Quando se pensa na frase as "palavras têm poder", muitas vezes a primeira coisa que vem à mente é o impacto das expressões no dia-a-dia e na qualidade de vida, é sobre falar coisas positivas, agradecer, professar o que se quer ver por meio de palavras para que elas deem suporte para os objetivos. Mas, ao ler essa sentença, veio à sua mente também a ideia de que tudo que se fala para o outro tem a capacidade de reverberar e criar naquela pessoa algo bom ou ruim acerca dela mesma, ou de algum grupo em específico?
Se a palavra detém tanto poder, não seria capaz de impactar a estrutura social ou mesmo fazer a manutenção dela?
O QUE É SER POLITICAMENTE CORRETO?
Apesar de o termo ‘politicamente correto’ ser muitas vezes usado com uma conotação negativa, até mesmo cheia de ranço e preconceito entre algumas pessoas, o movimento foi criado pensando que as expressões, piadas e termos utilizados no cotidiano impactam a esfera da vida privada - o que já seria um motivo justo para se mudar, mas também impactam a sociedade e seu avanço, como um todo.
Especialistas traçam sua popularização entre os anos 70 e 90, em universidades dos Estados Unidos, como uma forma de combater as opressões, compreendendo os estragos que as palavras podem causar.
Naquele momento histórico, não era comum restringir, na mídia e nas instituições, o uso de expressões que humilhassem minorias e populações mais vulneráveis. Ou seja, o outro e seus sentimentos e necessidades não eram levados em conta.
Hoje, porém, acontece cada vez mais a incorporação desse tipo de vocabulário em empresas, veículos de comunicação e esferas governamentais. Além disso, há um crescimento da visibilidade de influenciadores e pensadores que trazem à tona essas questões e cresce o número de expressões que são apontadas como ofensivas, por especialistas e movimentos sociais.
Como, então, passar a utilizar o poder das palavras politicamente corretas como uma forma de causar um impacto positivo na vida das pessoas e no mundo? A forma mais intuitiva de corrigir o vocabulário é conhecendo as razões pelas quais essas expressões são problemáticas.
Quase sempre, eles estigmatizam, sectarizam, ironizam, reduzem valores culturais e sociais e promovem preconceitos.
"O PODER DAS PALAVRAS POLITICAMENTE CORRETAS É UMA FORMA DE CAUSAR UM IMPACTO POSITIVO NA VIDA DAS PESSOAS E NO MUNDO."
O QUE ABOLIR, SUBSTITUIR OU REPENSAR?
O dicionário da gentileza e do respeito não é difícil de praticar. No caso da população negra, a sociedade carrega diversos estereótipos que são refletidos na fala. Em 2022, o Tribunal Superior Eleitoral - TSE, lançou uma cartilha com 40 expressões racistas que são politicamente incorretas e corroboram com a perpetuação do racismo na sociedade. Entre elas, algumas mais comuns à fala informal, como ‘cabelo ruim’, ‘nega maluca’, ‘magia negra’, ‘serviço de preto’, ‘crioulo’, ‘inveja branca’, ‘teta de nega’, entre outras.
São termos que devem ser retirados do vocabulário, porque associam características negativas à negritude. Existem outros termos que podem ser substituídos por formas melhores e não ofensivas. Pode-se utilizar ‘difamar’ e ‘elucidar’ ao invés de ‘denegrir’ e ‘esclarecer’.
No caso da expressão ‘tecido com estampas étnicas’, é melhor apontar qual seria a origem daquele padrão, como, por exemplo, se é africano ou indígena, já que ‘étnico’ é uma expressão que tende a exotizar tudo que não é europeu. Ao invés de ‘escravo’, é necessário apontar que aquela pessoa foi submetida ao trabalho forçado e ele não é inato à sua condição. Para tanto, utiliza-se ‘escravizado’. Utilize sempre ‘negro’ ou ‘preto’, ao invés de outros eufemismos como ‘pessoa de cor’, ‘escurinho’, etc.
A cartilha está disponível on-line na Biblioteca Digital da Justiça Eleitoral. Outros grupos historicamente marginalizados, como os povos indígenas, também não devem ser chamados de ‘índios’, termo que reitera os estereótipos cunhados pelo colonizador de serem ‘atrasados’, ‘preguiçosos’ e ‘selvagens’, além de generalizar e desconsiderar as especificidades linguísticas e culturais de cada povo. O termo ‘povos originários’ também tem sido utilizado como forma de resgatar a importância daqueles que descendem dos primeiros habitantes do nosso território. O termo ‘judiar’, que é pejorativo para os judeus, pode ser trocado por ‘maltratar’.
Para evitar preconceitos regionais, não generalize os nordestinos ou migrantes de outros estados como ‘paraíbas’, ‘cabeça-chata’. Caso não saiba a origem do estado específico da pessoa, também é possível citar a região de onde ela veio, como ‘nordestino’, ‘sulista’ e ‘nortista’.
Outra questão preocupante, na fala, é a xenofobia e o preconceito contra a população de origem asiática. Apelidar um imigrante asiático, ou até mesmo um brasileiro com traços asiáticos de ‘japa’ e ‘china’, apesar de muito comum, só reforça o racismo contra esse grupo.
No caso de populações vulneráveis, outra expressão muito naturalizada é ‘velho’ para referir-se à pessoa idosa. Apesar de ‘idoso’ muitas vezes ser comum em legislações, foi adotado ‘pessoa idosa’ como uma forma de contemplar a discussão etária sem cometer preconceito.
‘Mendigo’, ‘meliante’ e ‘morador de rua’ devem ser substituídos por ‘pessoa em situação de rua’, já que esta forma não determina a condição de estar na rua como fixa, mas como resultado de um processo de desigualdade que, preferencialmente, deverá ser superado.
"QUANDO SE PENSA NA FRASE ‘AS PALAVRAS TÊM PODER’, MUITAS VEZES A PRIMEIRA COISA QUE VEM À MENTE É O IMPACTO DAS EXPRESSÕES NO DIA-A-DIA E NA QUALIDADE DE VIDA."
No caso da população LGBTQIAP+, é necessário conhecer as identidades que existem dentro do movimento e ter sensibilidade às suas particularidades. Referir-se à homossexualidade como ‘homossexualismo’ endossa a narrativa de que ser homossexual é uma condição ou doença. Termos como ‘traveco’ e ‘o travesti’, são extremamente ofensivos. O correto é ‘a travesti’, já que travesti é uma identidade feminina. Outras formas corretas são ‘lésbica/lesbianidade’, ‘bissexual/bissexualidade’, ‘mulher ou homem trans/transsexualidade’ e ‘pessoa não-binária’.
Uma discussão, que ganhou mais destaque recentemente, é a das pessoas com deficiência, que não mais são chamadas de ‘deficientes’ ou ‘portadoras de deficiência’. A primeira expressão é redutiva das capacidades dessas pessoas, e a segunda trata a deficiência como algo que é ‘portado’, o que não é realidade, já que a deficiência acompanha a pessoa em tempo integral.
Dizer também que as pessoas sem deficiência são ‘pessoas normais’ é dizer que as PCD’s - sigla amplamente utilizada para se referir às pessoas com deficiência, não possuem essa normalidade. Não há problema com as palavras ‘surdo’ e ‘cego’ para descrever esses tipos de deficiência.
Já a neurodiversidade se refere às variações naturais no cérebro humano de cada indivíduo em relação à sociabilidade, aprendizagem, atenção, humor e outras funções cognitivas. Pessoas ‘neurodivergentes’ são aquelas que têm um desenvolvimento ou funcionamento neurológico diferente do padrão esperado pela sociedade em geral. Já ‘neurotípico’ trata de um indivíduo que tem um neurodesenvolvimento considerado regular ou típico. Sobre os neurodivergentes ou neuroatípicos, é correto chamá-los de ‘pessoa autista’, ‘pessoa no espectro autista’, ‘pessoa com TDAH’, ‘pessoa com dislexia’ e ‘pessoa com síndrome de Tourette’.
Não utilize ‘autista’ como sinônimo de pessoa distraída ou quieta. ‘Anjos azuis’, assim como outras formas de inferiorizar a pessoa autista, não são bem vistas pela comunidade neurodivergente. Utilizar ‘retardado’ ou ‘retardado mental’ em qualquer contexto é extremamente agressivo e desrespeitoso.
Ao se deparar com tantos termos novos, pode parecer complicado, chato, imposição ou até patrulha ideológica e social. Mas é possível assimilar os efeitos dessas palavras, e compreender que é possível aprender, todos os dias, a ter uma comunicação mais respeitosa e empática. Assim, com o tempo, todas essas formas tornam-se mais naturais.
A língua portuguesa, tanto na fala quanto na escrita, está em constante mudança, em um processo vivo e dinâmico. As relações sociais também evoluem. O politicamente correto é somente uma forma de mostrar que é importante que essas mudanças, inevitáveis, sejam na direção da inclusão e da gentileza. Afinal, se as palavras têm poderes, estes podem ser o de construir ou destruir, tanto o bem-estar do outro, quanto a nossa própria evolução como ser social.
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