da cirurgia, precisam suplementar vitaminas e minerais - a vida toda.
Na prática, porém, nem sempre esse roteiro é seguido à risca. “Se o paciente se sente bem, ele
some”, afirma a endocrinologista Maria Edna de Melo, diretora do Departamento de Obesidade da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. As consequências de interromper a reposição de nutrientes podem ir de formigamentos nos pés e nas mãos à anemia, osteoporose e falhas de memória.
QUEM PODE FAZER?
A obesidade e cirurgia bariátrica podem ser entendidas como dois lados opostos: a obesidade é a doença, enquanto a cirurgia bariátrica é um dos tratamentos. A obesidade é uma doença de caráter multifatorial. Ou seja, ela possui múltiplas causas. A prevenção da obesidade inclui a mudança de hábitos e controle dessas causas. Primeiramente é necessário iniciar o tratamento clínico, quando o paciente deve seguir uma série de mudanças prescritas pelo médico especializado. No caso de falha do tratamento clínico realizado por, no mínimo, dois anos, o paciente pode se submeter ao procedimento cirúrgico: a cirurgia bariátrica.
Além disso, vale destacar que o paciente deve possuir características que se adequem às exigências da cirurgia, tais como: “Quando falamos do índice de massa corporal, existem três situações diferentes que permitem a realização do procedimento, ou seja, quando o IMC é acima de 40 kg/m², independentemente da presença de comorbidades, IMC entre 35 e 40 kg/m² na presença de outras doenças associadas e IMC entre 30 e 35 kg/m², associado a diabetes de difícil controle com uso de medicamentos, dietas e outros tratamentos, o qual a recomendação é a cirurgia bariátrica, para que haja um melhor controle glicêmico. Além disso, é importante ressaltar a obrigatoriedade da constatação de intratabilidade clínica da obesidade” por meio de um endocrinologista - afirma Dr. Thiago Bosch, especialista em cirurgia de obesidade e do aparelho digestivo.
Quanto à idade, é necessário muito cuidado, visto que existe uma série de orientações, por exemplo, abaixo dos 16 anos o Conselho Bariátrico orienta que os riscos sejam avaliados por dois cirurgiões bariátricos em conjunto com a equipe multidisciplinar, e a operação deve ser consentida pela família ou responsável legal. Caso o paciente possua algum tipo de síndrome genética, a cirurgia não pode ser realizada.
Entre os 16 e 18 anos, é necessário a indicação médica e o consenso familiar. Agora, entre os 18 e 65 não existem restrições em relação a idade, entretanto, acima dos 65 é necessário uma avaliação individual pela equipe multidisciplinar, considerando o risco cirúrgico, a presença de comorbidades, expectativa de vida e os benefícios do emagrecimento.
“O tempo da doença, é outro aspecto que não pode ser ignorado, sendo assim o paciente deve apresentar o IMC estável há pelo menos dois anos e comorbidades em faixa de risco. Além disso, é necessário também que ele tenha realizado tratamentos convencionais prévios, e documentos que comprovem o insucesso na perda de peso por meio de outros tratamentos alternativos”, acrescentou.
O PASSO A PASSO PRÉ-OPERATÓRIO
A primeira consulta deve ser com o cirurgião, inicialmente realiza-se uma avaliação da obesidade, idade de início, peso máximo e mínimo, identificação de possíveis fatores desencadeantes, tentativas prévias de tratamento, medicamentos utilizados, conhecer os hábitos alimentares e identificar possíveis comorbidades, como hipertensão, diabetes, cardiopatias, apnéia do sono, dislipidemias e artropatias.
Após essa primeira consulta o paciente iniciará uma minuciosa avaliação pré-operatória com toda equipe multidisciplinar composta por nutricionista, psicólogo, psiquiatra, endocrinologista, cardiologista, pneumologista, dentre outras áreas conforme necessidade. No pré-operatório, o paciente também deve realizar uma série de exames, como endoscopia digestiva, ultrassom abdominal e exames laboratoriais.
É nesta etapa que acontece o preenchimento obrigatório do documento Consentimento Informado, no qual o paciente reconhece estar devidamente informado sobre os benefícios e riscos da cirurgia. É recomendado que o paciente emagreça cerca de 5% a 10% de seu peso antes da cirurgia para melhorar sua condição clínica. Isso aumenta a segurança na operação.
PÓS-OPERATÓRIO
Poucas horas após a chegada ao quarto o paciente já esta sendo estimulado a sair da cama e ir para a poltrona ou eventualmente realizar caminhadas. Junto com isso exercícios respiratórios estarão sendo feitos pela fisioterapeuta. Essas medidas buscam diminuir o risco de embolia pulmonar, atelectasias e pneumonias. Além disso, a deambulação - caminhada - precoce favorece a eliminação de gases o que diminui os gases abdominais que são a principal causa de desconforto abdominal no pós-operatório. O uso das meias elásticas anti-trombo também são necessárias no intra e pós-operatório para a prevenção da TVP – trombose venosa profunda, e embolia pulmonar.
“Vale lembrar também que a família e os amigos desenvolvem um papel fundamental no processo pré e pós-operatório ofertando ao paciente acolhimento, amor e respeito. Não se pode esquecer da orientação ao paciente sobre o risco de alcoolismo no pós-operatório, pois isso pode ocorrer”, conta a psicóloga Regiane explicando que um vício – como a comida - pode ser substituído por outro.
DIETA
Depois de voltar para casa, a alimentação será reintroduzida lentamente, sendo que nas três primeiras semanas só será possível ingerir líquidos de 20 em 20 minutos em pequenas quantidades,no máximo um copo de café de cada vez, pois o estômago está muito sensível. Depois desse período, é possível comer pequenas porções de alimentos bem cozidos e moles como arroz, legumes e carne macia bem moída. Aos poucos, de acordo com o acompanhamento nutricional, o paciente pode voltar a comer outros alimentos, até estar liberado para se alimentar normalmente.
O exercício físico deve ser iniciado uma semana após a cirurgia e de uma forma lenta e sem fazer muito esforço, pois ajuda a emagrecer ainda mais rápido. O paciente pode começar por andar ou subir escadas, pois, além de ajudar a perder peso, ajuda a diminuir o risco de desenvolver trombose e contribui para que o intestino funcione de forma correta. No entanto, deve evitar pegar em pesos e fazer abdominais no primeiro mês após a cirurgia. Todas as orientações serão dadas pelo cirurgião, e após a cirurgia é feito um acompanhamento mensal com o profissional.
BENEFÍCIOS E RISCOS
Ninguém nega os efeitos positivos das cirurgias bariátrica e metabólica. Um estudo sueco que há 20 anos acompanha mais de dois mil sujeitos submetidos à operação e compara sua evolução com um grupo que recebeu outras formas de tratamento contra a obesidade - como remédios – aponta que os primeiros têm 29% menos risco de morrer precocemente, enquanto a incidência de diabetes é reduzida em 83%.
Existem evidências de que a cirurgia diminui a necessidade de medicamentos e minimiza a propensão a infarto, AVC e alguns tipos de câncer. Até as relações pessoais mudam. O número de divórcios e de novos casamentos aumenta após a cirurgia, segundo análise feita em países escandinavos.
Já os riscos da cirurgia bariátrica estão intimamente associados com o número e o estado das comorbidades. Para evitar que essas doenças venham a se agravar, é necessário um acompanhamento minucioso da equipe multidisciplinar. A incidência de complicações da cirurgia é muito baixa, mas deve ser realizada por equipe especializada a fim de reduzir tais problemas. Definitivamente, é preciso estar ciente de tantas mudanças. E se preparar para lidar com elas, com o suporte de quem entende. Eis um trabalho que não acaba no bisturi.
OS QUATRO TIPOS DE BARIÁTRICA APROVADOS NO BRASIL
BY-PASS GÁSTRICO - Reduz o estômago por um grampeamento e desvia a parte inicial do intestino, ampliando a ação dos hormônios da saciedade. Responde por 75% das cirurgias.
GASTRECTOMIA VERTICAL - Deixa o estômago parecido com um tubo e também interfere nos hormônios da saciedade, mas é menos potente que o by-pass no controle do diabetes.
BANDA GÁSTRICA AJUSTÁVEL - Restringe o estômago com um anel de silicone, só que não promove mudanças hormonais. Praticamente abandonada hoje por sua menor eficácia.
DUODENAL SWITCH - Retira 60% do estômago e desvia o intestino. Apesar de ser poderosa para perda de peso, leva à perda de absorção de nutrientes. Indicada para superobesos.
