Se são elas as maiores vítimas, significa que são eles os maiores assediadores. Porém, não se trata necessariamente de um comportamento natural masculino. É o que diz a historiadora e docente da UFMS de Três lagoas, Mariana Esteves. “Ninguém nasce assediador. Isso é algo que foi socialmente aprendido e construído. Mas, do ponto de vista da educação, ele pode não ser aprendido e ser desconstruído. Não só os meninos, mas também todo o conceito de masculinidade pode ser redirecionado. Nesta nova geração de meninos, muitos deles já não são mais assediadores”.
Segundo a socióloga e docente da UEMS de Paranaíba, Juliana do Prado, estas práticas geralmente são marcadas por uma relação de poder desigual entre homens e mulheres. “No entanto, o comportamento de quem assedia não pode ser naturalizado como algo que faz parte da sua personalidade”.
Para Juliana, as mulheres estão, historicamente, em situações de subalternização de forma cultural e também social. Mariana explica que isso acontece por que habitamos o patriarcado e não um matriarcado. “Somos vistas como propriedades, como objetos. Os homens também sofrem com isso pois têm que provar sempre a virilidade, a masculinidade, não podem ser sensíveis, não podem chorar. Tudo isso também está pautado nestas questões. São exemplos de comportamentos que são prescritos como pertencentes aos homens ou às mulheres. E isso privilegia eles e não elas”.
"Sentei ao lado do paciente para ensinar um exercício. Ele colocou a mão na minha perna e disse ‘isso é que é coxa’, na frente da mulher dele”
A sociedade patriarcal tal qual conhecemos hoje não nasceu de uma hora para outra. Isso é milenar e está vinculado também ao início do que chamamos de propriedade privada. Mariana diz que, no início da humanidade, homens e mulheres viviam em engenhos coletivos e moradias comunitárias. A nossa relação familiar era matrilinear, quase como um matriarcado. As relações eram poligâmicas por uma necessidade de sobrevivência. Os homens não tinham domínio sobre quem eram seus filhos, somente as mulheres sabiam. A linhagem familiar era delas.
Havia a divisão de trabalho; homens lidavam com as terras externas e as mulheres com atividades mais ao redor das moradias como as hortas, a criação, por causa dos filhos. Mas até aquele momento, não se tratava de uma hierarquia, ambas as atividades tinham o mesmo ‘valor’.
A partir do cercamento das terras, os homens passaram a definir o que era deles e isso lhes deu poder. O trabalho deles passou a ser visto como mais importante do que o doméstico. Por conta da herança, eles não queriam mais que as mulheres tivessem outros parceiros afinal, com quem ficariam as terras tão valiosas? “Isso foi muito gradativo. A sociedade passou a ver as terras como propriedade privada e, assim como elas, as mulheres também foram ‘cercadas’. Daí a sensação de posse com a terra e com a mulher”.
Mesmo com este cercamento, algumas terras ainda eram comunitárias, conhecidas como ‘comunais’. Era onde, quem não tinha nenhuma propriedade privada, podia caçar e plantar. A historiadora cita o livro de Silvia Federici intitulado ‘O calibã e a bruxa’ para contextualizar os primeiros ataques direcionados às mulheres. “No livro a autora demonstra que, aquelas que dependiam das terras comunais, foram demonizadas e perseguidas como bruxas. O Estado passa a fazer isso para lhes tirar a resistência. Na Inglaterra o sexo feminino foi o que mais resistiu ao cercamento. A partir daí passa a existir uma onda misógina - aversão às mulheres - que vai objetificar os corpos femininos. O Estado também passa a politizá-lo pois passa a decidir se a mulher vai ter filhos, quantos vai ter, se vai poder tirar ou não”.