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Em 10 anos, não vai mais existir brasileiro sem tarja preta?

Com 26% da população com diagnóstico de ansiedade e 90% se automedicando, consumo de medicamentos psiquiátricos dispara, impulsionado por estresse, pressão por desempenho e venda clandestina

Da Redação - Rara Gente
15/04/26 às 13h53

“Em 10 anos, não vai mais existir brasileiro sem tarja preta.” A frase, que pode soar como alarmismo, é do ICTQ (Instituto de Ciência, Tecnologia e Qualidade) e viralizou nas redes. Por trás da provocação, um conjunto de números impressiona: o Brasil é o país mais ansioso do mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), com cerca de 9,3% da população convivendo com algum tipo de transtorno de ansiedade, mais que o dobro da média global.

Quase 27% dos brasileiros já receberam diagnóstico de ansiedade, e o consumo de antidepressivos cresceu 12,4% entre adultos de 29 a 58 anos. O mercado farmacêutico brasileiro, sexto maior do mundo, fatura mais de R$ 220 bilhões e cresce acima de 10% ao ano.

A pergunta que ecoa nos consultórios, nas empresas e nas universidades é: até que ponto o remédio virou a resposta padrão para o mal-estar contemporâneo? E o que isso revela sobre a sociedade que estamos construindo?

Brasil, o país da ansiedade

Os números da OMS não deixam dúvidas. Estima-se que 18,6 milhões de brasileiros sofram de transtornos de ansiedade, quase a população de São Paulo e Rio de Janeiro juntas. Em 2025, o país registrou mais de meio milhão de licenças médicas por transtornos mentais, com afastamentos por ansiedade e depressão crescendo 15% em apenas um ano.

O ritmo de vida acelerado, a hiperconectividade e a sobrecarga de informações criam um ambiente propício ao sofrimento psíquico.

Esse cenário se reflete diretamente no consumo de medicamentos. Entre 2024 e 2025, houve aumento de 7% no número de beneficiários de planos de saúde que compraram medicamentos psiquiátricos, com antidepressivos liderando a demanda. A compra de remédios psiquiátricos cresceu 4,5% no último ano, e a venda de antidepressivos já ultrapassa a de qualquer categoria de medicamento sem receita.

(Foto: Paulo Franken / Agência RBS)

Automedicação: 90% dos brasileiros tomam remédio por conta própria

Se a ansiedade é a epidemia silenciosa, a automedicação é a porta de entrada para uma armadilha ainda mais perigosa. Pesquisa do ICTQ de 2022 revelou que 89% da população brasileira se automedica, um aumento expressivo em relação a 2014, quando o índice era de 76%. Analgésicos lideram (64%), seguidos por antigripais (47%) e relaxantes musculares (35%). Mas o dado mais preocupante é que pelo menos 6% da população recorre a medicamentos para lidar com ansiedade, estresse e insônia sem qualquer orientação médica.

As consequências são graves: estima-se que 20 mil pessoas morram por ano no Brasil em decorrência da automedicação, e mais de 30 mil internações são registradas anualmente por intoxicação medicamentosa.

Afinal, é exagero?

A frase do ICTQ é uma provocação, mas os números dão o que pensar. 86% dos brasileiros relatam algum sintoma de saúde mental. Quase 1 em cada 4 beneficiários de plano de saúde já usa medicamentos psiquiátricos. E a tendência é de aceleração.


*Com informações da Organização Mundial da Saúde, ICTQ, UOL/VivaBem, Conselho Federal de Farmácia e Fórum sobre Medicalização da Educação e da Sociedade.

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