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Nem tudo vai dar certo. E está tudo bem!

Até que horas vai durar o papo de ‘gratiluz’, hein?

Daniela Galli
20/12/22 às 08h00

Você acorda cedo, se arruma para trabalhar e.... Acabou o café. Tudo bem, nada demais, “como alguma coisa na padaria”. Corta para a garagem: esqueceu de abastecer o carro. Ok, sem estresse, “pelo menos eu tenho um carro”. Chega no trabalho recebe um berro do chefe porque atrasou. “Ah! mas eu tenho um trabalho”. Na volta acaba a gasolina, o posto fica longe, o celular não pega, você anda e começa a chover... Até que horas vai durar o papo de ‘gratiluz’, hein?

Há alguns anos existe nas redes sociais um movimento que pede que sejamos gratos por tudo que acontece em nossa vida. É como se tivéssemos sido inundados por uma névoa de otimismo dizendo que PRECISAMOS tirar uma lição de tudo o que acontece de ruim em nossas vidas e que NUNCA, JAMAIS, EM TEMPO ALGUM devemos reclamar.

É uma onda de ‘positividade tóxica’, na verdade. Esse termo irônico foi adotado pela internet para criticar justamente essa demanda de otimismo com a qual temos que lidar diariamente. Já não é mais raro encontrar perfis que compartilham a frase: ‘entrego, confio, aceito e agradeço’.

Entretanto se você já viu ou pelo menos ouviu falar da animação ‘Divertida Mente’, vai ter referências suficientes para entender que não é bem assim que funciona e que não é possível ser feliz e grato o tempo inteiro.

No filme a ‘alegria’ quer que a personagem principal sinta-se feliz o tempo todo e para que isso aconteça ela afasta a ‘tristeza’ do comando das emoções no cérebro. Até que percebe que, em muitos momentos, é preciso deixar que o choro venha à tona e que, assim como a felicidade, a tristeza também precisa ser sentida.

Segundo o psicólogo Marcos Martinelle, os sentimentos precisam conviver em harmonia e equilíbrio. “Tudo em excesso é prejudicial. O excesso de alegria pode caracterizar uma euforia, o de tristeza relaciona-se com a depressão. Em relação ao otimismo, que é um sentimento que se mistura com a alegria, os pensamentos e expectativas positivas, o seu excesso pode levar a frustrações maiores”.

Ele ressalta que é muito importante ter pensamentos positivos e que isso traz muitos benefícios, entretanto o exagero pode sim se transformar em uma coisa tóxica. “Ela pode intensificar, por exemplo, a ansiedade, a tristeza e a decepção”.

Martinelle diz ainda que não se trata de não ver a realidade, mas sim de interpretá-la de uma forma diferente ao que acontece em sua vida. “Não é o que ocorre mas sim como interpretamos aquilo que ocorreu. A partir disso vamos entender se, para o contexto de determinada pessoa, aquilo traz prejuízos ou não. Quais os tipos de ‘filtros’ utilizados para amenizar a realidade? ”.

Prejuízos

O psicólogo explica também que todos nós vivenciamos nossas emoções, mesmo que essa vivência não seja totalmente eficaz. “Aquele que esconde sentimentos básicos como alegria, tristeza, raiva, entre outros, pode acreditar erroneamente que eles o façam ser mais frágil. Nossa sociedade tende a valorizar mais as pessoas ‘fortes’. As pessoas que não se abalam, não choram em público são parabenizadas. Mas esquecemos que a vulnerabilidade e a tristeza são emoções saudáveis como qualquer outra”.

“Decepções e frustrações acontecem todos os dias e, mesmo com tantos pensamentos positivos, algo pode dar errado”

A exclusão total dessas vivências pode levar a algumas válvulas de escape perigosas como o consumo excessivo de álcool, comer compulsivamente ou ainda abusar do uso de substâncias entorpecentes. “A melhor maneira de lidar com isso é reconhecer aquilo que está sentindo. Depois é preciso observar as sensações físicas, como o corpo reage. Em seguida é necessário buscar recursos para que sua mente permaneça no momento presente. Busque um nome para aquilo que não consegue descrever e comunique alguém que lhe seja próximo: um amigo, um familiar”.

Martinelle diz ainda que validar as emoções é ter autocompaixão e cuidado com você mesmo. Aceitar que nem tudo vai dar certo sempre faz com que seja natural o fato de que não temos controle de tudo e, consequentemente, muitas coisas podem acontecer independente das nossas intenções ou desejos. “Decepções e frustrações acontecem todos os dias e, mesmo com tantos pensamentos positivos, algo pode dar errado”.

Ajuda

Se por acaso a pessoa perceber que não consegue lidar sozinha com as suas frustrações é preciso procurar ajuda profissional. “Algumas pessoas conseguem ter repertório suficiente para lidar com determinadas situações, porém, para aqueles que sofrem mais a terapia com psicólogo é fundamental.

Mas, e se mesmo assim permanecer a impressão de que nada dá certo? Martinelle salienta que é preciso compreender a realidade e não usar um ‘filtro negativo’ com foco apenas naquilo que deu errado. “Podemos aprender com os erros mas, pensar somente neles em todas as situações pode trazer também uma realidade distorcida. Busque evidências, veja o ‘outro lado da moeda’, assim é possível ter um panorama da sua vida e ver se realmente sempre foi assim”.

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