Lifestyle

O fiu fiu precisa acabar

Entenda de onde vem essa cultura e depoimentos de quem já sofreu muito com ela

Daniela Galli
10/01/23 às 08h00

Falar sobre assédio nunca é fácil. Recolher depoimentos de quem passou por isso também não. Porém nossa equipe conseguiu várias histórias cujos trechos poderão ser lidos em destaque nas próximas páginas. Os nomes de todas as entrevistadas foram preservados.

A palavra ‘assédio’ veio de uma expressão latina ‘absidium’. Ela era aplicada durante as guerras, uma vez que seu significado remete a cerco, uma espécie de estratégia militar e que, se bem-sucedida, levaria uma cidade à rendição.

A noção de assédio indica a ideia de obrigar alguém a fazer algo contra sua própria vontade. As mulheres são, de longe, as principais vítimas. De acordo com um levantamento, divulgado em novembro do ano passado e feito por uma empresa de gestão de recursos humanos, dentro dos ambientes corporativos, o sexo feminino tem três vezes mais chance de ser assediado do que o masculino. O mesmo levantamento apontou ainda que 97% DAS VÍTIMAS NÃO DENUNCIAM OS AUTORES. Mais de 11 mil mulheres foram ouvidas em todo o país.

SÓ EM 2021, MAIS DE 26 MILHÕES DE MULHERES FORAM ASSEDIADAS. Estes são os números de uma pesquisa encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública ao Datafolha. O resultado foi divulgado no mês de junho de 2021. Mais de 30% das entrevistadas ouviram comentários inadequados e cantadas de rua. Quase 13% foram assediadas no ambiente de trabalho.

Construção social

Se são elas as maiores vítimas, significa que são eles os maiores assediadores. Porém, não se trata necessariamente de um comportamento natural masculino. É o que diz a historiadora e docente da UFMS de Três lagoas, Mariana Esteves. “Ninguém nasce assediador. Isso é algo que foi socialmente aprendido e construído. Mas, do ponto de vista da educação, ele pode não ser aprendido e ser desconstruído. Não só os meninos, mas também todo o conceito de masculinidade pode ser redirecionado. Nesta nova geração de meninos, muitos deles já não são mais assediadores”.

Segundo a socióloga e docente da UEMS de Paranaíba, Juliana do Prado, estas práticas geralmente são marcadas por uma relação de poder desigual entre homens e mulheres. “No entanto, o comportamento de quem assedia não pode ser naturalizado como algo que faz parte da sua personalidade”.

Para Juliana, as mulheres estão, historicamente, em situações de subalternização de forma cultural e também social. Mariana explica que isso acontece por que habitamos o patriarcado e não um matriarcado. “Somos vistas como propriedades, como objetos. Os homens também sofrem com isso pois têm que provar sempre a virilidade, a masculinidade, não podem ser sensíveis, não podem chorar. Tudo isso também está pautado nestas questões. São exemplos de comportamentos que são prescritos como pertencentes aos homens ou às mulheres. E isso privilegia eles e não elas”.

"Sentei ao lado do paciente para ensinar um exercício. Ele colocou a mão na minha perna e disse ‘isso é que é coxa’, na frente da mulher dele”

O patriarcado

A sociedade patriarcal tal qual conhecemos hoje não nasceu de uma hora para outra. Isso é milenar e está vinculado também ao início do que chamamos de propriedade privada. Mariana diz que, no início da humanidade, homens e mulheres viviam em engenhos coletivos e moradias comunitárias. A nossa relação familiar era matrilinear, quase como um matriarcado. As relações eram poligâmicas por uma necessidade de sobrevivência. Os homens não tinham domínio sobre quem eram seus filhos, somente as mulheres sabiam. A linhagem familiar era delas.

Havia a divisão de trabalho; homens lidavam com as terras externas e as mulheres com atividades mais ao redor das moradias como as hortas, a criação, por causa dos filhos. Mas até aquele momento, não se tratava de uma hierarquia, ambas as atividades tinham o mesmo ‘valor’.

A partir do cercamento das terras, os homens passaram a definir o que era deles e isso lhes deu poder. O trabalho deles passou a ser visto como mais importante do que o doméstico. Por conta da herança, eles não queriam mais que as mulheres tivessem outros parceiros afinal, com quem ficariam as terras tão valiosas? “Isso foi muito gradativo. A sociedade passou a ver as terras como propriedade privada e, assim como elas, as mulheres também foram ‘cercadas’. Daí a sensação de posse com a terra e com a mulher”.

Mesmo com este cercamento, algumas terras ainda eram comunitárias, conhecidas como ‘comunais’. Era onde, quem não tinha nenhuma propriedade privada, podia caçar e plantar. A historiadora cita o livro de Silvia Federici intitulado ‘O calibã e a bruxa’ para contextualizar os primeiros ataques direcionados às mulheres. “No livro a autora demonstra que, aquelas que dependiam das terras comunais, foram demonizadas e perseguidas como bruxas. O Estado passa a fazer isso para lhes tirar a resistência. Na Inglaterra o sexo feminino foi o que mais resistiu ao cercamento. A partir daí passa a existir uma onda misógina - aversão às mulheres - que vai objetificar os corpos femininos. O Estado também passa a politizá-lo pois passa a decidir se a mulher vai ter filhos, quantos vai ter, se vai poder tirar ou não”.

Resistência

Ainda com este assunto em pauta, Juliana destaca a contribuição valiosa dos movimentos feministas nas décadas de 60 e 70, principalmente nos Estados Unidos e na Europa Ocidental. Foi nesta época que as mulheres passaram a refletir sobre questões de intimidade, relacionamentos, desigualdade no trabalho e o assédio nos ambientes educacionais, corporativos e até mesmo nas ruas. “As reflexões aconteceram no âmbito da mudança de valores culturais. O emblema passa a ser ‘o pessoal é político’, o que significou uma revolução no pensamento para desnaturalizar posições de superioridade entre homens e mulheres.

No Brasil, desde a década de 1980, muitos estudos acadêmicos começaram a demonstrar os diferentes aspectos nos quais o sexo feminino era vítima de violência. “Mais tarde, através de movimentos sociais, essas pautas foram legitimadas em leis que buscam coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher, como a Lei Maria da Penha e a do Feminicídio”.

Por meio das redes sociais também é possível perceber o quanto o assédio passou a ser debatido com várias hashtags como #metoo, que em português significa ‘eu também’. O movimento, contra o assédio e a agressão sexual começou em 2017 quando a hashtag viralizou. A intenção era fazer com que as assediadas contassem o que lhes aconteceu para que a sociedade tivesse noção da magnitude do problema.

A #meuamigosecreto também ganhou força em 2015 com o objetivo de denunciar os principais exemplos de machismos aos quais as mulheres estão sujeitas diariamente. “É possível demonstrar que a temática ganha evidência a partir do momento em que as posições e relações de gênero são problematizadas, desnaturalizando as relações de poder, o que foi e tem sido feito através dos movimentos feministas”, garante a socióloga.

Leia o texto completo em nossa edição impressa.

Gostou desse conteúdo? Siga a @raragente nas redes sociais e tenha acesso a melhor curadoria de moda, beleza, estilo de vida, saúde e cultura.

 RECOMENDADO PARA VOCÊ
EM DESTAQUE AGORA
VEJA TODOS OS DESTAQUES
ÚLTIMAS EM LIFESTYLE
RARA Gente - A mais tradicional revista de Três Lagoas
Editor responsável:
Ivete Binda Mendonça
agitta@agitta.com.br
Todos os direitos reservados © 1999 - 2026 - Grupo Agitta de Comunicação.