Uma sala de parto, médicos, enfermeiras, instrumentadores. O anestesista comete um estupro com a paciente sedada, prestes a dar à luz. As enfermeiras conseguiram filmar e ele foi preso em flagrante. Isso é o que todo mundo sabe. O caso é tão surreal que parece impossível de acreditar. As perguntas são muitas, mas sabemos que este é mais um caso que pertence à cultura do estupro.
Esta expressão começou a ser usada nos anos 70. Criada por feministas americanas, ela se refere ao fato de que todo o ambiente cultural em que estamos inseridos – normas, valores, práticas – são favoráveis ao crime de estupro e, justamente por causa disso, naturalizam e aceitam certos tipos de violência que acontecem com as mulheres.
Há um outro lado para a história do médico, porém ela não deixa de perturbadora. Segundo o psicólogo Marcos Martinelle, o comportamento dele pode ser considerado uma ‘parafilia’. “Mas sem conhecimento do histórico de vida dele fica difícil afirmar qualquer tipo de transtorno”.
A parafilia é qualquer tipo de interesse ou desejo sexual intenso e persistente e que fuja do ‘padrão’ considerado normal pela sociedade. Um dos exemplos citados por Martinelle é a necrofilia, que é quando a pessoa quer ter relações sexuais com cadáveres. “Poderia ser o caso dele por tratar-se de um corpo imóvel, sedado”.
O psicólogo cita ainda o exibicionismo – porque tinha outras pessoas presentes na sala – e o fetiche, todavia não o exime de culpa pelo crime que cometeu. “Foi uma ação consciente, ou seja, quem pratica isso sabe o que está fazendo”.
Em relação à cultura do estupro, ele acredita sim que vivenciamos isso em sociedade, uma vez que o Brasil apresenta casos de mulheres violentadas e que ainda são culpadas pelo ocorrido. “Acredito que haja uma influência cultural e machista nestas relações. O gênero masculino ainda é isente de penalidades e vez ou outra ganha apoiadores e popularidade”. Isso explicaria o fato de que o médico estuprador ganhou mais de 11 mil seguidores em uma rede social depois que o fato veio à tona.
HOMENS DE BEM?
Martinelle afirma que não é possível identificar um potencial estuprador baseado somente em suas atitudes comportamentais. “Quando falamos em crimes sexuais como abusos e estupros, falamos de pessoas que estão em vários ambientes e podem ser desde as pessoas em quem mais confiamos até um estranho na rua. Além do seu impulso sexual e possíveis parafilias, esses homens, de alguma forma, tentam de adequar a uma rotina normal. Como nem sempre esse tipo de comportamento é considerado uma doença, as pessoas não procuram ajuda”.
Em relatos como este em que causam revolta nacional, é muito comum as pessoas sugerirem a castração química como forma de coibir estes crimes. Porém o psicólogo acredita que eles não são uma solução eficaz, pelo menos não diretamente. “A castração se refere a utilizar medicamentos ou procedimentos que reduzem o nível de testosterona e com isso pode baixar a libido e o desejo sexual. Mesmo assim ela não impede o ato propriamente dito. O estupro não é apenas uma questão de desejo ou prazer sexual, é também uma questão de poder e dominação sobre o outro”.
