Entrevistá-lo não foi uma tarefa fácil. Até mesmo porque ele nunca para quieto em um canto só! Depois de inúmeras tentativas em sua agenda apertada, o artista plástico Antônio Carlos Nicolielo nos recebeu, durante uma visita rápida a Três Lagoas para conhecer sua primeira neta, Bianca.
Ele é natural de Nova Europa, cidade localizada no interior de São Paulo, na região de Araraquara. Tem 66 anos e é formado em Direito, embora nunca tenha exercido a profissão.
Morou em Três Lagoas durante 17 anos, depois de ter trabalhado como chargista político em diversos jornais de grande expressão nacional, como a revista Veja e a Folha de S. Paulo. “Pedi demissão da Folha e eles não aceitaram. Eu morava aqui e enviava as charges via fax. Fiz isso durante três anos”. Depois que se separou de sua esposa, Nicolielo voltou a morar em Nova Europa, onde possui um sítio e um ateliê.
De lá, distribui toda a sua arte mundo afora. As telas são publicadas diariamente em sua página pessoal em uma rede social. Outro projeto que ele desenvolve se chama “L’arte è móbile”. Trata-se de um “mini trailer” que contém todo o material necessário para ele pintar e expor seus quadros onde quiser.
O trailer contém frigobar, microondas e ainda uma cama para descansar. Ele já expôs seus trabalhos em Três Lagoas; esteve recentemente em Caxias do Sul-RS e em Ouro Preto – MG, dentre muitas outras cidades. Nicolielo revela
que não sabe quando percebeu que tinha talento para artes, mas que, desde cedo, aos 10 anos, já recortava desenhos de chargistas internacionais que via em revistas estrangeiras. “Tenho um álbum com estes recortes até hoje”.
Ele já escreveu textos e trabalhou como repórter policial, porém se especializou mesmo em charges políticas. Apesar de trabalhar com temas polêmicos, o chargista diz que nunca foi processado, mas já enfrentou problemas por
causa da ditadura.
Ironicamente, foi isso que impulsionou sua carreira internacional. “Eu
desenhava no Brasil sobre temas polêmicos lá fora, já que não podia tocar nos assuntos locais. Foi quando um editor americano viu meu trabalho, se interessou e passou a distribuir a obra”. Uma de suas charges foi publicada até no New York Times.
VOCÊ POR VOCÊ
Sou um adolescente lúdico; gosto de brincar; minha vida é lúdica. Eu descanso quando sento para trabalhar.
FILHAS
Helena, médica e Isabel, arquiteta.
FAMÍLIA
É tudo. Com o tempo a gente se afasta um pouco; as filhas casam, vão embora, mas ficam sempre na memória as imagens das primeiras festas, os primeiros natais. Minha primeira neta então é um motivo a mais para viver.
AMIGOS
Tão importante quanto a família. É triste ser solitário. Bom mesmo é ter um amigo para contar os problemas, para beber junto.
VIRTUDE
Bom humor espontâneo.
RELIGIÃO
Nasci dentro da religião católica, mas não sou seguidor. Só acho que alguém tem de tomar conta disso tudo. Deve haver em algum lugar um “escritório central”.
QUALIDADE
Honestidade, ética.
DEFEITO
Devo ter os defeitos que os seres humanos têm também.
ALEGRIAS
Minhas filhas e meu trabalho
publicado.
HOBBY
É o meu trabalho. Aos finais de semana eu remo meu caiaque, pratico pesca esportiva: pesco e solto. Até amasso a ponta do anzol para
não machucar o peixe. Ah!... E viajar, é claro.
LIVRO
Clarice Lispector, Henry Miller, ficção estrangeira e os russos como Dostoievski.
MODA
Não ligo para isso não.
ESTILO
(da pintura) Disseram-me que eu sou “figurativo moderno,” eu digo
que sou “pueril lúdico".
VAIDADE
De ver meu trabalho bonito e publicado.
SONHO DE CONSUMO
Coisas que se referem à material de pesca e caiaque.
MÚSICA CLÁSSICA
Mozart, Beethoven. Sempre gostei, desde criança.
UM PRATO
Peixe, sushi, comida oriental em geral.
UM LUGAR
Mato, natureza. Beira de rio, beira de mar. Onde tiver isso eu estou feliz.
SONHO
Viajar pelo Brasil inteiro como eu tenho feito.
Entrevista publicada na edição 61 - Dezembro de 2014.*